Arquivo mensal: julho 2014

Galera faz um ano que eu não escrevo nada aqui

Okay. Faz um ano que eu não posto nada aqui. Decidi só postar isso que já tava pronto nos rascunhos (há mais de cinco meses) para fingir que nada aconteceu.

UPSTREAM COLOR
Shane Carruth (2013)

No Filmow, a sinopse do filme é “um homem e uma mulher se unem e lutam para reunir os fragmentos soltos de suas vidas destruídas”. Sinceramente. Não sei que ser escreveu isso, mas também não sei se eu saberia escrever algo melhor, ou mais condizente com o filme. Tá tudo ali. Tem larvas, uma espécie de hipnotismo, porcos (e cirurgias), uma fotografia bonita, cópias de livros e um pouco de origami, é claro. Durante o filme eu fiquei o tempo todo tentando entender do que se tratava. Pensei em metalinguagem (o autor controla seus personagens numa obra da mesma forma que os personagens do filme eram controlados por outras pessoas).

Screenshot_012_largeSua vida antes do filme…

Pensei em condicionamento humano (há, parece, uma conexão entre os personagens HIPOPOTIZADOS e os porcos DOMESTICADOS). Só que tem o lance do romance no filme também. Cheguei a pensar no clichê da relação hospedeiro x reprodução (quando os protagonistas desesperadamente buscam um ao outro – quase que como para reproduzir as larvas – o que não me parece acontecer no filme). Mas enfim. É bem provável que todos esses sentidos estejam contidos no filme. Tem uma parte bem legal em que os protagonistas começam a confundir suas lembranças (um diz que viveu tal experiência na infância – mas o outro diz que também viveu). O que me lembrou do comentário do John Frusciante sobre o álbum que ele fez depois que casou: “Letur-Lefr for me signifies the transition of two becoming one“.

uc-orchidSua vida depois do filme…

Afinal de contas, a sinopse não é tão ruim assim. Só erraram uma coisinha. O certo é: o espectador luta para reunir os fragmentos soltos de suas um filme desconstruído. Ah, cabe o comentário de que o cara é diretor de Primer que, bem, é um puta filme. A 5ª estrela provavelmente virá quando eu assistir ao filme novamente.

CASHBACK
Sean Ellis (2006)

Esse é mais tranquilo. Um filme sobre a descoberta da mulher, por parte do homem. É uma perspectiva masculina e que pode passar por machista, principalmente por conta de alguns personagens meio caricatos. Mas está tudo ali. É o contato entre os dois mundos estranhos, seja por motivos de imposições de papeis socioculturais, seja por simples diferenças biológicas e de constituição física. Muitas vezes a gente esquece que o amor é esse embate entre diferenças e a capacidade de nós superarmos elas (e nesse caso o filme é meio heteronormativo, mas todo amor envolve dois seres essencialmente diferentes). É por isso que o filme tem o romance que pode parecer meio bobinho e deslocado. Fora extrapolações de roteiro – porque o filme em si é bem simples – alguns aspectos que talvez façam você se interessar: cenas bonitas, com certa preocupação artística, algumas situações interessantes. Mas tem várias ressalvas: o plot device da insônia a torna glamourizada, a concepção de beleza é meio torto (todas as mulheres mostradas obedecem rigorosamente aos padrões de beleza vigentes). Mas enfim, nada a perder com o filme.

DJANGO
Você sabe quem (2012)

Estranho. O filme é eterno (no sentido de longo) e tem o feeling do diretor aqui e acolá, mas não do mesmo modo que nos outros filmes. Parece que ele amaciou seu próprio estilo, sei lá o que aconteceu gente. Ou então, eu que, depois de alguns filmes dele, comecei a achar que estilo já começa a desbotar. Não tem como criticar o roteiro, as cenas e os diálogos; tudo tem a mesma carga icônica. Porém, alguma impressão me fez não gostar tanto quanto, por exemplo, Reservoir Dogs. Um elogio: o uso do sangue, as cenas em que ele SALTA de vasos por conta de tiros e outros são belas. Bem melhor que Kill Bill, sem perder o exagero do trash. Outro elogio: Leonardo DiCaprio que está cada vez menos parecido com um buldogue e mais parecido com um ótimo ator.

