Olha o LANÇA

Clock Tempo estimado para leitura: 16 minutos (?)
Em fevereiro desse ano (no momento em que escrevo esse texto, ainda estamos em 2015, visitante do futuro), a excelente revista VICE publicou o artigo “A Silenciosa Epidemia de Lança-Perfume no Brasil“. O artigo vale a leitura, porque além de bem escrito é o prelúdio pra tudo de que esse texto espera tratar. Sério, se puder gastar uns minutinhos, leia. Eu já havia ouvido falar sobre lança-perfume e loló, embora numa quantidade que poderia ser contada nos dedos, no máximo incluindo alguns dedos dos pés. E uma porção ameaçadora dessas vezes tinha muito a ver com a imagem que eu vou mostrar daqui a pouco. É só clicar no continuar lendo!

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[TOC]: Como eu organizo as coisas que eu tenho que fazer

Clock Tempo estimado para leitura: 10 minutos (?)
Antes de entrar na faculdade eu li um livro sobre gerenciamento de tempo (popular pare de procrastinar). Clique no post, nem que seja para me zoar posteriormente, porque a capa do livro parece (talvez é) muito um autoajuda da vida. Contudo, um aviso: esse post é parte da série TOC, que torna públicos meus miasmas organizacionais mais absurdados, e é um dos mais chatos que já escrevi.

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Galera faz um ano que eu não escrevo nada aqui

Okay. Faz um ano que eu não posto nada aqui. Decidi só postar isso que já tava pronto nos rascunhos (há mais de cinco meses) para fingir que nada aconteceu.

UPSTREAM COLOR
Shane Carruth (2013)

No Filmow, a sinopse do filme é “um homem e uma mulher se unem e lutam para reunir os fragmentos soltos de suas vidas destruídas”. Sinceramente. Não sei que ser escreveu isso, mas também não sei se eu saberia escrever algo melhor, ou mais condizente com o filme. Tá tudo ali. Tem larvas, uma espécie de hipnotismo, porcos (e cirurgias), uma fotografia bonita, cópias de livros e um pouco de origami, é claro. Durante o filme eu fiquei o tempo todo tentando entender do que se tratava. Pensei em metalinguagem (o autor controla seus personagens numa obra da mesma forma que os personagens do filme eram controlados por outras pessoas).

Screenshot_012_largeSua vida antes do filme…

Pensei em condicionamento humano (há, parece, uma conexão entre os personagens HIPOPOTIZADOS e os porcos DOMESTICADOS). Só que tem o lance do romance no filme também. Cheguei a pensar no clichê da relação hospedeiro x reprodução (quando os protagonistas desesperadamente buscam um ao outro – quase que como para reproduzir as larvas – o que não me parece acontecer no filme). Mas enfim. É bem provável que todos esses sentidos estejam contidos no filme. Tem uma parte bem legal em que os protagonistas começam a confundir suas lembranças (um diz que viveu tal experiência na infância – mas o outro diz que também viveu). O que me lembrou do comentário do John Frusciante sobre o álbum que ele fez depois que casou: “Letur-Lefr for me signifies the transition of two becoming one“.

uc-orchidSua vida depois do filme…

Afinal de contas, a sinopse não é tão ruim assim. Só erraram uma coisinha. O certo é: o espectador luta para reunir os fragmentos soltos de suas um filme desconstruído. Ah, cabe o comentário de que o cara é diretor de Primer que, bem, é um puta filme. A 5ª estrela provavelmente virá quando eu assistir ao filme novamente.

