Arquivo mensal: janeiro 2012

A supervalorização da cultura estrangeira e basicamente o porquê de devermos ter medo disso

Olhe para o lado. Eu vejo inúmeras páginas de HQ’s cobrindo minha parede, com alguns diálogos em inglês, outros não. Olhe para o outro lado. Okay. Nada desse, ao menos para mim. Ainda assim, se olhar para frente, verei uma miscigenação anglo-portuguesa, eu fico cada vez mais reticente em relação a esses tipos de termos que venho usando por aqui. Vejo a dashboard do WordPress em uma miserável tentativa de aproximação do que poderia ser chamado de tradução.

Esse, no entanto, não é um post de crítica à tradução do WordPress. Não é, também, um post de crítica a traduções. Acontece que importamos, com uma facilidade inversamente proporcional ao valor que damos à nossa cultura, padrões comportamentais estadunidenses como se o American Way of Life fizesse algum sentido. Mesmo com o desmoronar dos yankees, mesmo com a crise mundial, mesmo com o caralho a quatro, vocês são capazes de enxergar isso acontecendo?

E não há problema nisso, também. Voltemos no tempo e auscultemos a senhora Tarsila do Amaral (quando criança eu poderia facilmente classificar a pintura dela como bizonha e não me sentir mal por isso. Bons tempos) e aquele marotão do Oswald de Andrade. Há algo incrivelmente sensato na proposta antropofágica (clique aqui se você estava dormindo nessas aulas). Então, por que eu acho que deveríamos ter medo disso?

Porque nem todo mundo no Brasil é capaz de enxergar o sentido nos traços extrapolados do Abaporu. Eu mesmo, tive que ler muita coisa para ter o vislumbre de entendimento sobre aquilo. E, em se tratando de modernismos, normalmente a arte é entregue totalmente desmontada. Eu tenho medo porque temos preguiça disso.

A arte brasileira, literatura, cinema (hmmm, polêmica), enfim, as manifestações culturais brasileiras são preconceituosamente rotuladas. Bizarramente, eu importei cultura americana e japonesa (é, julgue-me) durante anos a fio, sem sentir o mínimo de culpa. Eu tinha uma relação tão esquisita com minha própria pátria, que, já “escrevia” nessa época, tinha uma dificuldade imensa com um único aspecto da escrita: dar nome a personagens.

Minha estadunidensização era tão ferrenha, que eu simplesmente não via graça em nomes brasileiros. Minhas personagens eram, em uma espécie de bizarrice linguística, Johns, Kates, James. Não que hoje eu valorize nomes americanos ou qualquer nome, em geral. Tenho sérias dificuldades com esse ponto da narrativa, porque sinto a universalidade se esvaindo a cada limitação, seja cronológica, geográfica ou das personagens, que coloco.

Pensar tão centralizadamente, mesmo que em caminho oposto, como no ufanismo, ou já que usávamos exemplos de movimentos literários a Anta (esqueceu dessa aula, também?), é um problema que justifica o medo supracitado. Pensar tão unilateralmente impede que desfrutemos da possibilidade de um intercâmbio em tempo real, que basicamente se restringe ao Omegle e ao ChatRoulette (brincadeira), com, o que hoje parece bobo, o resto do mundo. Para que precisamos de ainda mais limitações para um bom uso da ferramenta “internet”, sendo que já lutamos demais contra a praga da procrastinação, a enxurrada de inutilidade e essa memória volátil?

E é aí que chego em um ponto interessante. Esse acesso que adquirimos com a internet trouxe uma espécie de oligarquização cultural. Não mais, apenas dos EUA. O Japão com seus animes bonitinhos (em alguns casos, seus pornôs de tentáculos) está criando monstros que atendem pelo nome de Otakus. Eu não sou livre de influências, poxa vida, mas há uma clara distinção entre ser um mosaico, em teoria consciente, e um painel unicolor. Até porque você perde muita coisa com isso.

Há tanta coisa igual, tanta coisa clichê, que qualquer coisa que difira um pouco desse padrão industrializado de cultura se sobressai instantaneamente. Mas céus, às vezes, até a criatividade internética parece seguir o ritmo de produção da linha de montagem dos tênis da Nike. A diferença é que não são vietnamitas famintos produzindo calçados que eles nunca irão usar.

Eu vejo um cenário degringolando. O conceito de meme do Dawkins, que só conheço superficialmente, acredito eu, não previa que houvesse um estágio industrial dessa informação, de modo que ela… perde a graça. A incorporação à rotina pode geral alguma coisa na literatura, no cinema, na arte em geral, mas mostra o problema da supervalorização da cultura estrangeira. Repetimos ad infinitum um ritual de costumes que não são os nossos, sacramentamos essas ideias. O que levanta uma questão ainda melhor. O que é cultura estrangeira?

