Arquivo mensal: maio 2013

“É natural”

E também um clichê bem sem graça. E o que mais me assusta é o alcance dele. Porque vai do ativista-canabinoide (“É natural, brother“) até as donas de casa (“Uma amiga de uma prima falou desse chá, que é natural“). Com efeito, a busca “remédio natural” no Google traz 7x mais resultados que “alopático”. Também é uma busca superior à “remédio convencional”. Claro que não é superior à busca “Coca Cola câncer”. Mas temo que é por causa da conveniência do Google omitir o acento.

mamona

Mamona, naturalmente, sua semente é venenosa. Artificialmente, se faz biodiesel com o seu óleo. Progresso é uma merda mesmo.

Analisar quantidade de resultados no Google pode não fornecer muito indício, mas é curioso como, no cotidiano, “natural” se tornou um adjetivo que qualifica, automaticamente, a coisa a qual ele se refere como “positiva, aceitável”. “Eu tomo chá que é mais natural”. Sério, pesquisem “chás naturais” e tenham azia com os resultados. Então vamos começar pelo que significa algo natural.

O Houaiss define natural como, poxa, são 18 definições diferentes. Para resumir, etimologicamente vem do latim para ‘feito ou dado pela natureza’. E é essa a definição que abrange o assunto desse post. A ideia de que algo feito ou dado pela natureza é irrestritamente bom. E quando o sujeito ataca um medicamento alopático isso é geralmente embasado num misto de conspiracionismo farmacêutico e crítica aos efeitos colaterais.

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Tem apenas uma coisa natural nessa foto. Que é o motorista do táxi reclamando do trânsito.

Mas, em essência, é uma crítica à intervenção do homem na natureza que, por si só, “já seria perfeita”. Pois eu te digo algo. Agradeço a deus pelo homem não se contentar com a “perfeição da natureza”. Repense todos os seus hábitos e veja quais deles são naturais ou não. Mas a coisa é mais curiosa. A Forever, uma empresa que explora fitoterapia, funciona como pirâmide. Ou seja, o negócio é embasado no mais artificial – e nem por isso ruim – recurso humano: o dinheiro.

A aceitação tão espontânea de tratamentos alternativos tem em si um certo misticismo. É a falta de compreensão sobre a ciência e excesso de crença. De que talvez “o que deus criou é bom”. De que “se é verde não faz mal” (ao que eu sugeriria que comessem algumas mamonas (com semente). E isso não é uma crítica direta aos tratamentos alternativos. Tome, por exemplo, a aspirina. O princípio ativo é encontrado (e daí ela foi descoberta) na casca do salgueiro (leia mais aqui). Naturalmente. De maneira geral, para obter um remédio é, antes de tudo, isolar o químico que causa o efeito desejado. E essa é a primeira parte “artificial”.

Depois, você descobre uma forma, por meio de reações, capaz de resultar no mesmo composto químico. Criando o princípio ativo em laboratório e evitando a necessidade de cultivar quilômetros de salgueiros para fazer aspirina. Não é tão difícil de compreender. Mas não se resume a isso. Como no caso da aspirina, o princípio ativo muitas vezes é melhorado, utilizando-se do conhecimento químico e biológico, como a modificação no princípio ativo que tirou a irritação gástrica (um efeito colateral comum).

natural

“É natural”

E são os efeitos colaterais dos medicamentos que, às vezes, induzem os militantes da medicina natural (porque, como os defensores da legalização da maconha, parece que a militância é obrigatória) a bradarem contra a indústria farmacêutica. “Porque quando eu tomo um chá, eu não sinto efeitos colaterais”. É claro que não. Além do químico desejado, você está ingerindo, junto, um monte de substâncias químicas que podem causar várias reações no seu organismo. Tudo isso, é claro, numa concentração variável e, por vezes, muito menor que a dose necessária para a plenitude dos efeitos.