CASHBACK
Sean Ellis (2006)

Esse é mais tranquilo. Um filme sobre a descoberta da mulher, por parte do homem. É uma perspectiva masculina e que pode passar por machista, principalmente por conta de alguns personagens meio caricatos. Mas está tudo ali. É o contato entre os dois mundos estranhos, seja por motivos de imposições de papeis socioculturais, seja por simples diferenças biológicas e de constituição física. Muitas vezes a gente esquece que o amor é esse embate entre diferenças e a capacidade de nós superarmos elas (e nesse caso o filme é meio heteronormativo, mas todo amor envolve dois seres essencialmente diferentes). É por isso que o filme tem o romance que pode parecer meio bobinho e deslocado. Fora extrapolações de roteiro – porque o filme em si é bem simples – alguns aspectos que talvez façam você se interessar: cenas bonitas, com certa preocupação artística, algumas situações interessantes. Mas tem várias ressalvas: o plot device da insônia a torna glamourizada, a concepção de beleza é meio torto (todas as mulheres mostradas obedecem rigorosamente aos padrões de beleza vigentes). Mas enfim, nada a perder com o filme.

DJANGO
Você sabe quem (2012)

Estranho. O filme é eterno (no sentido de longo) e tem o feeling do diretor aqui e acolá, mas não do mesmo modo que nos outros filmes. Parece que ele amaciou seu próprio estilo, sei lá o que aconteceu gente. Ou então, eu que, depois de alguns filmes dele, comecei a achar que estilo já começa a desbotar. Não tem como criticar o roteiro, as cenas e os diálogos; tudo tem a mesma carga icônica. Porém, alguma impressão me fez não gostar tanto quanto, por exemplo, Reservoir Dogs. Um elogio: o uso do sangue, as cenas em que ele SALTA de vasos por conta de tiros e outros são belas. Bem melhor que Kill Bill, sem perder o exagero do trash. Outro elogio: Leonardo DiCaprio que está cada vez menos parecido com um buldogue e mais parecido com um ótimo ator.

IRREVERSÍVEL
Gaspar Noé (2002)

Esse não é nem um pouco tranquilo. Como começar? Pelo fim. Para que a tragédia-final (e motiva todos os acontecimentos do filme) permaneça na mente de quem assiste durante os 94 minutos de duração. A filmagem tem o quê epiléptico de Enter the Void (a abertura é bastante similar), os cenários decadentes e coloridos e à noite estão aqui também. Porém, cabe ressaltar que eu não diria que é um dos meus favoritos porque perdi uma grande parte do filme. Depois de anos de internet, as cenas que deveriam chocar absurdamente não fizeram tantas cócegas. Mas preciso admitir que esta aqui em baixo é de tremer o beicinho. O que é interessante. Pois o que mais me afetou (e me fez mal) não foi uma cena em que acontecesse algo horrendo, pelo contrário. Foi aquela em que tava tudo bem. Por enquanto…

irreversible-4Não adianta. O que aconteceu, aconteceu. É irreversível…

SECRET WINDOW
David Koepp (2004)

Por algum acaso do destino meu palpite sobre o “segredo” do filme estava certo. Por isso o filme perdeu a graça em alguns minutos. Ainda assim foi até interessante porque eu passei o filme caçando as pequenas dicas que ele vai dando até finalmente revelar a historinha. Mas enfim. Meu único porém é: Johnny Depp. Credo como esse cara é ruim. Ele fez a loucura do personagem adquirir aspectos jacksparrowanos. O overacting dele me cansa (embora eu ache que ele seja mesmo assim, nesse caso seria falta de acting) e mesmo para esse personagem ficou ruim.

THE SKELETON KEY
Iain Softley (2005)

Ótimo filme, conseguiu me surpreender bastante no final. Porém, a explicação acabou tirando o medo. Talvez, para algumas pessoas, o final elucidativo talvez fosse aterrorizá-las ainda mais. Não foi o meu caso.

DEAR ZACHARY: A LETTER TO A SON ABOUT HIS FATHER
Kurt Kuenne (2008)

Putz. Quase que lágrimas masculinas foram derramadas em vários momentos. Como sempre é o caso de bons documentários, a realidade é bastante esquisita, mais estranha que a ficção. Uma sucessão de bizarrices, aliada à personalidade incrível e tocante do pai de Zachary e de todos que deram seus depoimentos. Não deixa de revisitar também o conceito do Stalin de que a morte de um é tragédia e a de milhões estatística. Num mundo cada vez mais amortecido pela hiperexposição de mortes e mortes na televisão e internet – causando, inclusive a síndrome da hiposensibilidade à tragédia, que comentei acima e da qual eu sofro – esse filme consegue provocar em quem assiste um misto de emoções ímpar. E quem sabe passe a reavaliar as tragédias televisionadas de uma forma mais “toda tragédia é uma tragédia”. Valor à vida, por mais clichê, brega e moralista que isso soe.