IRREVERSÍVEL
Gaspar Noé (2002)

Esse não é nem um pouco tranquilo. Como começar? Pelo fim. Para que a tragédia-final (e motiva todos os acontecimentos do filme) permaneça na mente de quem assiste durante os 94 minutos de duração. A filmagem tem o quê epiléptico de Enter the Void (a abertura é bastante similar), os cenários decadentes e coloridos e à noite estão aqui também. Porém, cabe ressaltar que eu não diria que é um dos meus favoritos porque perdi uma grande parte do filme. Depois de anos de internet, as cenas que deveriam chocar absurdamente não fizeram tantas cócegas. Mas preciso admitir que esta aqui em baixo é de tremer o beicinho. O que é interessante. Pois o que mais me afetou (e me fez mal) não foi uma cena em que acontecesse algo horrendo, pelo contrário. Foi aquela em que tava tudo bem. Por enquanto…

irreversible-4Não adianta. O que aconteceu, aconteceu. É irreversível…

SECRET WINDOW
David Koepp (2004)

Por algum acaso do destino meu palpite sobre o “segredo” do filme estava certo. Por isso o filme perdeu a graça em alguns minutos. Ainda assim foi até interessante porque eu passei o filme caçando as pequenas dicas que ele vai dando até finalmente revelar a historinha. Mas enfim. Meu único porém é: Johnny Depp. Credo como esse cara é ruim. Ele fez a loucura do personagem adquirir aspectos jacksparrowanos. O overacting dele me cansa (embora eu ache que ele seja mesmo assim, nesse caso seria falta de acting) e mesmo para esse personagem ficou ruim.

THE SKELETON KEY
Iain Softley (2005)

Ótimo filme, conseguiu me surpreender bastante no final. Porém, a explicação acabou tirando o medo. Talvez, para algumas pessoas, o final elucidativo talvez fosse aterrorizá-las ainda mais. Não foi o meu caso.

DEAR ZACHARY: A LETTER TO A SON ABOUT HIS FATHER
Kurt Kuenne (2008)

Putz. Quase que lágrimas masculinas foram derramadas em vários momentos. Como sempre é o caso de bons documentários, a realidade é bastante esquisita, mais estranha que a ficção. Uma sucessão de bizarrices, aliada à personalidade incrível e tocante do pai de Zachary e de todos que deram seus depoimentos. Não deixa de revisitar também o conceito do Stalin de que a morte de um é tragédia e a de milhões estatística. Num mundo cada vez mais amortecido pela hiperexposição de mortes e mortes na televisão e internet – causando, inclusive a síndrome da hiposensibilidade à tragédia, que comentei acima e da qual eu sofro – esse filme consegue provocar em quem assiste um misto de emoções ímpar. E quem sabe passe a reavaliar as tragédias televisionadas de uma forma mais “toda tragédia é uma tragédia”. Valor à vida, por mais clichê, brega e moralista que isso soe.

O OLHO QUE TUDO VÊ
Marc Evans (2002)

Sabe aquele típico argumento do autor incompreendido de “vocês não gostaram porque não entenderam?”. Então. Normalmente ele me causa um certo repúdio, mas dessa vez ele poderia ser usado com propriedade. Eu não entendo por que as notas desse filme são tão baixas, eu não entendo como alguém pode não gostar dele. Quer dizer. Eu até imagino. O sujeito vai atrás de um filme de terror/suspense. Provavelmente seguiu a indicação do balconista, que tava querendo locar aquele filme que já estava empoeirado na prateleira. Chegando em casa, o cara que alugou encontra algo mais fora do padrão e que, para quem estava esperando sustos ou tensão, é apenas decepcionante. Mas o assunto abordado pelo filme é tão senso comum e óbvio (nem por isso ruim) que é impossível que a pessoa não note que o valor do filme se expande. Mesmo que seja alguém que está esperando um filme para assistir com os amiguinhos e “levar uns sustos” (nenhuma crítica a isso – conheci Drag Me To Hell assim e foi uma das surpresas mais gratificantes). Esse filme, aliás, é genial em uma coisa que o Would You Rather peca: ele foca nos dramas pessoais dos personagens.