Mesmo um medicamento, isolado, concentrado, na dose estipulada como ideal, mesmo assim, causa efeitos colaterais ou seja, reage com outras partes do corpo, que não o alvo, ou causa algum outro tipo de estímulo. Como vocês se convencem de que algo cheio de outras substâncias, com uma concentração variada do princípio ativo, com as variações biológicas que, afinal de contas, dependem de fatores como condições climáticas, do solo, etc; como vocês se convencem de que isso é realmente muito melhor do que algo artificial?

É simplesmente bizarro, porque esse tipo de desconhecimento não se restringe aos medicamentos – embora, acredite eu, esse seja um dos mais perigosos. No episódio do “bicho da Coca-Cola“, um dos comentários no Facebook dizia: “é, a Coca é ácida e um bicho, estando em meio ácido, boa coisa não deve ser“. Morte ao meio ácido. Eu acho que eles deviam ver esse vídeo. Ou seja, desconhecimento do básico de química não é algo exatamente inesperado quando se olham as estatísticas de falta e despreparo dos professores.

É verdade, existem fatores bastante preocupantes sobre a indústria farmacêutica, como aponta essa palestra do TED. Muitos resultados negativos não são publicados e acabam por gerar verdadeiras catástrofes. Além disso, em se tratando das cifras que estão envolvidas, é difícil estabelecer pesquisas que são completamente puras em intento e interesse. Porém, será mesmo que as pessoas realmente estão (se) levando a sério quando dizem que “natural é melhor”?

É fácil demonizar a indústria farmacêutica quando você consegue dormir com a facilidade de uma criança exausta. Quando você não precisa tanto dos remédios que suporta efeitos colaterais. A expectativa de vida, de modo geral, como indica essa pesquisa, aumentou de cerca de 38 anos em 1900 para cerca de 70 em 1990. E tudo isso graças à artificialidade. Tudo isso graças aos medicamentos que, longe de ideais, foram através do conhecimento científico desenvolvidos. E continuam sendo aperfeiçoados. Soa uma espécie de conformismo barato, apenas aceitar as coisas como elas estão, porque supostamente seriam melhores. Até hoje, para o desespero de Edward Jenner em seu túmulo, as pessoas têm um receio sobrenatural com vacinas.

tristeza

Patrícia é muito triste por usar maquiagem, tingir o cabelo, fazer as unhas, vestir roupas, ter uma casa, janelas, andar de patinete, ter acesso à internet, almoçar todo dia no McDonald’s. Ela queria uma vida mais natural!

Sendo que não há nada mais natural do que química. Nada. Utilizar reações químicas para produzir compostos químicos é o que garante a possibilidade da vida. E é o que, com a ciência, garante a possibilidade de uma vida melhor. É muito fácil se tornar um ativista dos medicamentos naturais tendo a comodidade de, em caso de algo muito grave, recorrer para a medicina convencional. A demonização do artificial soa bizarramente hipócrita, quase como uma birra antiprogressista.

Então hoje, olhe para a tela – artificial – sinta a cadeira reagir com a força normal – um fenômeno natural, exercido por um objeto artificial. Encha os pulmões de ar – natural – e solte um suspiro, que deveria ser um agradecimento. Por termos tantos confortos artificiais. E ótimos. Tipo as playlists do Youtube.

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“Ah, mas papel é natural” – “Aham

Sobre educação

Vendo esse vídeo, o tema me surgiu e pareceu bastante oportuno. Porque, vamos ao choque de realidade: eu estudo desde 1998. Seria natural supor que, de todos os assuntos possíveis, esse era um dos que eu mais profundamente poderia discutir. Mas… não. Eu me sinto mais confortável em dissertar sobre a coleção do Pequeno Vampiro à qual eu dediquei, vamos supor, uma dúzia de horas da minha vida em comparação as quase cinco horas diárias desde a invenção do Google que eu dediquei à educação.

