Arquivo mensal: outubro 2012

Sobre a infância e a normalização do politicamente correto

Você está na rua e acaba de abrir um pacote de balas. Há em você a vontade displicente de apenas jogar o papel no chão. Afinal, você sabe que, a despeito da lavagem cerebral induzida pela mídia, não é aquilo que vai acabar com o planeta. Mesmo assim, você sofre com a batalha mental. Não se trata apenas de jogar o papel no chão, mas de se libertar da ditadura do politicamente correto. Vislumbrando as consequências de deixar o papel cair (a impressão de milhares de olhares que o censuram), você, envergonhado, enfia o papel no bolso.

Você teme mais ser flagrado jogando papel no chão do que cutucando o nariz

Isso acontece comigo mais comumente do que eu gostaria. Se há algo que me causa uma agonia sobrenatural é isso. A normalização do politicamente correto. O que, aliás, tem seus impactos linguísticos. Enquanto há algumas décadas a palavra câncer era um tabu amedrontador, hoje nossas “palavras proibidas” são no mínimo muito mais risíveis. Afinal, torcemos o nariz quando escutamos “ela é preta” ou estranhamos o senhor Drauzio Varella falando em uma “bichinha que estava lixando a unha” (http://www.youtube.com/watch?v=GTPFyx7p4yE – aos 11 minutos e 50 segundos).

Eu, pessoalmente, sou bem irritado quanto a esse tipo de tabu. A linguagem não se retém a palavras, ela as transcende. Afinal, não importa você chamar pretos de negros, o que importa é a conotação que você sugere nesse discurso. E a sociedade se contorce de raiva em frente a piadas ofensivas. Tecnicamente, apesar de fazer parte de uma minoria numérica. Afinal eu, sendo branco, heterosexual, acesso à educação formal e à Internet, não sou exatamente uma minoria social. E são justamente as minorias sociais as que mais são atingidas pelas piadas ofensivas.

Pandora abrindo sua boceta

Dessa maneira, não é tão fácil que eu me ofenda com uma piada. Mesmo as piadas que satirizam o meu modo de vida não me ofendem. Não sei até que ponto essa “invulnerabilidade” influencia na minha opinião. Porque acredito que há uma licença concedida à comédia, como existe com a poesia ou outras formas de arte. A condenação por uma piada idiota não deveria ser a polêmica ou alguma punição, mas o simples ostracismo. Eu, por exemplo, me contorço em risadas com o Louco do Saco (vide http://www.youtube.com/watch?v=Z9lIssel3eo). Mas isso pode ser apenas idiota para outras pessoas.

Algumas teorias sobre o humor sugerem que ele surja a partir da quebra em um padrão lógico esperado. Ora, (isso é uma tentativa de construir humor), se você não dá risada acerca de uma piada sobre um padre pedófilo é porque não houve essa quebra. Logo, você não achou graça por realmente achar que um padre pedófilo é um padrão lógico provável. Seja como for, o humor não é ofensivo. Ele só é, em alguns casos, muito mal construído.

As implicações do politicamente correto também atingem as crianças. Veja só os maravilhosos cigarrinhos de chocolate. Eles foram substituídos por idiotas lápis de chocolate. O bullying virou o bode expiatório para todos os problemas no âmbito escolar. Uma frase memorável é aquela que diz “no bullying, tanto agressor quanto agredido são vítimas”. Pelo amor de deus, quanta besteira! O bullying é um mecanismo inerente às relações humanas. Claro que há extremos que devem ser evitados,  mas ele pauta muitas das nossas interações sociais, nos preparando para diversas situações.

O mundo infantil é, e deve ser, um simulacro do mundo adulto. As crianças são mesquinhas, reunindo todos os pecados capitais em cada uma de suas atitudes. No entanto, elas são reflexo do que é a sociedade adulta. Envolver as crianças no invólucro do politicamente correto é construir adultos inaptos para a convivência que virá. E, minha opinião, gera pessoas sensíveis a ofensas que, na verdade, nem existem.