O OLHO QUE TUDO VÊ
Marc Evans (2002)

Sabe aquele típico argumento do autor incompreendido de “vocês não gostaram porque não entenderam?”. Então. Normalmente ele me causa um certo repúdio, mas dessa vez ele poderia ser usado com propriedade. Eu não entendo por que as notas desse filme são tão baixas, eu não entendo como alguém pode não gostar dele. Quer dizer. Eu até imagino. O sujeito vai atrás de um filme de terror/suspense. Provavelmente seguiu a indicação do balconista, que tava querendo locar aquele filme que já estava empoeirado na prateleira. Chegando em casa, o cara que alugou encontra algo mais fora do padrão e que, para quem estava esperando sustos ou tensão, é apenas decepcionante. Mas o assunto abordado pelo filme é tão senso comum e óbvio (nem por isso ruim) que é impossível que a pessoa não note que o valor do filme se expande. Mesmo que seja alguém que está esperando um filme para assistir com os amiguinhos e “levar uns sustos” (nenhuma crítica a isso – conheci Drag Me To Hell assim e foi uma das surpresas mais gratificantes). Esse filme, aliás, é genial em uma coisa que o Would You Rather peca: ele foca nos dramas pessoais dos personagens.

CROSSFIRE HURRICANE
Brett Morgan (2012)

Tava na lista por eras, mas eu demorei para achar um torrent numa qualidade decente. O assunto “artistas” sempre me fascinou, talvez pelo mesmo aspecto que “religiões” me atraía. Só que com o bônus. Porque ele coloca pessoas de carne e osso no altar, sendo adoradas e endeusadas de maneira bisonha. E qualquer documentário, livro, produção sobre isso esbarra no “como o artista lida com a fama”. O artista é capaz do que os fãs não é. De expôr e expressar o que os fãs não conseguem, mas sentem. Ele é porta-voz de milhares de pessoas ou até de uma (ou mais de uma) geração. O fã cria uma relação platônica porque ele consome o artista que sofre a exposição pública e, em si, vira domínio público. Assim, o fã se vê como uma pessoa incrivelmente íntima de alguém que não tem nem conhecimento da existência dela. Enfim. Divagações à parte, é óbvio que toda essa mistura criou um documentário esplêndido. Tudo isso aliado ao fato de que os Stones eram inteligentes para caralho, cheiravam altas maconha e eram o Anticristo dos Beatles. Gostando ou não ou mesmo não ligando para eles, assista.

PULSE
Kiyoshi Kurosawa (2001)

Jesus que filme doido. Mais bizarro é que já em 2001 o pessoal tava preocupado com a internet. A arte é realmente nossa guia para o futuro. Por isso eu confesso que fico aterrorizado quando a Vicky me mostra um clipe tipo esse. Não sei qual é a direção que a arte aponta, mas, qualquer que seja ela, não te dá medo? Enfim. Eu não entendi o filme ao assistir ele. Porém, é bem acessível se você ler algo sobre. Algumas coisas que o filme tem: fantasmas, barulho de internet discada (que sempre foi bem medonho pra mim), alguns suicídios e manchas na parede. De resto: assista e leia.

THE BIG LEBOWSKI
Joel Coen (1998)

Puta que filme ruim. Por que as pessoas gostam disso? Tem o esqueleto de um filme passível de culto, mas a execução é tosca. Algumas cenas, alguns personagens, alguns diálogos. De resto, tudo é soterrado em bobagem e situações nhebas, sério, alguém me explica por que as pessoas gostam disso?! Quero acreditar que a semelhança nominal com o tio BUK seja apenas acaso. Porque, coitado, se foi intencional, o velho deve estar tendo uma crise de vômitos no post-mortem por causa desse filme.

