Arquivo mensal: novembro 2012

Há espaço para o determinismo?

Minha vontade imediata é responder não. Mas pode ser que no curso desse texto, eu faça justamente o contrário. Vamos escrever um texto sobre o qual eu ainda não tenho opinião formada.

O determinismo esteve em moda pelo fim do século 19. Diz-se que se baseava em uma distorção dos conceitos evolucionistas de  Darwin, mas é fácil ver os motivos para a emergência de um pensamento do gênero. A coincidência das datas do surgimento de uma filosofia que justificava uma “superioridade evolutiva”, algo que depois foi chamado de darwinismo social, e o neocolonialismo não é nem um pouco surpreendente. A partir do momento em que você acreditava ser mais evoluído do que os africanos, era perfeitamente aceitável partilhar o território deles.

A base dessa filosofia é a de que há algo capaz de influenciar o indivíduo de tal forma que acaba com o conceito de liberdade. A história é tão velha que você decorou a frase “o homem é o produto do meio” e nem sabia o porquê. Agora, quando sua mãe falar que você vai virar maconheiro, porque seus amigos andam por aí emaconhados e andando de pé de lata, você já tem um argumento na ponta da língua: “mãe, para de ser tão determinista”.

Você e seus amigos, todos emaconhados, andando de pé de lata.

Porém, o alcance da liberdade humana é um tema complexo demais para renegarmos uma filosofia simplesmente porque ela foi usada com motivos políticos. Aliás, se isso fosse realmente um motivo para abandonar qualquer pensamento filosófico, teríamos que abandonar todos de uma vez. Ah é, a não-filosofia provavelmente já foi transformada em arma política. Parece que nessa falha lógica, nossa liberdade é praticamente inexistente.

Ainda assim, deixar o determinismo de lado apenas pelo que ele causou (em aplicações distorcidas de seus conceitos) me parece precipitado. Porque ele, em síntese, não contém nenhum mal. Por isso, vamos à química moderna.

Uma das coisas mais lindas que aprendi durante esse ano foi o maravilhoso universo atômico. Chega a um momento em que você é obrigado a se questionar se o determinismo que, querendo ou não, é um dos moldes da ciência como se conhece, existe de fato. A nível atômico, você sofre de uma coisa estranhíssima. Você não é capaz de determinar, simultaneamente, a posição e o módulo (intensidade) de um elétron ao mesmo tempo.

“Grande merda, eu não consigo assoviar e chupar cana ao mesmo tempo”. Você até pode se perguntar isso, mas a impossibilidade de determinar posição e módulo de um elétron põe uma barreira, pelo que se conhece, instransponível a “o quão fino pode ser o meu celular”. Isso porque se fizessem um fio tão fino que sua espessura fosse de alguns átomos (algo que você nunca será capaz de mensurar), você não iria ter informações suficientes para, por exemplo, montar um circuito lógico.

Benito di Paula é capaz de assobiar, chupar cana e fazer paixão. Tudo isso ao mesmo tempo em que dá uma polida nesse colar de pérolas e penteia o cavanhaque.

Imaginar que boa parte das ciências exatas se baseiam em artifícios que apenas tangenciam uma solução determinista é, no mínimo, um pouco assustador. Pegue, por exemplo, o conceito de limite. Imagine que você está multiplicando 1/2 por 1/2 por 1/2 por 1/2 por 1/2… e resolve fazer isso até o infinito. Você vai chegar a 1 dividido por um número tão grande, mas tão grande, que vai ser quase como se o resultado fosse zero. O número é tão próximo de zero que pode ser considerado isso. Será mesmo?

A matemática pura e simples deveria considerar que não. Porém, isso funciona no mundo real. A um engenheiro civil, um número após cinco mil casas decimais não irá fazer diferença alguma. Muito menos a quem habitar a casa projetada por esse engenheiro. E, convenhamos, o pedreiro pode ter feito uma gambiarra que vai dar uma diferença, entre o assoalho e sua porta, de dois centímetros maior que deveria. Mas isso também não vai alterar sua vida.

