Arquivo mensal: fevereiro 2013

Viva o Google Trends

Os filósofos gregos que me perdoem, mas eles não se adaptariam a nossa era. Eles floresceram porque foram, de certa forma, pioneiros. Mesmo que não tenham sido os primeiros de fato, foram os que deixaram um certo registro que foi sobrevivendo – e sendo alterado – através dos séculos. Admitamos que Sócrates não teria chances em um mundo com sete bilhões de pessoas, no qual tudo parece ter sido dito e a chance de parecer original é quase nula.

Aristóteles não aguentaria a morte do conhecimento individual. Hoje nosso comportamento é massivo. As ideias não são mais pessoais e individualizadas. É como se tivéssemos uma população dividida, como em um gráfico de pizza. Você com certeza pode ser encaixado em um dos setores desse gráfico. E terá amiguinhos para compartilhar suas ideias.

Pitágoras encontraria os amiguinhos dele em uma comunidade de “Eu odeio feijão” no Orkut, mas teria dificuldade em ser publicado. É provável que o ócio dos gregos recebesse outro adjetivo pátrio. E honestamente? A morte do indivíduo é um fenômeno interessantíssimo. E devo agradecer ao ócio grego por me permitir enxergar isso.

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Imagine mentalmente a música do Harlem Shake tocando enquanto você assiste ao GIF. Ele é uma metáfora para a pergunta “Seria Sócrates um pré-socrático?”

Todo esse papo de filósofos queria chegar a dois pontos principais. Estar sem ter o que fazer é ótimo. Agradeço aos gregos por isso. E a coletividade e a massificação acabam por serem um ótimo objeto de estudo. Essas duas coisas – ócio e estudo de massa – se combinam no Google Trends. E eu agradeço ao Magno por isso.

O Trends, para quem não sabe, pega o registro de buscas no Google para fornecer dados e curiosidades estatísticas. E ele nos permite demonstrar perfeitamente esse comportamento massivo e esquisito de uma humanidade de sete bilhões de pessoas. Okay. Tudo bem. O Trends é um simulacro da humanidade de sete bilhões de pessoas, pois acaba reunindo informações de uma parcela com acesso à internet. Mas a maioria de nós não costuma ser muito preocupado com o pessoal que não tem acesso à internet, né?

O site nos mostra desde coisas banais e previsíveis, como a evolução das buscas por gripe suína após o surto midiático, a outras, no mínimo, curiosas. Por exemplo, o interesse sobre queimadura com limões tem records periódicos que coincidem com as férias. Ou que o estado que mais procura por “esperança” é a Paraíba. Também indicam coisas bonitas. Como a busca em diferir “mais de mas”, com um interesse crescente que chega a dar emoção.

Em maio de 2009 aconteceu alguma coisa bem interessante. Foi atingido o pico de buscas por “como fazer sexo”. Espero que as pessoas tenham descoberto. Ainda no ramo do conhecimento, mas não sexual, fico feliz que as procuras por “asterístico” tenham diminuído. Mas nem tudo são flores. As buscas por viajem estão aumentando. A sorte é que o Google tem aquela maneira toda delicada de dizer que você é analfabeto.

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“Você quis dizer:” – o Google faz parecer que ser burro foi algo acidental.

Eu podia procurar sobre coisas que realmente fariam alguma diferença. Acho que seria o que um filósofo grego faria. Mas a tentação de procurar quais são as tendências sobre bafo de cebola, sorvete de milho, ou por que diabos esse crescimento súbito para “perdi as chaves”?! É verdade que a precisão do Google Trends é bastante questionável principalmente porque ele depende de um certo volume de pesquisas.

Mas é um exercício divertido. Olhar as pesquisas relacionadas ao termo “as gata”. E se você não sabe as datas do alistamento militar, basta dar uma olhada no Google Trends. Parece que o 2 é o mais popular dos cinco primeiros números. E você achando que ser o primeiro era o mais importante. A verdade é que esse post não queria mostrar uma verdade chocante (se é que algum outro post quis), mas apenas apresentar uma ferramenta que pode ser útil para vencer o tédio.

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Um pesadelo recorrente do Pitágoras…

Quando você não tiver nada melhor para fazer. Dê uma chance ao Google Trends. Tem uma mosca atrapalhando minha concentração. Vou procurar no Google o que devo fazer. Eu não consigo deixar de imaginar o que os filósofos gregos pesquisariam no Google Trends. Talvez Pitágoras seja o mais simples de imaginar. Ele provavelmente procuraria por feijão. E evitaria os lugares que têm muitas buscas sobre o assunto.

E mesmo que as minhas buscas no Trends façam nossa coletividade parecer um pouco idiota e embasbacada. Eu tenho certo orgulho por saber que o interesse em descobrir “o que é o amor” está crescente. Ou que as pessoas se preocupam com os piolhos de maneira quase constante desde 2004. Ainda há fé na humanidade. Quer dizer… ainda há fé na humanidade?

Rápido comentário sobre três livros

A Insustentável Leveza do Ser – Milan Kundera – 5/5
A narrativa é capaz de nos impor o fardo do questionamento e nos elevar. Simultaneamente. Questionar o que é traição, sexualidade, amor. Uma abordagem com um fardo filosófico, mas com a leveza única da literatura. O enredo é um mero palco, porque a verdadeira peça ocorre nas reflexões do narrador e das personagens. E como não se apaixonar por elas? A vontade era de sublinhar o livro inteiro, mas eu consegui me conter. Mais ou menos.

Sete Gatinhos – Nelson Rodrigues – 5/5
Dos livros que li do autor, até agora, esse foi o mais intenso. Pode não ter sido o mais impactante ou chocante. Mas foi intenso. A sensação de, como descreveu Flávio Aguiar, autor do excelente roteiro de leitura para o livro, banalização do grotesco é o ponto principal da obra. O “nada mais nos surpreende” saiu dos palcos e hoje é nosso modo de vida. Fora que as personagens, nessa obra, em específico, são inesquecíveis. E se não parecem motivos suficientes, clique aqui para saber o que o Lima Duarte pensa sobre desenhos no banheiro.

Mentes Perigosas – Ana Beatriz Barbosa Silva – 1/5
O livro queria ser leve. Acabou sendo leviano. A autora exagera em simplificações, é redundante e os exemplos, francamente. O que são aqueles exemplos? Joga areia em uma discussão muito importante (sobre as divergências quanto à psicopatia, sociopatia e outras classificações) e acaba por dar a entender que o livro é uma montoeira de achismos. O maior problema com isso é que ele praticamente incita uma cruzada para encontrar “psicopatas escondidos nos círculos de amizade, no trabalho e na escola”, para só no final dizer que “o diagnóstico de psicopatia deve ser feito apenas por um profissional”. Mas, como a autora diz o tempo todo, “cuidado, o perigo mora ao lado”. Um ótimo livro para achar que seu marido, seu chefe e até o padre da sua igreja são psicopatas ou para quem quer ter certeza de que a psiquiatria não está muito bem (representada).

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Nelson Rodrigues, logo após ler o livro da Ana Beatriz Barbosa, pensando: “puta merda, será que eu sou um psicopata?”