Recentemente, ví um vídeo que me deixou… animado. Era um sujeito que havia feito algumas experiências envolvendo DMT (um dos componentes da ayahuasca, sim, eu copiei e colei, o que me lembra do Glauco e do Glauco Mattoso e nossa, quantas linkagens. Faça uso do Google e aumente seu QI em 10 pontos). Mas, basicamente, essa não foi a razão pela qual eu levei o sujeito a sério, até porque suas descrições soavam um pouquinho lunáticas e de portas da percepção eu já tenho minha dose com o John Frusciante.

O cara, Terrence McKenna, além de um sobrenome bizarro, fala no vídeo mencionado sobre a produção cultural. Então, eu volto àquela pergunta feita anteriormente, com uma resposta: do ponto de vista individual, toda cultura produzida por outras pessoas é estrangeira. E essa é uma maneira muito interessante de pensar, porque força você a tomar um caminho, de duas opções: você se torna culturalmente passivo ou cria sua própria cultura.

Essa ideia me fez adquirir uma nova perspectiva sobre as coisas que eu considerava toscas no mundo. O fato do indivíduo estar produzindo algo, com alguma inovação, é digno de louvor. É aquela ideia de “você está falando a maior besteira do mundo, mas morreria pelo seu direito de falar”, mutatis mutandis, aplicada à produção cultural.

Mas, José, me diz uma coisa. Se a cultura estrangeira é tudo o que eu não produzo, se todo mundo produzir alguma coisa, ninguém vai consumir e tudo vai explodir, serão tantas culturas que o mundo não vai aguentar, aliens. Calma, History Channel. A inovação é outra farsa.

Farsa no sentido literal da palavra: “inovação”. De novidade. De novo. Não existe algo essencialmente novo, assim como não existe um espelho perfeitamente polido. Retomemos a figura do mosaico: o rearranjar de peças em um quebra cabeça é inovação? Literalmente não, são as mesmas peças. Claro, poderíamos queimar as peças, comê-las, digerí-las e vomitá-las, mas não vamos fazer isso. Mas o efeito final dessa reorganização é inovador, na medida do possível.

Então, mais cultura requer, necessariamente, mais consumo cultural. Entretanto, a supervalorização impede que a barreira do consumo seja ultrapassada. Devemos ter medo porque, se todo mundo pensar assim e apenas consumir cultura, as coisas ficarão incrivelmente feias. Por isso, meu amigo, volte aos seus textos melancólicos no tumblr. E você, menina, escreva mais no seu diário. E você, zelador do prédio, pare de apenas assistir pornografia e vá fazê-la. Quer dizer. É o que esperamos, mas se você não conseguir, escreva um livro sobre isso.

Viva a Bruna Surfistinha! O Dado Dolabella! Obrigado Sartre! Supla! Rogério Skylab! Valeu Miley Cyrus! Restart! Não há aqui nem um único pingo de ironia.

Porque enquanto tiver coisas ruins, significa que há pessoas que acham que podem  fazer melhor. E por coisas ruins, é lógico que estou falando do Sartre e do Skylab.

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O porquê de Dogville ser o melhor filme que eu já vi em muito tempo

Não acho que os filmes, livros ou a própria vida contenham um sentido tão grande assim. Principalmente, porque filmes costumam durar duas horas, livros umas dez e a vida… Bem, a vida varia. Mas isso não é exatamente o principal. Uma vida não é suficiente para se compreender todas as nuances da mesma, vá entender, Jesus nos fez assim. Aquele judeu cruel!

Dessa forma, nem que eu queria, eu não vou saber tudo sobre o Genocídio Armênio, a fabricação de Nunchakus, a ordenha de cabras na Irlanda. Provavelmente vou morrer sem saber talhar marfim e nunca saberei arremessar um bumerangue. Então, é presumível que muito do que eu vá falar aqui não exista, de fato, em Dogville. Indiferente ao que o nazista do Lars von Trier queria passar com o filme dele, eu irei fazer essa resenha (?).

O filme começa devagar, vou ser honesto para vocês. O negócio dos riscos no chão parece megalomaníaco demais, uma mera brincadeira com os atores, que são forçados a manipular maçanetas invisíveis, ou, quem sabe, uma forma de cortar recursos. Tudo bem que o maluco escreveu aquele manifesto, que, por sinal, parece bem divertido, se não fosse meio impossível. Então, não vou me ater às particularidades de algo que eu não conheço exatamente.