Isso porque não vivemos em um universo determinista. E é por isso que eu considero bobagem encarar as leis da física ou química como evidências de qualquer inteligência criadora. Porque as racionalizações que parecem incrivelmente lógicas apenas tangenciam a realidade. A verdade é que nós criamos explicações deterministas para o universo porque gostamos de ser dessa forma. Esse talvez seja o motivo pelo qual eu, mesmo tendo todas essas argumentações, tenho dificuldades em me desligar da ideia de determinismo.

Porque a ausência dele nos põe na ingrata missão de aceitar que vivemos em um mundo caótico, ao qual atribuímos alguns padrões na tentativa de tornar a nossa vida mais simples. Porém, a eficácia desses padrões nesse quesito não significa que eles sejam corretos. Muitos teóricos e principalmente gente que lidava diretamente com esse tipo de conhecimento reconhecia que a nossa física ou química poderia não ser um código universal. De que existem infinitas possibilidades de explicação, igualmente lógicas, para um mesmo fenômeno.

É por isso que a ciência está em constante renovação. Na essência, a busca por um determinismo a torna visceralmente falha. Então, eu retomo a pergunta inicial. Há espaço para o determinismo? Diferentemente do que eu teria respondido à primeira vista, talvez haja sim. O determinismo começa a falhar quando tentamos forçá-lo goela abaixo da sociedade ou da ciência. Enquanto ele permanecer como objeto de desejo, ele continuará criando ciência. Até se chegar ao limiar da incerteza, como fez Heisenberg. Mas, ainda bem, há sempre como ir ainda mais fundo.

Credo, nem pareço eu escrevendo esse texto. Há um meio ano atrás eu era um dos odiadores da ciência abstrata. E agora quase escrevi um manifesto de apoio a ela. Nós somos abstratos, afinal de contas. Por isso procuramos tanto algo concreto. Ou determinista.

Mullets, por exemplo, determinam sucesso absoluto no jogo da conquista sexual.

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Uns probleminhas acerca da cultura

Esses dias me falaram sobre Jogos Vorazes e, após eu falar que só conhecia a série de nome, meu interlocutor adicionou um “mas você provavelmente não iria gostar…”. Achei meio estranho e perguntei o porquê. “Ah, é que você é todo culto e…”. Bem. Como eu posso começar?

Tenho espasmos de raiva quando vejo exercícios de pseudointelectualismo pela internet. E infelizmente isso está cada vez mais frequente. Acho que é esse culto à inteligência ou sei lá o que diabos está acontecendo. Um dos mais recorrentes é rotular o que é e o que não é cultura. O que é ou o que não é ser um vampiro. “Ah, isso aí é literatura comercial”. “Isso não tem valor literário”. Pelo amor de deus, acho que não são espasmos de raiva que me acometem, são contrações tetânicas.

Isso é arte

É simplesmente medíocre querer tirar o papel de entretenimento da literatura, por exemplo, ou mesmo a possibilidade da escrita poder gerar lucros. Isso diminui a arte. Diminui o alcance que ela proporciona. E eu não estou nem entrando no mérito de arte contaminada pelo capitalismo. Em uma espécie de hipsterização intelectual, parece que tornar algo acessível a um público é demonizável. Já li críticas sobre Inception ter sido mastigado demais.

Essa mentalidade é a típica síndrome de retenção cultural, onde o sujeito quer a exclusividade sobre determinado objeto artístico. É o tipo de cara que sente arrepios nos pelos do períneo quando conta, em uma roda de amigos, que é “ama o mundo onírico do Lynch e os que não gostaram é porque não tiveram capacidade para compreendê-lo”. E olha que o problema vai mais fundo que isso. Ele existe devido ao uso que se dá à arte e à cultura, de modo geral. A exteriorização da nossa personalidad

Sabe gato, eu não gostei de Crepúsculo porque eles distorceram completamente o que é ser um vampiro, saca? Fora que aquele melodrama foi feito apenas para vender. Droga, ela lucrando milhões e eu sem dinheiro nem para óculos da Chilli Beans.