Para quem não sabe onde fica a casa do caralho

Para fechar a argumentação (o que é uma mentira absurda: até agora deixei tudo em aberto) eu retorno à linguagem. Há algo de incrivelmente belo na falta de papas na língua de Bukowski, por exemplo. Há uma beleza irreprimível nos nossos palavrões mais viscerais. Não podemos cercear toda essa riqueza pela simples proteção do politicamente correto. Afinal, é preciso que aceitemos a condição humana: não somos simples dicotomias, um simples rótulo restrito a bom ou mau. Devemos jogar o lixo no lugar correto, mas, às vezes, o chão é o lugar correto. E para comemorar o politicamente incorreto, uma música da minha infância.

Maria Preta subiu no pé de manga para comer maracujá
Sem querer escorregou,
rasgou toda a boceta,
costurou com linha preta,
para ninguém desconfiar


Maria Preta escreveu na tabuleta

Quem tem dinheiro come,
quem não tem toca punheta

Nota-se a clara influência expressionista e surrealista desse belo poema.

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Como e por que eu não acredito em deus

Levei um tempo expressivo até tocar nesse assunto. Não por considerá-lo desmerecedor, mas porque não via motivos para discuti-lo. Alguma coisa, entretanto, me incutiu de uma súbita vontade de abordá-lo. Como eu sei que isso caleja em muita gente, prometo tentar ser bem objetivo e apenas apresentar os meus argumentos. O resto deixo com vossas senhorias. A oportunidade de críticas diretas a instituições religiosas, de modo geral, será outro. Por enquanto, vamos lá.

O que essa imagem quer dizer?

Por que eu não acredito no deus da igreja católica?

Pode parecer que eu já estou partindo de um factoide, mas não é. A despeito disso, os católicos ainda são maioria, então começarei por eles. A razão para a negação dessa existência é simples: a bíblia não me convence, a minha experiência pessoal não me convence e as outras justificativas não me convencem. Iniciando com a bíblia.

Um grande número de pessoas parece “aceitar” um olhar crítico sobre a bíblia. Também pudera, os episódios de subjugação da mulher, para não falar de Sodoma e Gomorra seriam razão muito maior para um veto do que os preconceitos de Monteiro Lobato. E isso é só um pouco. Você realmente não precisa procurar muito para encontrar qualquer coisa na bíblia. Um dos argumentos que eu mais escuto é “ah, mas isso é no antigo testamento”…

Bem, pelo que me consta, há uma certa unidade cristã. Se você se rotula como tal, você aceita as imposições do rótulo e, até onde eu sei, o antigo testamento ainda constava no pacote “ser cristão”. “Ah, mas o antigo testamento foi escrito em um período de guerra”… tudo bem, o contexto histórico do antigo testamento deixa bem claro que esse deus era do tipo “mate o inimigo, conquiste a terra do inimigo, estabeleça leis de convívio harmônico para um povo do deserto”.

E justamente por isso, não vejo justificativas para a adoção do padrão ético de um povo do deserto em uma organização social complexa como é a nossa. Soa tão dissonante quanto adotar uma legislação à Hamurabi. Opa, eu acho que tem gente que ainda pensa assim. Se temos uma sociedade moderna que pensa com arcaísmos, não é nenhuma surpresa que um código de costumes beduínos prevaleça quase inabalável. Caso você acredite fundamentalmente na bíblia, lamento, mas esse tópico não é para você. Vá e viva a sua vida. Mas temo que você não vá conseguir dormir à noite pensando qual desses pequenos embates é o que deus sussurrou ao ouvido dos escribas bíblicos.

Claro que se basear em erros de tradução ou o que quer que seja é bastante idiota, mas é apenas um indício de que não há, de fato, como levar a bíblia à literalidade. Principalmente porque há pontos de divergência. Dessa forma, meu questionamento é a posição desse livro como código de conduta. Afinal, se a ética está nela, qual é o padrão que usamos para julgar alguns conflitos do livro? Logicamente, eu tento apenas sustentar a ideia de que mesmo os cristãos se baseiam em condutas éticas fora da bíblia, até mesmo para interpretá-la.