Educação de quem, exatamente? Educação de quê?

Eu passei no vestibular, o que me garante estudar, no mínimo, até 2019. Mas seria, como observa o senhor Izzy Nobre no vídeo citado, o vestibular o “diploma” que justificaria os quinze anos que passei estudando? Inicialmente, eu não pude deixar de assistir ao vídeo segurando uma vontade irreprimível de discordar. De dar coro aos professores que justificam as “matérias inúteis” como desenvolvedoras de habilidades que, essas sim, seriam “úteis”.

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Essa é a tia Doroteia, uma vampira sanguinolenta. Mas poderia ser sua professora do primário. Viu como a escola é do mal?

Pode parecer um conceito raso, o da simples utilidade, mas, novamente citando o vídeo – que é bem provável que você não tenha assistido -, nós vamos morrer véio. Nós já temos a internet para gastar nosso tempo com inutilidades. Que na educação, ao menos, as coisas sejam mais proveitosas. Ou que usemos a internet tanto para inutilidades quanto para utilidades.

É verdade, não é possível que aprender matemática – das operações básicas à forma trigonométrica de um número complexo – não tenham sido nem um pouco úteis. Ou talvez eu me recuse a acreditar que dediquei tanto tempo a algo que não fez por mim o mesmo que eu fiz por ela. Eu gostaria de ser pago cada vez que eu penso que as tentativas de definir – e, pior, quantificar – inteligência foram bastante bizarras.

Eu conheço várias pessoas brilhantes que simplesmente não se dão bem com a forma com a qual se mede a inteligência atualmente. Não é possível que alguém realmente acredite que toda a capacidade intelectual de alguém está no assinalar correto de uma questão num vestibular. Ou de oitenta delas.

vestibular-1A. B. Nogueira enquanto presta vestibular para Administração. Ela queria mesmo era fazer Engenharia de Tirolesas. “A inteligência de 200 mil anos de evolução como Homo sapiens sendo aferida em Múltipla Escolha. Vocês tão fazendo isso certo”, ela comenta ao final da prova.

Isso indica que, surpresa, a pessoa é boa ou ruim na resolução daquela prova, em específico. É contraditório que o formato da educação exija que a pessoa seja simultaneamente boa em matemática, biologia, português – áreas tão diferentes do conhecimento – e tenha um único método de aferir essas competências. Calma, que eu estou escutando alguém reclamar sobre provas discursivas, redação, blá blá blá.

Nenhum vestibular ou prova vai contemplar – jamais – a totalidade de estudantes que a eles se submetem. Será, no máximo, efetivo para os que forem aprovados e, às vezes, nem isso. É risível pensar na quantidade de gente que passou no vestibular por sorte. O problema é que as pessoas passam a vida inteira buscando reiterar sua individualidade quando uma coisa mais importantes passa por uma ditadura da coletividade.

Eu não acho que o caminho apontado pelo Izzy Nobre seja ruim (ele sugere algo mais aos moldes da educação estadunidense – onde o estudante, já no high school, entra em contato com matérias optativas “mais úteis”). Mas ainda assim soa como uma solução parcial. Afinal, como definir as matérias oferecidas? Será que contemplaríamos justamente todas as possibilidades?

Para mim, falta uma certa autonomia. Eu sou suspeito para falar sobre isso. Porque a ideia de homeschooling sempre me atraiu. E eu acho que essa é a forma perfeita de fornecer uma educação que, em vez de limitar ou restringir potenciais em nome de um currículo uniforme, os magnifique. O MEC exige uma formação a nível de ensino médio para a Educação Infantil (creches e pré-escolas). E Pedagogia ou licenciaturas para o Fundamental e Médio.

quemsabe

Os invejosos dirão que é fake.