ROOM 237
Rodney Ascher (2012)

Se eu tivesse CERTEZA que é um mockumentary, eu daria 5 estrelas. Mas a ironia é sutil demais e eu simplesmente não consegui ter essa visão do filme. Por isso avalio pelo que eu pude ver. Se alguém viu algo mais nele, por favor, me avisa. Porque eu tou desesperado para tirá-lo desse limbo de nota. Vamos lá, chamam várias pessoas para falar sobre o Iluminado do Kubrick. E santo deus, parece que cada um dos entrevistados tá besuntado em um ácido lisérgico diferente, mas igualmente intenso. É interessante notar algumas coisas que o Kubrick fez e que passaram despercebidas, mas de resto, a narrativa proposta pelos entrevistados parece paranoia. Ainda assim, é a prova audiovisual da morte do autor e do domínio público da obra. Apesar de surreal e doido, está tudo certo. O filme, intencionalmente ou não, contém esses significados. E não é um tempo totalmente perdido. Só alguém por favor me diz onde tá o rosto do Kubrick nas nuvens, pois se ninguém achar eu volto e mudo a nota porque daí eu tenho certeza que é mockumentary.

Rápido comentário sobre oito livros

THE NAKED LADY WHO STOOD ON HER HEAD
Garry Small, Gigi Vogan

O livro dispõe (numa interessante ordem cronológica) casos psiquiátricos errr… excêntricos e curiosos. A linguagem é simples e precisa. Há elementos claramente maquiados ou mesmo criados, para tornar as histórias mais atraentes, mas isso não tira o mérito do livro. É uma leitura interessante. Um livro leve, sem ser leviano. Diferente de outros
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O CONCORRENTE
Stephen King

O livro é muito rápido. Não sei se tem outra maneira de ler sem sair devorando as páginas. A narrativa é empolgante e tem uma cena de intestinos de fora em um avião. O thrill já fica claro na forma como os capítulos são dispostos, como em um countdown. Eu já comentei uma cena de intestinos de fora?
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A DANÇA DA MORTE
Stephen King

Puta que livro foda. Depois da Torre eu não pensava que iria experimentar a sensação (incrível) de ler uma narrativa épica tão cedo. Sem chatices de definições literais. É um livro enorme, com personagens incríveis. A atenção dada às múltiplas tramas, às situações, a tudo, faz com que você termine o livro, depois de já acostumado a viver, por tabela, o caos pós-apocalíptico retratado e pense: e agora? Como eu vou viver? Ou te faça desejar uma pandemia 99% letal. Provavelmente a última opção.
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EVERYTHING’S EVENTUAL
Stephen King

São 14 contos (uns algo mais que contos). O primeiro, quase um revival da morte do Rodrigo Santoro no Lost, é desconcertante. Seguido pela figura sempre oportuna de Satã e um pobre menino. O terceiro é um dos mais densos. Curiosamente nesse conto tem uma incrível menção às frases de banheiro. Os próximos dois contos têm “Death” no título original. Ambos interessantíssimos, embora eu prefira o primeiro. E agora dois que merecem uma pausa.

The Little Sisters of Eluria é um spin-off da Torre Negra que sei lá como eu ainda não tinha lido. Não vai fazer tanto sentido se você não conhece a série, mas puta merda, que narrativa incrível. Eu soube que tem uma HQ contendo essa história e sinceramente eu mal posso esperar para ler. Everything’s Eventual dá nome ao livro por um motivo simples: é muito foda. A ideia é genial e parte do prazer está em descobrir aos poucos algo que eu antecipei, mas poderia ser imaginado na primeira página: o conto é foda demais.

