Sobre a infância e a normalização do politicamente correto

Você está na rua e acaba de abrir um pacote de balas. Há em você a vontade displicente de apenas jogar o papel no chão. Afinal, você sabe que, a despeito da lavagem cerebral induzida pela mídia, não é aquilo que vai acabar com o planeta. Mesmo assim, você sofre com a batalha mental. Não se trata apenas de jogar o papel no chão, mas de se libertar da ditadura do politicamente correto. Vislumbrando as consequências de deixar o papel cair (a impressão de milhares de olhares que o censuram), você, envergonhado, enfia o papel no bolso.

Você teme mais ser flagrado jogando papel no chão do que cutucando o nariz

Isso acontece comigo mais comumente do que eu gostaria. Se há algo que me causa uma agonia sobrenatural é isso. A normalização do politicamente correto. O que, aliás, tem seus impactos linguísticos. Enquanto há algumas décadas a palavra câncer era um tabu amedrontador, hoje nossas “palavras proibidas” são no mínimo muito mais risíveis. Afinal, torcemos o nariz quando escutamos “ela é preta” ou estranhamos o senhor Drauzio Varella falando em uma “bichinha que estava lixando a unha” (http://www.youtube.com/watch?v=GTPFyx7p4yE – aos 11 minutos e 50 segundos).

Eu, pessoalmente, sou bem irritado quanto a esse tipo de tabu. A linguagem não se retém a palavras, ela as transcende. Afinal, não importa você chamar pretos de negros, o que importa é a conotação que você sugere nesse discurso. E a sociedade se contorce de raiva em frente a piadas ofensivas. Tecnicamente, apesar de fazer parte de uma minoria numérica. Afinal eu, sendo branco, heterosexual, acesso à educação formal e à Internet, não sou exatamente uma minoria social. E são justamente as minorias sociais as que mais são atingidas pelas piadas ofensivas.

Pandora abrindo sua boceta

Dessa maneira, não é tão fácil que eu me ofenda com uma piada. Mesmo as piadas que satirizam o meu modo de vida não me ofendem. Não sei até que ponto essa “invulnerabilidade” influencia na minha opinião. Porque acredito que há uma licença concedida à comédia, como existe com a poesia ou outras formas de arte. A condenação por uma piada idiota não deveria ser a polêmica ou alguma punição, mas o simples ostracismo. Eu, por exemplo, me contorço em risadas com o Louco do Saco (vide http://www.youtube.com/watch?v=Z9lIssel3eo). Mas isso pode ser apenas idiota para outras pessoas.

Algumas teorias sobre o humor sugerem que ele surja a partir da quebra em um padrão lógico esperado. Ora, (isso é uma tentativa de construir humor), se você não dá risada acerca de uma piada sobre um padre pedófilo é porque não houve essa quebra. Logo, você não achou graça por realmente achar que um padre pedófilo é um padrão lógico provável. Seja como for, o humor não é ofensivo. Ele só é, em alguns casos, muito mal construído.

As implicações do politicamente correto também atingem as crianças. Veja só os maravilhosos cigarrinhos de chocolate. Eles foram substituídos por idiotas lápis de chocolate. O bullying virou o bode expiatório para todos os problemas no âmbito escolar. Uma frase memorável é aquela que diz “no bullying, tanto agressor quanto agredido são vítimas”. Pelo amor de deus, quanta besteira! O bullying é um mecanismo inerente às relações humanas. Claro que há extremos que devem ser evitados,  mas ele pauta muitas das nossas interações sociais, nos preparando para diversas situações.

O mundo infantil é, e deve ser, um simulacro do mundo adulto. As crianças são mesquinhas, reunindo todos os pecados capitais em cada uma de suas atitudes. No entanto, elas são reflexo do que é a sociedade adulta. Envolver as crianças no invólucro do politicamente correto é construir adultos inaptos para a convivência que virá. E, minha opinião, gera pessoas sensíveis a ofensas que, na verdade, nem existem.

Para quem não sabe onde fica a casa do caralho

Para fechar a argumentação (o que é uma mentira absurda: até agora deixei tudo em aberto) eu retorno à linguagem. Há algo de incrivelmente belo na falta de papas na língua de Bukowski, por exemplo. Há uma beleza irreprimível nos nossos palavrões mais viscerais. Não podemos cercear toda essa riqueza pela simples proteção do politicamente correto. Afinal, é preciso que aceitemos a condição humana: não somos simples dicotomias, um simples rótulo restrito a bom ou mau. Devemos jogar o lixo no lugar correto, mas, às vezes, o chão é o lugar correto. E para comemorar o politicamente incorreto, uma música da minha infância.

Maria Preta subiu no pé de manga para comer maracujá
Sem querer escorregou,
rasgou toda a boceta,
costurou com linha preta,
para ninguém desconfiar


Maria Preta escreveu na tabuleta

Quem tem dinheiro come,
quem não tem toca punheta

Nota-se a clara influência expressionista e surrealista desse belo poema.

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