Ora, a falha da bíblia não prova absolutamente nada, afinal, há um considerável número de subdivisões no catolicismo devido a divergências interpretativas. Porém, sujeita as “provas” bíblicas para a existência de deus ao mesmo crivo de desconfiança das demais ideologias ali presentes.

Uma parte fundamental para o relacionamento deus vs indivíduo, segundo o catolicismo, está em uma relação de obrigações e, principalmente, submissão. Em nome de um suposto pecado original, ou da morte do filho de deus que é deus e filho e pai e espírito santo (tente entender, é pior do que o Sartre bêbado).

Sartre SÓBRIO

É por isso que a igreja confronta tão seriamente as refutações evolucionistas. Porque mesmo que seja uma besteira que não iria, de fato, alterar a fé dos católicos de verdade, ela ruiria uma estrutura milenar, afinal, baseada em um livro beduinesco. Diferentemente das religiões orientais e de outras variantes, a igreja católica é estamental e imutável. O catolicismo não tem borracha nem corretivo…

Tudo bem, afinal, o que o leva a pôr em dubiedade a existência do deus católico. Porque, juntamente com os outros dogmas centrais, ele também se enraíza na nossa amada bíblia. Qualquer tentativa de ajustar o deus para além da real presença desse na hora da deglutição da hóstia, para além da morada celestial, para além do conjunto estritamente estabelecido na bíblia tira esse deus da classificação “deus católico”.

Convenhamos que são poucos os que engolem isso. As contradições da bíblia são tamanhas e tão desajustadas com a nossa atual sociedade que muitos católicos adotam uma postura deísta. Os motivos são facilmente encontráveis em uma pesquisa que envolve a comparação entre as explicações científicas de fenômenos, os dogmas cristãos e a própria noção pessoal de deus. Não raro, isso gera uma profunda mudança no conceito de deus. E é aqui que vem…

Por que eu não acredito em um deus?

Aqui há um perigo muito grave. O conceito de deus pode ser tão deformado de suas origens cristãs (eu vou abordar as outras religiões, mas imagino que isso seja um subconjunto) que gera algumas interpretações curiosas. “Eu não acredito em deus, mas em uma energia”. “Eu não acredito em um deus de barba, mas em uma inteligência superior”. Tudo bem, fica realmente difícil refutar todas as interpretações deístas. Até porque se não há a possibilidade de refutar um deus já pré-estabelecido por uma organização religiosa, imaginem o que não seria ficar discutindo cada possibilidade.

A minha explicação quanto a quase todas as interpretações de “deus pessoal” com as quais eu tive contato é simplória. O ser humano tem um único problema: a consciência. A percepção de si mesmo gera uma angústia tremenda no Homo sapiens sapiens. Ao passo que ele se enxerga tão biológico e feral quanto qualquer animal, ele se isola pela capacidade de abstração. Não obstante a isso, ele passa a preencher essa lacuna existencial (afinal, esse é o problema do ser humano, perceber sua existência) com coisas variadas.

Freud, por exemplo, via o homem como um ser em transição. Como na evolução, as mutações ocorrem ao acaso, não necessariamente para o bem ou para o mal. Afinal, elas não são direcionadas. Assim pensava nosso amigo do cachimbo. O ser humano tem a cultura (que é um fruto da consciência, é só ligar os pontinhos) enquanto ainda retém particularidades animalescas.

A religião, de modo geral, preenche essa lacuna de forma soberba, porque ela é, até quando se insistir nisso, irrefutável. Ela apaga o sentimento de ansiedade porque ela dá uma resposta arbitrária. Remanescer crendo em um “deus-energia” me parece uma forma de manter-se preenchido por uma verdade absoluta. E admitamos: qualquer deus pessoal é irrefutável. Porém, há algo que esse tipo de pensamento não é capaz de oferecer, que é a dúvida.

O agnóstico tem a dúvida. E abdica dela. “50% de chance que existe, 50% de chance que não existe. Tanto faz”. Etimologicamente, a palavra é sutil. Agnose é negar o conhecimento. Em termos práticos, não se trata de enfatizar a existência ou não-existência, mas negar a capacidade de ser arbitrário. Negar uma verdade absoluta. Parece lógico estabelecer uma proporção de cinquenta por cento para cada lado. Tecnicamente, não.