Após esse conto, um que é pouco menos jawdropping. Mas o livro retoma o fôlego e os 6 últimos textos são absolutamente incríveis. Para um comentário rápido, está ficando prolixo demais. Leia.
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MADAME BOVARY
Gustave Flaubert

Outro livro que eu não sei onde eu tava com a cabeça por ainda não ter lido. A narrativa se enrola um pouquinho em um ou outro trecho, mas basta ter frequentado o ensino médio para lembrar o porquê. A história é interessante e reúne todos os elementos para fazer um bom livro. Traição, romance e uma cirurgia em um cara com o pé torto. E é claro que a cirurgia dá errado.
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O RETRATO DE DORIAN GRAY
Oscar Wilde

Esse livro tem um ritmo mais interessante que o Madame Bovary e personagens mais densos. O apelo filosófico do texto é incrível, tanto no seu tema principal, como através, principalmente, de Lord Henry e seus paradoxos. A ideia do retrato poderia ter sido uma ideia do Stephen King, porque, vamos combinar, ela é bem assustadora. Um daqueles livros que dispensa o meu comentário de recomendação.
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TEMPO DAS FRUTAS
Nélida Piñon

Se enquanto eu escrevo esse texto essa senhora não bater as botas, gostaria de deixar claro que considero ela um dos melhores contistas(?)/cronistas(?)/cadê os acadêmicos de letras(?) vivos. Essa mulher foi a escritora que melhor conseguiu executar uma das funções iniciais da poesia: a expressão de emoções. É uma leitura muito densa. Você sente que ela está brincando com você através das palavras. Por quê? Porque ela pode. Ah, vale lembrar também a imagética forte, a recorrente visão feminina (será que ela é a nova Clarice? Vamos citar Nélida Piñon no Facebook) e a universalidade dos textos. É isso.
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ADMIRÁVEL MUNDO NOVO
Aldous Huxley

Hoje é o dia dos livros-que-eu-já-deveria-ter-lido-há-muito-tempo-e-não-sei-por-que-só-fui-ler-agora. Com esse eu fechei a tríade distópica (os outros são 1984 e Laranjinha do Burgess). Claro que tem outros livros mas eu entendo por que o pessoal agrupou esses três. Eles são como três flechas que saem do mesmo ponto mas tomam rumos distintos. Orwell e Huxley são mais estruturais, debatem os aspectos do funcionamento da sociedade em suas distopias. Burgess mostra um lado mais individual, psicológico e social. Mantêm, sim, pontos comuns, como a preocupação linguística.

Mas enfim. Falando especificadamente de Admirável, a narrativa tem fluidez e empolga. A reserva dos selvagens, o soma, o entretenimento pago e, principalmente, o sistema de castas temperado com conhecimento biológico são aspectos que diferem o livro de Huxley das outras distopias.
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gifcertoVocê depois de ler esses maravilhosos livros

Um post que você vai ter que ler. Porque é sobre você.

Eu sou mesmo muito engraçadinho. O sujeito que atende pela alcunha de Magno Luiz Reichert (e que poderia ter se chamado Jonas) é uma das pessoas do meu círculo de amizades que eu mais tento fazer ler esse blog. Mas ele tem suas razões para não fazer isso. Uma delas, a mais plausível depois do League of Legends, é que talvez muito do que eu escreva aqui já foi discutido com ele. Mas acho que você estava certo sobre o egoísmo. E talvez a melhor forma de trazer você para cá, é trazer o assunto até a coisa mais próxima a você. Você.

briga ilustrativa

Eu e o Magno jogando algo no estilo do Jogo da Vida no Senai

A verdade é que na última vez que saímos, eu estava no carro com o Luiz e com o Marcelo e olhei para o Logan (prata? Não confio na minha capacidade de definir cor de carros) na nossa frente e eu não conseguia entender que era você dirigindo aquela porra. É idiota, mas foi uma epifania que me atingiu bem forte. É o Magno-da-espuma-de-boné que está dirigindo um pedaço de metal pesando 1025kg com rodas? É o Rapper Joe conduzindo um veículo capaz de atropelamento massivo? É o Majin Boo, Rocombole? Você sabe que a lista é grande…

Porque a percepção do tempo é aquela coisa bizarra. É verdade que a gente notou muita coisa que aconteceu enquanto crescíamos juntos. Mas mesmo as mudanças físicas e mentais mais severas, ou qualquer coisa, foram mais efetivas do que escutar você arranhando a marcha na Marquês de Olinda.