O senhor acabei me indicou o filme e me alertou para uma cena de tortura, que poderia ofender os olhos de minha mãe, maruja barbuda e musculosa que vem me acompanhando nesse cruzeiro pelo cinema. Céus, isso soa muito pior do que parece ser possível, acredite. Passa-se uma hora e alguns minutos e eu me pergunto: “como diabos esse filme pode conter alguma tortura?”. Acontece, meu amigo, que, se você não assistiu ao filme, é melhor você sair desse recinto, porque não vou poupar spoilers. Era inferível (uma dedução inerente a qualquer ser humano, aliás) desde o título que eu já assisti ao filme e que terão spoilers.

A tortura existe e foi claramente pior para os olhos da minha mãe que as cenas de sexo lésbico em Mulholland Drive. Conversando com a boa velha, após o filme, nos engajamos à busca de significações para aquela bela película. O uso das imagens como os “gângsters”, o “poder”, a bestialidade do estupro, enfim.

Há uma clara oposição entre o altruísmo e o quid pro quo, pomposa expressão latina para o que as prostitutas fazem, em geral. No começo, vemos uma Grace (a personagem principal) doando felicidade e boa vontade. Embora Tom (o pseudofilósofo) seja um covarde, sua missão inicial era usar Grace para uma “ilustração”.

Vejo aí, a voz do Lars von Trier, por meio da boca dessa personagem, em mostrar que Grace (e talvez Dogville), já que a referência ao que acontece como uma “ilustração” é repetida em momentos cruciais, trata-se dessa imagem, metáfora. Imagem de que, afinal?

Como dizia aquela frase de que a arte é uma representação humana, ou qualquer clichê de Senhor Óbvio, o filme é uma imagem, assustadoramente realista, da sociedade humana. Um dos pilares da organização humana sustenta o quid pro quo, em cenas não exibidas em pomposos festivais de cinema e, aliás, muito piores. É só ver o que o dinheiro compra, que vemos o quanto as pessoas se parecem, infelizmente, com os habitantes de Dogville.

E é para isso que eu chamo a atenção do “poder”. A imagem dos “gângsters”, das repentinas aparições da polícia, dos “pauzinhos movidos”. Tudo isso gira em torno de dinheiro. Grace, no entanto, não é pura. O final, que pode parecer beatificador e aliviante para alguns, faz dela outra criatura chafurdante naquele lodo. Não há ser humano que se salve. Não importa que Dogville seja queimada e até o pequeno bebê seja jogado ao chão depois de um tiro. Dogville é um simulacro, um microcosmo, aliás, de algo muito maior. E que está dentro de nós.

Um ponto de vista que beira o achismo, mas que faz perfeito sentido, é o que eu penso sobre o fato dos cenários não existirem. A atmosfera criada é totalmente efetiva. Tentar vislumbrar Dogville com cenários é quase impossível, porque todo o “desnudar” humano que se vê é perdido. Dogville acerta no que, acredito eu, BBB falha, pois permite, ainda que na ficção, o traçado de um perfil crível do ser humano, sem paredes para escondê-lo. Essa visão, além da presença de um narrador, aproxima o filme do movimento literário realista. Esse esmiuçar da humanidade é encontrado em um dos meus livros prediletos.

O Ateneu, de Raul Pompéia pode ter feito toda a minha sala dormir, embora tenha me deixado realmente animado com uma frase, que talvez façam os intermináveis descritivismos valerem a pena:

“O que é nulo, flutua e aparece, como no mar as pérolas imersas são ignoradas e sobrenadam ao dia as algas mortas e a espuma”

Assim como em O Ateneu, o coitado, literalmente, do Sérgio acaba sofrendo com esse mau selvagem, que é o homem. As algas mortas e a espuma sobejam em Dogville. Uma ajuda, um hábito bom, qualquer coisa altruísta, se levado à repetição, torna-se uma obrigação. Essa cobrança de “tudo o que as pessoas não precisavam”, uma ironia brilhante, é basicamente o que vivenciamos em nossas cadeias de relações interpessoais.

Nossas amizades criam obrigações. E isso não é unilateral. Ao passo que sofremos com cobranças, cobramos por nossas atitudes. Desse ponto de vista, será que um dia abandonaremos o capitalismo? Não se encaixa perfeitamente nessa lacuna ética que, talvez, seja um dos pilares da nossa evolução como espécie? Esse coletivismo individual?

O filme não nos dá respostas, nos traz perguntas. E basicamente contém a essência humana. Por isso, eu acredito que qualquer um é capaz de encontrar muita coisa nesse filme. Assim como o pessoal encontra na bíblia – que funciona em um quid pro quo, usar expressões em latim te deixam mais cult, incrivelmente semelhante ao do filme. Você não “salva” as pessoas da “comunidade” por meio de atos generosos, apenas, por ter uma compreensão do que Jesus, brother de luz, ensinou a você. Você faz isso porque tem medo de ir para o inferno tostar.