Quando completamos uns doze ou treze anos, percebemos que nossa capacidade de manipulação dos recursos linguísticos é falha. Seja culpa da educação a que fomos submetidos, seja por sermos novos demais, nós não conseguimos expressar quem nós somos com nossas palavras. Em uma fase na qual nossa maior certeza é a de que sabemos quem somos, não ser capaz de expressar isso seria capaz de nos fazer entrar em combustão espontânea. Mesmo que possamos mudar de banda favorita em um piscar de olhos, precisamos de uma banda para exteriorizar nossa personalidade, crucialmente na adolescência.

E a partir desse momento nos apoderamos de artistas e objetos de cultura, como se esses fossem nossos porta-vozes. É essa relação, por demais íntima, que cria uma intolerância cultural. Trata-se apenas de uma retomada àquelas discussões filosóficas clássicas: “uma faca, em si, contém algum mal ou é o uso que dela se faz que pode ser mal?”.

Não emito um juízo de valor tão ferrenho contra usar a arte como exteriorização da personalidade porque, além de também usá-la assim, esse é mais um das funções da cultura. O problema vem quando, por estabelecermos esse laço tão íntimo com a arte ou o que seja, nos sentimos donos dela. Eu me lembro da cruzada dos advogados dos bons costumes vampirescos quando Crepúsculo veio à tona. Esses detentores de o que é ser vampiro se sentiram ofendidos por Crepúsculo porque a Stephenie Meyer fez o que ela quis com uma criatura mitológica de uso público, mas que algumas pessoas haviam se apoderado para representar sabe-se lá o que elas queriam representar.

“Vampiro de verdade paga mensalidade para a Camarilla”

É a mesma coisa com essa história do zumbi apaixonado que, francamente, eu nem entendi direito. O que eu me pergunto é se os críticos do zumbi crepuscular iriam gostar que os zumbis se mantivessem realmente fiéis à tradição e não passassem de lendas haitianas de vudu. A origem do próprio “zumbi de verdade” veio através da distorção de outra cultura.

Em síntese: o sujeito se identifica com algo e cria uma relação de intimidade e posse para com algo que, na realidade, é intangível, que é a arte. Quando Stephanie Meyer fez o vampiro brilhar, ela fez milhares de góticos (sei lá quem se identifica com “vampiro de verdade”) se verem purpurinando. 

Na verdade, não há nenhum problema em vestir sua cultura, afinal, existem pessoas capazes de se expressar muito melhor do que nós. Além disso, não se trata apenas da cultura como meio de expressão, mas como simples “gostar”. Simplesmente causar descargas de serotonina é uma das inúmeras funções da cultura, mas nenhuma justifica você agir como detentor dela. Mesmo se um autor chamasse o público e dissesse “vocês estão errados, suas interpretações sobre a minha obra estão todas erradas, vocês não me entenderam”, ele deveria levar uns sopapos.

Existem bastantes evidências para afirmar que a arte não pertence nem mesmo ao artista depois que ela é tornada pública. Querer normatizar a arte diretamente é, no mínimo, uma idiotice. No entanto, durante todo esse texto, meu foco é na maneira com que consumimos a arte, nas implicações que esse modo traz e por que isso é errado. Se você é um fascista da cultura intelectual, por favor, repense a maneira com que você vê a arte.

Porque se ela é capaz de gerar emoções, reflexão, entretenimento e lucro, remover um desses elementos não a torna superior. É justamente o contrário. Caso você esteja triste por se julgar vítima de uma cultura de massificação, dê uma chance a algo mais avant-garde. Acho que eu estou me revelando bastante repetitivo, porque vou acabar voltando ao discurso desse post. De qualquer maneira, vou ler um pouco de Paulo Coelho. Obrigado.

O intelectual mais importante do país lendo um livro do intelectual mais importante do país deitado na cama do intelectual mais importante do país. Ufa. E você achando que seus filmes franceses eram coisa de intelectual!