Ou seja, a maioria dos pais poderia pelo menos nos primeiros anos atuar como educadores. E melhor: sendo, além de professores, pais (dã), eles poderiam determinar, em conjunto com a criança, os próximos passos da própria formação. Há diversas possibilidades. Como a utilização de conteúdo digital, como o projeto CrashCourse dos irmãos Hank e John Green ou a Khan Academy.

Apenas para citar outros projetos, vsauce, SciShow, minutephysics, asapSCIENCE, TED, CGPGrey, periodicvideos, SmarterEveryDay, minuteearth. E isso apenas dentro do espectro que reúne as matérias “tradicionais” (biologia, química, física, geografia, história, literatura). O YouTube permite, por exemplo, contato com uma infinidade de outros campos. Apenas citando, o incrível canal thebrainscoop (que fala sobre taxidermia, biologia, museus e muitos, frise muitos, animais mortos ) ou o indymogul que tangencia diversos aspectos da produção cinematográfica.

São uma parte, na verdade, da imensa quantidade de conteúdo disponível na internet. Eles compartilham algumas coisas em comum. Primeiro, todos utilizam uma didática audiovisual que muitas vezes excede a capacidade de qualquer professor ordinário (no sentido exato da palavra). Segundo, todos estão em inglês. Com algumas exceções, em que há alguma legenda disponível, a maioria impõe uma barreira linguística.

Mas a ideia aqui é básica. Se você tem indivíduos bilíngues (e o devido incentivo), você consegue tornar o conteúdo mais acessível. Tome esse exemplo. Não tem como se atribuir um peso menor para a importância de aprender o inglês. Mas isso não ocorreu na minha vida estudantil. Estudei até o primeiro ano do ensino médio em uma escola pública, que foi uma sucessão de professores despreparados e relapsos, falta de foco e lições que pareciam tão conectadas com o mundo real quanto o socialismo utópico.

Na escola particular, a realidade não foi tão diferente. Se aprende inglês de maneira tão fragmentada (muitas vezes, simplesmente omitindo o listening por completo) que me dá até ânsia. A maior parte do que aprendi, fiz sozinho. E não é difícil. O meu eu infanto-juvenil acabou se guiando e aprendendo. Imagine o que não pode ser feito com a devida orientação.

A licenciatura como existe está errada. Ao se isolar numa universidade o professor perde contato com a realidade e raramente vai conseguir voltar. Depois, é obrigado a se sujeitar à matriz curricular definida pelo MEC e, bem, vocês sabem o final da história. Essa figura ainda é necessária, porque não adianta você adquirir um otimismo empolgado com a revolução educacional pela internet sendo que o mundo ainda continuará com os vestibulares.

Mas se você, num futuro próximo, planeja aumentar a população mundial, pense carinhosamente em participar mais da educação da sua prole. Descubra, com eles, quais são suas habilidades, defeitos, vontades. Tente, ao máximo, reverter o processo de enjaulamento e seleção de “habilidades ideais” que recebe o nome de educação formal. Se for surrar seu filho, deixe a cinta de lado e bata nele com exemplares da literatura universal. Okay, talvez é melhor não. Ninguém quer que seu filho fique com trauma de Shakespeare.

Eu pretendo ter meios financeiros, judiciais e de tempo para, caso eu tenha filhos, educá-los em casa. Eu sei das dificuldades a que eles – e eu – estaremos sujeitos, mas acho que valerá a pena. E para quem acha que o convívio social ao qual se é forçado quando educado em uma escola tradicional é imprescindível: ministrarei, eu mesmo, aulas de “Como As Pessoas Costumam Ser Bastante Escrotas e Esse é o Comportamento Padrão, Então Se Acostumem”.

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Professor titular das aulas práticas de “Como As Pessoas Costumam Ser Bastante Escrotas e Esse é o Comportamento Padrão, Então Se Acostumem”

Sei que abordei um pouco levianamente o assunto, então, por favor, deixem comentários que eu retomarei o tópico. Mas eu estou tendo uma crise de rinite e tá difícil viver no momento.