Serginho Groisman5750

Serginho Groisman aprova esse post

Eu não tenho como saber o que vai acontecer num futuro próximo. A verdade é que, graças a jesus, tomamos caminhos diferentes (imagina a gente estudando em Vancouver agora adsusaduhasdhu). E não tem como dizer se nós vamos estar presentes no momento das respectivas mortes (embora eu tenho quase certeza de que apenas um de nós conseguiria isso).

Porque, veja bem, os últimos churrascos (é engraçado que essa nomenclatura na maior parte das vezes era equivocada né) tiveram um feeling nostálgico. Cedo ou tarde caíamos no assunto “passado” e era um suplício para sair dele. E você não sabe como é tentador começar a enumerar as piadas internas, as situações e tudo mais. Eu mesmo já fiz isso através do texto. Mas você reclamou que eles eram muito longos, né. Vamos lá.

VFS-Logo

Vancouver Film School. UHDSAUHDSAUHSDAUHSDAUHDASUHSDA

O objetivo do texto era dizer que, porra, eu fiquei orgulhoso para caralho de te ver dirigindo. E dar o braço a torcer de vez em relação àquela discussão ferrenha que a gente teve uns anos atrás sobre o egoísmo humano. Porque ele explica de certa forma esse orgulho que eu sinto. Eu vejo em você um reflexo da mudança que eu mesmo sofri nos últimos anos. E gosto da ideia de ter sido parcialmente responsável pela sua, ou qualquer coisa que o valha.

Não é apenas dirigir, que francamente não significa tanto para mim, mas foi a ideia atribuída a isso. É uma carga que inclui você estar fazendo um curso que te satisfaz na universidade (e daí eu vou lá e mando mensagem “O Magno tá pirando falando sobre planos” uhdashuasduhsda. Eu estava interessado, okay, só achei engraçada sua empolgação. E fiquei feliz por isso). Inclui você ter amadurecido. Em breve você vai morar sozinho e se você fritar bifes com tomate na chapa todo dia, dificilmente vai passar fome.

Mano, não esqueça as coisas que a psicóloga te disse (e que eu já esqueci) naquele seu teste vocacional. Não perca essa porra de curiosidade, não perca a vontade de questionar as coisas, não perca coisas pelo caminho. Eu sei que o final dessa quest da vida é uma bosta. A melhor metáfora que eu consigo pensar é que ela é como um supermercado cheio de coisas fodas. Você pega uma cestinha, mas tem tanta coisa incrível que resolve pegar um carrinho. Porra, depois de encher quatro carrinhos você chega ao caixa e ele te diz que não aceita cartão. Você só tinha cartão. E daí o caixa te dá um tiro, claro.

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Uma outra metáfora para a vida

Mas a verdade é que mesmo sem um propósito egoístico, pode acontecer de você encontrar uma pessoa aleatória no mercado (tipo eu). E trocar os bagulhos de dentro do carrinho comigo. E quem sabe eu tenha um filho e pegue o boné de espuma (que troquei com você no corredor dos Assuntos Metafísicos – um corredor que achamos bem idiota – no supermercado Life) e troque com mais outras pessoas. Eventualmente alguém faça desse boné algo que voltará às prateleiras do supermercado. É a coisa mais sensata, em termos de propósito, que eu enxergo na vida. E a maneira mais fácil de causar esse efeito é manter suas cestas sempre cheias. Apesar de eu sugerir você evitar o corredor de Assuntos Metafísicos, interaja com as pessoas das filas do caixa e do açougue, porque isso também ajuda no único propósito maior que eu enxergo para a vida.

HandshakeInTheStreetMagno depois de muitos anos se tornou um profissional de sucesso. Mas ele ainda ama encontrar pessoas na rua.