Isso porque não hesitamos em ser ateus em relação a 99,99% dos outros deuses existentes. O que isso tenta provar? A porcentagem de chance de deus existir, ou não, depende da nossa formação cultural. Se emana de nós, seres humanos, totalmente falhos, a formação de uma religiosidade, eu vejo inúmeras razões para que ela provavelmente seja falsa. E por provavelmente falsa eu quero sugerir que a chance da sociedade estar errada, por mero retrospecto, é maior que 50%.

Não há razão para qualquer evento, apenas por ter duas possibilidades, ser distribuído equalitariamente. O embaço é puramente matemático. A chance de dar cara é, de fato, 50%. A chance de dar coroa, também, 50%. Porém, a chance de eu ter dedos na mão esquerda é a mesma de eu não os ter? Qualquer valor arbitrariamente deduzido será uma tolice. Aliás, curiosamente, a chance de eu ter dedos é substancialmente maior do que a de eu não ter. Afinal, eu estou digitando.

E esse é um dos pontos em que eu quero chegar. Estabelecer um valor arbitrário é tolo e não invalida que comprovações diminuam, sim, a chance de um evento delas dependente.


Matematicamente: deus = tangente de 90º

Tudo bem. Os subterfúgios matemáticos foram muitos, mas é claro que isso não invalida sua crença. Aliás, se você está esperando para ser plenamente convencido, lembre-se de que esse é o post de título “como e por que eu não acredito em deus”. São razões que me convenceram. Não há obrigatoriedade que você engula esse papo matemático.

Por que você se importa?

Porque a sociedade em que eu vivo acredita. Decisões que deveriam ser laicas são intrinsecamente relacionadas a ideias que eu julgo falsas. Eu me afeto com isso. Afinal o tabu para com o sexo é indissolúvel da maioria das crenças religiosas. É feio ser contra os cristãos? Reflita, mesmo sendo eticamente judaico-cristão, se é justificável matar um embaixador que nada tinha a ver por causa de um vídeo estúpido? Tudo isso amparado pelo invólucro no qual a religião é envolvido, afinal “não se discute futebol nem religião”.

O resultado é estupidez engolida sob o pretexto de manter o “respeito à religião”. Ora, se os conceitos de deus são tão tênues (para mim) como eu expus anteriormente, o que falar de diversas organizações que não são isentas do mau-caráter humano? E não me venha com discursos pró-religiões-hipsters porque eu faço das de José Saramago as minhas palavras, não sou eu quem devo julgar tão profundamente uma religião da qual eu não sou parte integrante, ainda que no espectro indireto. Saiba, entretanto, que o regime de karma cíclico budista tem impactos como, por exemplo: se alguém padece de alguma doença é porque ela fez algo em uma vida passada que a fez merecer isso.

É claro que as implicações desse tipo de pensamento estão longe da minha esfera de conhecimento e convívio, mas não é preciso ser nenhum expert para concluir que acontece algo muito parecido com o que se vê na Índia. O regime de castas subjuga uma população mesmo após o banimento da prática. Essa é a força da religião e esse é o motivo de eu me importar.

Eu poderia, sim, citar enxurradas de exemplos, mas esse é o tipo de coisa que pode ser feito por qualquer um. Deslanchar argumentos decorados é inútil se você não os entrelaçar. Eu tenho plena consciência de que algumas noções éticas minhas são fruto de uma sociedade cristã, mas isso não impõe que eu aceite o pacote de crenças completamente.

Acredito que consegui dar vazão a minha súbita vontade de exteriorizar esses pensamentos. Provavelmente fui fragmentário, mas tentei ser um pouco mais conciso que o usual e menos anedótico. Bem, se houverem dúvidas, raivas, cartas com antraz (nossa, a Wikipédia acabou de me ensinar que o nome da doença é carbúnculo, hahahaha), favor entrar em contato. Obrigado.

Por fim, acreditando ou não em deus, aprecie jenipapo!