CROSSFIRE HURRICANE
Brett Morgan (2012)

Tava na lista por eras, mas eu demorei para achar um torrent numa qualidade decente. O assunto “artistas” sempre me fascinou, talvez pelo mesmo aspecto que “religiões” me atraía. Só que com o bônus. Porque ele coloca pessoas de carne e osso no altar, sendo adoradas e endeusadas de maneira bisonha. E qualquer documentário, livro, produção sobre isso esbarra no “como o artista lida com a fama”. O artista é capaz do que os fãs não é. De expôr e expressar o que os fãs não conseguem, mas sentem. Ele é porta-voz de milhares de pessoas ou até de uma (ou mais de uma) geração. O fã cria uma relação platônica porque ele consome o artista que sofre a exposição pública e, em si, vira domínio público. Assim, o fã se vê como uma pessoa incrivelmente íntima de alguém que não tem nem conhecimento da existência dela. Enfim. Divagações à parte, é óbvio que toda essa mistura criou um documentário esplêndido. Tudo isso aliado ao fato de que os Stones eram inteligentes para caralho, cheiravam altas maconha e eram o Anticristo dos Beatles. Gostando ou não ou mesmo não ligando para eles, assista.

PULSE
Kiyoshi Kurosawa (2001)

Jesus que filme doido. Mais bizarro é que já em 2001 o pessoal tava preocupado com a internet. A arte é realmente nossa guia para o futuro. Por isso eu confesso que fico aterrorizado quando a Vicky me mostra um clipe tipo esse. Não sei qual é a direção que a arte aponta, mas, qualquer que seja ela, não te dá medo? Enfim. Eu não entendi o filme ao assistir ele. Porém, é bem acessível se você ler algo sobre. Algumas coisas que o filme tem: fantasmas, barulho de internet discada (que sempre foi bem medonho pra mim), alguns suicídios e manchas na parede. De resto: assista e leia.

THE BIG LEBOWSKI
Joel Coen (1998)

Puta que filme ruim. Por que as pessoas gostam disso? Tem o esqueleto de um filme passível de culto, mas a execução é tosca. Algumas cenas, alguns personagens, alguns diálogos. De resto, tudo é soterrado em bobagem e situações nhebas, sério, alguém me explica por que as pessoas gostam disso?! Quero acreditar que a semelhança nominal com o tio BUK seja apenas acaso. Porque, coitado, se foi intencional, o velho deve estar tendo uma crise de vômitos no post-mortem por causa desse filme.

ROOM 237
Rodney Ascher (2012)

Se eu tivesse CERTEZA que é um mockumentary, eu daria 5 estrelas. Mas a ironia é sutil demais e eu simplesmente não consegui ter essa visão do filme. Por isso avalio pelo que eu pude ver. Se alguém viu algo mais nele, por favor, me avisa. Porque eu tou desesperado para tirá-lo desse limbo de nota. Vamos lá, chamam várias pessoas para falar sobre o Iluminado do Kubrick. E santo deus, parece que cada um dos entrevistados tá besuntado em um ácido lisérgico diferente, mas igualmente intenso. É interessante notar algumas coisas que o Kubrick fez e que passaram despercebidas, mas de resto, a narrativa proposta pelos entrevistados parece paranoia. Ainda assim, é a prova audiovisual da morte do autor e do domínio público da obra. Apesar de surreal e doido, está tudo certo. O filme, intencionalmente ou não, contém esses significados. E não é um tempo totalmente perdido. Só alguém por favor me diz onde tá o rosto do Kubrick nas nuvens, pois se ninguém achar eu volto e mudo a nota porque daí eu tenho certeza que é mockumentary.