Há espaço para o determinismo?

Minha vontade imediata é responder não. Mas pode ser que no curso desse texto, eu faça justamente o contrário. Vamos escrever um texto sobre o qual eu ainda não tenho opinião formada.

O determinismo esteve em moda pelo fim do século 19. Diz-se que se baseava em uma distorção dos conceitos evolucionistas de  Darwin, mas é fácil ver os motivos para a emergência de um pensamento do gênero. A coincidência das datas do surgimento de uma filosofia que justificava uma “superioridade evolutiva”, algo que depois foi chamado de darwinismo social, e o neocolonialismo não é nem um pouco surpreendente. A partir do momento em que você acreditava ser mais evoluído do que os africanos, era perfeitamente aceitável partilhar o território deles.

A base dessa filosofia é a de que há algo capaz de influenciar o indivíduo de tal forma que acaba com o conceito de liberdade. A história é tão velha que você decorou a frase “o homem é o produto do meio” e nem sabia o porquê. Agora, quando sua mãe falar que você vai virar maconheiro, porque seus amigos andam por aí emaconhados e andando de pé de lata, você já tem um argumento na ponta da língua: “mãe, para de ser tão determinista”.

Você e seus amigos, todos emaconhados, andando de pé de lata.

Porém, o alcance da liberdade humana é um tema complexo demais para renegarmos uma filosofia simplesmente porque ela foi usada com motivos políticos. Aliás, se isso fosse realmente um motivo para abandonar qualquer pensamento filosófico, teríamos que abandonar todos de uma vez. Ah é, a não-filosofia provavelmente já foi transformada em arma política. Parece que nessa falha lógica, nossa liberdade é praticamente inexistente.

Ainda assim, deixar o determinismo de lado apenas pelo que ele causou (em aplicações distorcidas de seus conceitos) me parece precipitado. Porque ele, em síntese, não contém nenhum mal. Por isso, vamos à química moderna.

Uma das coisas mais lindas que aprendi durante esse ano foi o maravilhoso universo atômico. Chega a um momento em que você é obrigado a se questionar se o determinismo que, querendo ou não, é um dos moldes da ciência como se conhece, existe de fato. A nível atômico, você sofre de uma coisa estranhíssima. Você não é capaz de determinar, simultaneamente, a posição e o módulo (intensidade) de um elétron ao mesmo tempo.

“Grande merda, eu não consigo assoviar e chupar cana ao mesmo tempo”. Você até pode se perguntar isso, mas a impossibilidade de determinar posição e módulo de um elétron põe uma barreira, pelo que se conhece, instransponível a “o quão fino pode ser o meu celular”. Isso porque se fizessem um fio tão fino que sua espessura fosse de alguns átomos (algo que você nunca será capaz de mensurar), você não iria ter informações suficientes para, por exemplo, montar um circuito lógico.

Benito di Paula é capaz de assobiar, chupar cana e fazer paixão. Tudo isso ao mesmo tempo em que dá uma polida nesse colar de pérolas e penteia o cavanhaque.

Imaginar que boa parte das ciências exatas se baseiam em artifícios que apenas tangenciam uma solução determinista é, no mínimo, um pouco assustador. Pegue, por exemplo, o conceito de limite. Imagine que você está multiplicando 1/2 por 1/2 por 1/2 por 1/2 por 1/2… e resolve fazer isso até o infinito. Você vai chegar a 1 dividido por um número tão grande, mas tão grande, que vai ser quase como se o resultado fosse zero. O número é tão próximo de zero que pode ser considerado isso. Será mesmo?

A matemática pura e simples deveria considerar que não. Porém, isso funciona no mundo real. A um engenheiro civil, um número após cinco mil casas decimais não irá fazer diferença alguma. Muito menos a quem habitar a casa projetada por esse engenheiro. E, convenhamos, o pedreiro pode ter feito uma gambiarra que vai dar uma diferença, entre o assoalho e sua porta, de dois centímetros maior que deveria. Mas isso também não vai alterar sua vida.

Isso porque não vivemos em um universo determinista. E é por isso que eu considero bobagem encarar as leis da física ou química como evidências de qualquer inteligência criadora. Porque as racionalizações que parecem incrivelmente lógicas apenas tangenciam a realidade. A verdade é que nós criamos explicações deterministas para o universo porque gostamos de ser dessa forma. Esse talvez seja o motivo pelo qual eu, mesmo tendo todas essas argumentações, tenho dificuldades em me desligar da ideia de determinismo.

Porque a ausência dele nos põe na ingrata missão de aceitar que vivemos em um mundo caótico, ao qual atribuímos alguns padrões na tentativa de tornar a nossa vida mais simples. Porém, a eficácia desses padrões nesse quesito não significa que eles sejam corretos. Muitos teóricos e principalmente gente que lidava diretamente com esse tipo de conhecimento reconhecia que a nossa física ou química poderia não ser um código universal. De que existem infinitas possibilidades de explicação, igualmente lógicas, para um mesmo fenômeno.

É por isso que a ciência está em constante renovação. Na essência, a busca por um determinismo a torna visceralmente falha. Então, eu retomo a pergunta inicial. Há espaço para o determinismo? Diferentemente do que eu teria respondido à primeira vista, talvez haja sim. O determinismo começa a falhar quando tentamos forçá-lo goela abaixo da sociedade ou da ciência. Enquanto ele permanecer como objeto de desejo, ele continuará criando ciência. Até se chegar ao limiar da incerteza, como fez Heisenberg. Mas, ainda bem, há sempre como ir ainda mais fundo.

Credo, nem pareço eu escrevendo esse texto. Há um meio ano atrás eu era um dos odiadores da ciência abstrata. E agora quase escrevi um manifesto de apoio a ela. Nós somos abstratos, afinal de contas. Por isso procuramos tanto algo concreto. Ou determinista.

Mullets, por exemplo, determinam sucesso absoluto no jogo da conquista sexual.

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