Uns probleminhas acerca da cultura

Esses dias me falaram sobre Jogos Vorazes e, após eu falar que só conhecia a série de nome, meu interlocutor adicionou um “mas você provavelmente não iria gostar…”. Achei meio estranho e perguntei o porquê. “Ah, é que você é todo culto e…”. Bem. Como eu posso começar?

Tenho espasmos de raiva quando vejo exercícios de pseudointelectualismo pela internet. E infelizmente isso está cada vez mais frequente. Acho que é esse culto à inteligência ou sei lá o que diabos está acontecendo. Um dos mais recorrentes é rotular o que é e o que não é cultura. O que é ou o que não é ser um vampiro. “Ah, isso aí é literatura comercial”. “Isso não tem valor literário”. Pelo amor de deus, acho que não são espasmos de raiva que me acometem, são contrações tetânicas.

Isso é arte

É simplesmente medíocre querer tirar o papel de entretenimento da literatura, por exemplo, ou mesmo a possibilidade da escrita poder gerar lucros. Isso diminui a arte. Diminui o alcance que ela proporciona. E eu não estou nem entrando no mérito de arte contaminada pelo capitalismo. Em uma espécie de hipsterização intelectual, parece que tornar algo acessível a um público é demonizável. Já li críticas sobre Inception ter sido mastigado demais.

Essa mentalidade é a típica síndrome de retenção cultural, onde o sujeito quer a exclusividade sobre determinado objeto artístico. É o tipo de cara que sente arrepios nos pelos do períneo quando conta, em uma roda de amigos, que é “ama o mundo onírico do Lynch e os que não gostaram é porque não tiveram capacidade para compreendê-lo”. E olha que o problema vai mais fundo que isso. Ele existe devido ao uso que se dá à arte e à cultura, de modo geral. A exteriorização da nossa personalidad

Sabe gato, eu não gostei de Crepúsculo porque eles distorceram completamente o que é ser um vampiro, saca? Fora que aquele melodrama foi feito apenas para vender. Droga, ela lucrando milhões e eu sem dinheiro nem para óculos da Chilli Beans.

Quando completamos uns doze ou treze anos, percebemos que nossa capacidade de manipulação dos recursos linguísticos é falha. Seja culpa da educação a que fomos submetidos, seja por sermos novos demais, nós não conseguimos expressar quem nós somos com nossas palavras. Em uma fase na qual nossa maior certeza é a de que sabemos quem somos, não ser capaz de expressar isso seria capaz de nos fazer entrar em combustão espontânea. Mesmo que possamos mudar de banda favorita em um piscar de olhos, precisamos de uma banda para exteriorizar nossa personalidade, crucialmente na adolescência.

E a partir desse momento nos apoderamos de artistas e objetos de cultura, como se esses fossem nossos porta-vozes. É essa relação, por demais íntima, que cria uma intolerância cultural. Trata-se apenas de uma retomada àquelas discussões filosóficas clássicas: “uma faca, em si, contém algum mal ou é o uso que dela se faz que pode ser mal?”.

Não emito um juízo de valor tão ferrenho contra usar a arte como exteriorização da personalidade porque, além de também usá-la assim, esse é mais um das funções da cultura. O problema vem quando, por estabelecermos esse laço tão íntimo com a arte ou o que seja, nos sentimos donos dela. Eu me lembro da cruzada dos advogados dos bons costumes vampirescos quando Crepúsculo veio à tona. Esses detentores de o que é ser vampiro se sentiram ofendidos por Crepúsculo porque a Stephenie Meyer fez o que ela quis com uma criatura mitológica de uso público, mas que algumas pessoas haviam se apoderado para representar sabe-se lá o que elas queriam representar.

“Vampiro de verdade paga mensalidade para a Camarilla”

É a mesma coisa com essa história do zumbi apaixonado que, francamente, eu nem entendi direito. O que eu me pergunto é se os críticos do zumbi crepuscular iriam gostar que os zumbis se mantivessem realmente fiéis à tradição e não passassem de lendas haitianas de vudu. A origem do próprio “zumbi de verdade” veio através da distorção de outra cultura.

Em síntese: o sujeito se identifica com algo e cria uma relação de intimidade e posse para com algo que, na realidade, é intangível, que é a arte. Quando Stephanie Meyer fez o vampiro brilhar, ela fez milhares de góticos (sei lá quem se identifica com “vampiro de verdade”) se verem purpurinando. 

Na verdade, não há nenhum problema em vestir sua cultura, afinal, existem pessoas capazes de se expressar muito melhor do que nós. Além disso, não se trata apenas da cultura como meio de expressão, mas como simples “gostar”. Simplesmente causar descargas de serotonina é uma das inúmeras funções da cultura, mas nenhuma justifica você agir como detentor dela. Mesmo se um autor chamasse o público e dissesse “vocês estão errados, suas interpretações sobre a minha obra estão todas erradas, vocês não me entenderam”, ele deveria levar uns sopapos.

Existem bastantes evidências para afirmar que a arte não pertence nem mesmo ao artista depois que ela é tornada pública. Querer normatizar a arte diretamente é, no mínimo, uma idiotice. No entanto, durante todo esse texto, meu foco é na maneira com que consumimos a arte, nas implicações que esse modo traz e por que isso é errado. Se você é um fascista da cultura intelectual, por favor, repense a maneira com que você vê a arte.

Porque se ela é capaz de gerar emoções, reflexão, entretenimento e lucro, remover um desses elementos não a torna superior. É justamente o contrário. Caso você esteja triste por se julgar vítima de uma cultura de massificação, dê uma chance a algo mais avant-garde. Acho que eu estou me revelando bastante repetitivo, porque vou acabar voltando ao discurso desse post. De qualquer maneira, vou ler um pouco de Paulo Coelho. Obrigado.

O intelectual mais importante do país lendo um livro do intelectual mais importante do país deitado na cama do intelectual mais importante do país. Ufa. E você achando que seus filmes franceses eram coisa de intelectual!

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