Fora o viés bíblico para justificar preconceitos. Fora o conforto de um contato individual com uma criatura gigantescamente bondosa que poderia te matar afogado em sapos, mas não faz. Embora, sejamos honestos, se fôssemos tal divindade, estaríamos nos preocupando em matar as pessoas de modos cada vez mais bizarro.

Assim, Dogville fecha um parágrafo nas minhas indagações existenciais, pontuando uma das essências humanas. Por que é essência, é imutável? Por que é essência? São tantas perguntas adjecentes, que chega a dar sono. Acho que para essas, no entanto, eu posso usar uma desculpa. Já são quase quatro e meia da manhã.

Dogville é um ótimo filme. Inspira ótimas perguntas. Eu poderia ter explorado o sentido da metáfora dos cachorros no filme, mas a preguiça me consome. E, ademais, o que eu estaria ganhando com isso?

Era melhor ter falado de espelhos

Primeiramente, gostaria de informar aos leitores, inexistentes, que esse blog é uma extensão do Before the Beginning, embora seja inútil clicar, atualmente, porque a hospedagem de tal site encontra-se com problemas de crédito. Com a inadimplência deste senhorio que vos escreve, o blog foi posto abaixo. Como minha vontade de escrever besteiras urge no momento, tomei a decisão mais ao alcance: criei um blog grátis no WordPress.

É assim que a vida funciona, às vezes. Não queremos ir ao outro lado da rua e pagar módicos cinco reais por um serviço de hospedagem. Assim como não queremos fazer sexo ou simplesmente viver. E, nós, constantemente usamos de desculpas para simplesmente fazer o que queremos, ou melhor, não fazer.

A minha desculpa, atualmente, é a chuva. E o fato de que são três e vinte da manhã. O banco, além de fechado, só processaria meu depósito amanhã. O que é uma droga.

Mas não é sobre isso que gostaria de dissertar, embora o verbo não seja, por conceito, correto, caralho, vocês entenderam o recado. O fato é que, nos últimos tempos, estive mal com um punhado de situações, er… desagradáveis. E durante esse período senti, de modo quase constante, uma irritação no estômago, uma espécie de enjoo, azia.

Novamente, como o que ela é, a literatura vem imitando a vida e eu me lembrei do Orgulho e Preconceito e Zumbis. Não, eu não li o original da Austen. Não, eu não acho que os zumbis tenham sido uma adição positiva (isso não é uma redundância). É possível notar, sem nunca ter lido o original, as partes somadas ou modificadas. No entanto, não é um review.

Acredito que se trata de um elemento do livro da Jane Austen, mas, se não for, isso não é o mais importante. Uma das personagens tem uma relação estranha com o bacio da privada e momentos de angústia e mal estar psicológico. A moça põe suas refeições para fora em via oral quando as coisas não vão muito bem. Essa relação com o mal estar estomacal, embora não chegue a ser tão extrema, acontece comigo.

Provavelmente Freud tem uma explicação plausível, envolvendo a tensão sexual e a relação entre o complexo de frustração com o desmamar, portanto, a aversão ao próprio alimento causa uma tentativa de liberação do Id na forma de ânsia e azia, BRINCADEIRA PSICÓLOGOS, e alguma tia sua vai falar que isso é encosto. Caramba, eu não quero chegar às vias de fato (eu tive que googlar o termo e, mesmo após a pesquisa, não tenho certeza se ele cabe à situação). Então, vou reescrever: eu não quero factóides, eu quero explorar a questão, sem pontuar respostas finais, como eu SEMPRE faço quando escrevo esse tipo de texto.

Estar com azia é um sintoma excessivamente ruim para mim. Tenho medo de que, se contivesse HIV, eu tomaria Eno sem muito pestanejo, caso precisasse aliviar minha azia. Acho que aquele medicamento é o mais próximo que eu posso chegar de um orgasmo estomacal. Céus. O que eu estou escrevendo?

O mal estar é, no meu caso, em partes psicológico. Isso porque eu meio que não me importei tanto para com minha alimentação nesses dias de depressão profunda (calma, o Entei no meu perfil do Facebook mostra que está tudo bem agora). Mesmo assim, já aconteceu outras vezes. Uma vozinha na minha cabeça está me xingando nesse momento. Isso porque eu estou abandonando o invólucro do cientifismo e, parecendo uma tia velha, falando sem nenhuma propriedade sobre um fenômeno facilmente explicável (por alguém que o entenda). Então, vamos ser todos tias e passar a ler as mãos de todos.

O único fato dessa história toda, é que é realmente interessante acompanhar a relação entre o físico e o emocional (embora eu discorde dessa segregação, justamente pelo que a antecedeu na frase). Acho que era melhor eu ter falado de espelhos.