Sei que isso não é problema para você. Mas espero que dê tudo certo aí na sua jornada pelo supermercado. Que você construa prédios verticalmente estáveis. Que você cuide da sua saúde (mental, ainda mais se você eventualmente me pagar por isso). Que você sempre tenha dinheiro suficiente (de preferência mais que isso). Quando eu vim para Joinville eu era aquela coisa assustadoramente medonha que você conheceu. E parte grande de quem eu sou hoje (para bem ou ruim) é sua culpa. Como é bom se livrar dela.

E isso vale mais do que nossa principal divergência (sobre se música eletrônica é música ou não – asuhdusdahudsh, você sabe que é brincadeira).

sasha on knees praying

O pessoal que frequenta o corredor de Assuntos Metafísicos é meio esquisito

“É natural”

E também um clichê bem sem graça. E o que mais me assusta é o alcance dele. Porque vai do ativista-canabinoide (“É natural, brother“) até as donas de casa (“Uma amiga de uma prima falou desse chá, que é natural“). Com efeito, a busca “remédio natural” no Google traz 7x mais resultados que “alopático”. Também é uma busca superior à “remédio convencional”. Claro que não é superior à busca “Coca Cola câncer”. Mas temo que é por causa da conveniência do Google omitir o acento.

mamona

Mamona, naturalmente, sua semente é venenosa. Artificialmente, se faz biodiesel com o seu óleo. Progresso é uma merda mesmo.

Analisar quantidade de resultados no Google pode não fornecer muito indício, mas é curioso como, no cotidiano, “natural” se tornou um adjetivo que qualifica, automaticamente, a coisa a qual ele se refere como “positiva, aceitável”. “Eu tomo chá que é mais natural”. Sério, pesquisem “chás naturais” e tenham azia com os resultados. Então vamos começar pelo que significa algo natural.

O Houaiss define natural como, poxa, são 18 definições diferentes. Para resumir, etimologicamente vem do latim para ‘feito ou dado pela natureza’. E é essa a definição que abrange o assunto desse post. A ideia de que algo feito ou dado pela natureza é irrestritamente bom. E quando o sujeito ataca um medicamento alopático isso é geralmente embasado num misto de conspiracionismo farmacêutico e crítica aos efeitos colaterais.

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Tem apenas uma coisa natural nessa foto. Que é o motorista do táxi reclamando do trânsito.

Mas, em essência, é uma crítica à intervenção do homem na natureza que, por si só, “já seria perfeita”. Pois eu te digo algo. Agradeço a deus pelo homem não se contentar com a “perfeição da natureza”. Repense todos os seus hábitos e veja quais deles são naturais ou não. Mas a coisa é mais curiosa. A Forever, uma empresa que explora fitoterapia, funciona como pirâmide. Ou seja, o negócio é embasado no mais artificial – e nem por isso ruim – recurso humano: o dinheiro.

A aceitação tão espontânea de tratamentos alternativos tem em si um certo misticismo. É a falta de compreensão sobre a ciência e excesso de crença. De que talvez “o que deus criou é bom”. De que “se é verde não faz mal” (ao que eu sugeriria que comessem algumas mamonas (com semente). E isso não é uma crítica direta aos tratamentos alternativos. Tome, por exemplo, a aspirina. O princípio ativo é encontrado (e daí ela foi descoberta) na casca do salgueiro (leia mais aqui). Naturalmente. De maneira geral, para obter um remédio é, antes de tudo, isolar o químico que causa o efeito desejado. E essa é a primeira parte “artificial”.

