“É natural”

E também um clichê bem sem graça. E o que mais me assusta é o alcance dele. Porque vai do ativista-canabinoide (“É natural, brother“) até as donas de casa (“Uma amiga de uma prima falou desse chá, que é natural“). Com efeito, a busca “remédio natural” no Google traz 7x mais resultados que “alopático”. Também é uma busca superior à “remédio convencional”. Claro que não é superior à busca “Coca Cola câncer”. Mas temo que é por causa da conveniência do Google omitir o acento.

mamona

Mamona, naturalmente, sua semente é venenosa. Artificialmente, se faz biodiesel com o seu óleo. Progresso é uma merda mesmo.

Analisar quantidade de resultados no Google pode não fornecer muito indício, mas é curioso como, no cotidiano, “natural” se tornou um adjetivo que qualifica, automaticamente, a coisa a qual ele se refere como “positiva, aceitável”. “Eu tomo chá que é mais natural”. Sério, pesquisem “chás naturais” e tenham azia com os resultados. Então vamos começar pelo que significa algo natural.

O Houaiss define natural como, poxa, são 18 definições diferentes. Para resumir, etimologicamente vem do latim para ‘feito ou dado pela natureza’. E é essa a definição que abrange o assunto desse post. A ideia de que algo feito ou dado pela natureza é irrestritamente bom. E quando o sujeito ataca um medicamento alopático isso é geralmente embasado num misto de conspiracionismo farmacêutico e crítica aos efeitos colaterais.

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Tem apenas uma coisa natural nessa foto. Que é o motorista do táxi reclamando do trânsito.

Mas, em essência, é uma crítica à intervenção do homem na natureza que, por si só, “já seria perfeita”. Pois eu te digo algo. Agradeço a deus pelo homem não se contentar com a “perfeição da natureza”. Repense todos os seus hábitos e veja quais deles são naturais ou não. Mas a coisa é mais curiosa. A Forever, uma empresa que explora fitoterapia, funciona como pirâmide. Ou seja, o negócio é embasado no mais artificial – e nem por isso ruim – recurso humano: o dinheiro.

A aceitação tão espontânea de tratamentos alternativos tem em si um certo misticismo. É a falta de compreensão sobre a ciência e excesso de crença. De que talvez “o que deus criou é bom”. De que “se é verde não faz mal” (ao que eu sugeriria que comessem algumas mamonas (com semente). E isso não é uma crítica direta aos tratamentos alternativos. Tome, por exemplo, a aspirina. O princípio ativo é encontrado (e daí ela foi descoberta) na casca do salgueiro (leia mais aqui). Naturalmente. De maneira geral, para obter um remédio é, antes de tudo, isolar o químico que causa o efeito desejado. E essa é a primeira parte “artificial”.

Depois, você descobre uma forma, por meio de reações, capaz de resultar no mesmo composto químico. Criando o princípio ativo em laboratório e evitando a necessidade de cultivar quilômetros de salgueiros para fazer aspirina. Não é tão difícil de compreender. Mas não se resume a isso. Como no caso da aspirina, o princípio ativo muitas vezes é melhorado, utilizando-se do conhecimento químico e biológico, como a modificação no princípio ativo que tirou a irritação gástrica (um efeito colateral comum).

natural

“É natural”

E são os efeitos colaterais dos medicamentos que, às vezes, induzem os militantes da medicina natural (porque, como os defensores da legalização da maconha, parece que a militância é obrigatória) a bradarem contra a indústria farmacêutica. “Porque quando eu tomo um chá, eu não sinto efeitos colaterais”. É claro que não. Além do químico desejado, você está ingerindo, junto, um monte de substâncias químicas que podem causar várias reações no seu organismo. Tudo isso, é claro, numa concentração variável e, por vezes, muito menor que a dose necessária para a plenitude dos efeitos.

Mesmo um medicamento, isolado, concentrado, na dose estipulada como ideal, mesmo assim, causa efeitos colaterais ou seja, reage com outras partes do corpo, que não o alvo, ou causa algum outro tipo de estímulo. Como vocês se convencem de que algo cheio de outras substâncias, com uma concentração variada do princípio ativo, com as variações biológicas que, afinal de contas, dependem de fatores como condições climáticas, do solo, etc; como vocês se convencem de que isso é realmente muito melhor do que algo artificial?

É simplesmente bizarro, porque esse tipo de desconhecimento não se restringe aos medicamentos – embora, acredite eu, esse seja um dos mais perigosos. No episódio do “bicho da Coca-Cola“, um dos comentários no Facebook dizia: “é, a Coca é ácida e um bicho, estando em meio ácido, boa coisa não deve ser“. Morte ao meio ácido. Eu acho que eles deviam ver esse vídeo. Ou seja, desconhecimento do básico de química não é algo exatamente inesperado quando se olham as estatísticas de falta e despreparo dos professores.

É verdade, existem fatores bastante preocupantes sobre a indústria farmacêutica, como aponta essa palestra do TED. Muitos resultados negativos não são publicados e acabam por gerar verdadeiras catástrofes. Além disso, em se tratando das cifras que estão envolvidas, é difícil estabelecer pesquisas que são completamente puras em intento e interesse. Porém, será mesmo que as pessoas realmente estão (se) levando a sério quando dizem que “natural é melhor”?

É fácil demonizar a indústria farmacêutica quando você consegue dormir com a facilidade de uma criança exausta. Quando você não precisa tanto dos remédios que suporta efeitos colaterais. A expectativa de vida, de modo geral, como indica essa pesquisa, aumentou de cerca de 38 anos em 1900 para cerca de 70 em 1990. E tudo isso graças à artificialidade. Tudo isso graças aos medicamentos que, longe de ideais, foram através do conhecimento científico desenvolvidos. E continuam sendo aperfeiçoados. Soa uma espécie de conformismo barato, apenas aceitar as coisas como elas estão, porque supostamente seriam melhores. Até hoje, para o desespero de Edward Jenner em seu túmulo, as pessoas têm um receio sobrenatural com vacinas.

tristeza

Patrícia é muito triste por usar maquiagem, tingir o cabelo, fazer as unhas, vestir roupas, ter uma casa, janelas, andar de patinete, ter acesso à internet, almoçar todo dia no McDonald’s. Ela queria uma vida mais natural!

Sendo que não há nada mais natural do que química. Nada. Utilizar reações químicas para produzir compostos químicos é o que garante a possibilidade da vida. E é o que, com a ciência, garante a possibilidade de uma vida melhor. É muito fácil se tornar um ativista dos medicamentos naturais tendo a comodidade de, em caso de algo muito grave, recorrer para a medicina convencional. A demonização do artificial soa bizarramente hipócrita, quase como uma birra antiprogressista.

Então hoje, olhe para a tela – artificial – sinta a cadeira reagir com a força normal – um fenômeno natural, exercido por um objeto artificial. Encha os pulmões de ar – natural – e solte um suspiro, que deveria ser um agradecimento. Por termos tantos confortos artificiais. E ótimos. Tipo as playlists do Youtube.

papelhigi

“Ah, mas papel é natural” – “Aham

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