Depois, você descobre uma forma, por meio de reações, capaz de resultar no mesmo composto químico. Criando o princípio ativo em laboratório e evitando a necessidade de cultivar quilômetros de salgueiros para fazer aspirina. Não é tão difícil de compreender. Mas não se resume a isso. Como no caso da aspirina, o princípio ativo muitas vezes é melhorado, utilizando-se do conhecimento químico e biológico, como a modificação no princípio ativo que tirou a irritação gástrica (um efeito colateral comum).

natural

“É natural”

E são os efeitos colaterais dos medicamentos que, às vezes, induzem os militantes da medicina natural (porque, como os defensores da legalização da maconha, parece que a militância é obrigatória) a bradarem contra a indústria farmacêutica. “Porque quando eu tomo um chá, eu não sinto efeitos colaterais”. É claro que não. Além do químico desejado, você está ingerindo, junto, um monte de substâncias químicas que podem causar várias reações no seu organismo. Tudo isso, é claro, numa concentração variável e, por vezes, muito menor que a dose necessária para a plenitude dos efeitos.

Mesmo um medicamento, isolado, concentrado, na dose estipulada como ideal, mesmo assim, causa efeitos colaterais ou seja, reage com outras partes do corpo, que não o alvo, ou causa algum outro tipo de estímulo. Como vocês se convencem de que algo cheio de outras substâncias, com uma concentração variada do princípio ativo, com as variações biológicas que, afinal de contas, dependem de fatores como condições climáticas, do solo, etc; como vocês se convencem de que isso é realmente muito melhor do que algo artificial?

É simplesmente bizarro, porque esse tipo de desconhecimento não se restringe aos medicamentos – embora, acredite eu, esse seja um dos mais perigosos. No episódio do “bicho da Coca-Cola“, um dos comentários no Facebook dizia: “é, a Coca é ácida e um bicho, estando em meio ácido, boa coisa não deve ser“. Morte ao meio ácido. Eu acho que eles deviam ver esse vídeo. Ou seja, desconhecimento do básico de química não é algo exatamente inesperado quando se olham as estatísticas de falta e despreparo dos professores.

É verdade, existem fatores bastante preocupantes sobre a indústria farmacêutica, como aponta essa palestra do TED. Muitos resultados negativos não são publicados e acabam por gerar verdadeiras catástrofes. Além disso, em se tratando das cifras que estão envolvidas, é difícil estabelecer pesquisas que são completamente puras em intento e interesse. Porém, será mesmo que as pessoas realmente estão (se) levando a sério quando dizem que “natural é melhor”?

É fácil demonizar a indústria farmacêutica quando você consegue dormir com a facilidade de uma criança exausta. Quando você não precisa tanto dos remédios que suporta efeitos colaterais. A expectativa de vida, de modo geral, como indica essa pesquisa, aumentou de cerca de 38 anos em 1900 para cerca de 70 em 1990. E tudo isso graças à artificialidade. Tudo isso graças aos medicamentos que, longe de ideais, foram através do conhecimento científico desenvolvidos. E continuam sendo aperfeiçoados. Soa uma espécie de conformismo barato, apenas aceitar as coisas como elas estão, porque supostamente seriam melhores. Até hoje, para o desespero de Edward Jenner em seu túmulo, as pessoas têm um receio sobrenatural com vacinas.

tristeza

Patrícia é muito triste por usar maquiagem, tingir o cabelo, fazer as unhas, vestir roupas, ter uma casa, janelas, andar de patinete, ter acesso à internet, almoçar todo dia no McDonald’s. Ela queria uma vida mais natural!

Sendo que não há nada mais natural do que química. Nada. Utilizar reações químicas para produzir compostos químicos é o que garante a possibilidade da vida. E é o que, com a ciência, garante a possibilidade de uma vida melhor. É muito fácil se tornar um ativista dos medicamentos naturais tendo a comodidade de, em caso de algo muito grave, recorrer para a medicina convencional. A demonização do artificial soa bizarramente hipócrita, quase como uma birra antiprogressista.

Então hoje, olhe para a tela – artificial – sinta a cadeira reagir com a força normal – um fenômeno natural, exercido por um objeto artificial. Encha os pulmões de ar – natural – e solte um suspiro, que deveria ser um agradecimento. Por termos tantos confortos artificiais. E ótimos. Tipo as playlists do Youtube.

papelhigi

“Ah, mas papel é natural” – “Aham