Arquivo da categoria: Resenhas

Eu joguei um jogo de RPG da Suzane von Richthofen

Clock Tempo estimado para leitura: 6 minutos (?)
Eu joguei um jogo de RPG baseado na história da Suzane von Richthofen. E isso é um review dele. São seis minutos que eu dificilmente serei capaz de devolver a qualquer um que pedir reembolso.

Continuar lendo Eu joguei um jogo de RPG da Suzane von Richthofen

Anúncios

Galera faz um ano que eu não escrevo nada aqui

Okay. Faz um ano que eu não posto nada aqui. Decidi só postar isso que já tava pronto nos rascunhos (há mais de cinco meses) para fingir que nada aconteceu.

UPSTREAM COLOR
Shane Carruth (2013)

No Filmow, a sinopse do filme é “um homem e uma mulher se unem e lutam para reunir os fragmentos soltos de suas vidas destruídas”. Sinceramente. Não sei que ser escreveu isso, mas também não sei se eu saberia escrever algo melhor, ou mais condizente com o filme. Tá tudo ali. Tem larvas, uma espécie de hipnotismo, porcos (e cirurgias), uma fotografia bonita, cópias de livros e um pouco de origami, é claro. Durante o filme eu fiquei o tempo todo tentando entender do que se tratava. Pensei em metalinguagem (o autor controla seus personagens numa obra da mesma forma que os personagens do filme eram controlados por outras pessoas).

Screenshot_012_largeSua vida antes do filme…

Pensei em condicionamento humano (há, parece, uma conexão entre os personagens HIPOPOTIZADOS e os porcos DOMESTICADOS). Só que tem o lance do romance no filme também. Cheguei a pensar no clichê da relação hospedeiro x reprodução (quando os protagonistas desesperadamente buscam um ao outro – quase que como para reproduzir as larvas – o que não me parece acontecer no filme). Mas enfim. É bem provável que todos esses sentidos estejam contidos no filme. Tem uma parte bem legal em que os protagonistas começam a confundir suas lembranças (um diz que viveu tal experiência na infância – mas o outro diz que também viveu). O que me lembrou do comentário do John Frusciante sobre o álbum que ele fez depois que casou: “Letur-Lefr for me signifies the transition of two becoming one“.

uc-orchidSua vida depois do filme…

Afinal de contas, a sinopse não é tão ruim assim. Só erraram uma coisinha. O certo é: o espectador luta para reunir os fragmentos soltos de suas um filme desconstruído. Ah, cabe o comentário de que o cara é diretor de Primer que, bem, é um puta filme. A 5ª estrela provavelmente virá quando eu assistir ao filme novamente.

CASHBACK
Sean Ellis (2006)

Esse é mais tranquilo. Um filme sobre a descoberta da mulher, por parte do homem. É uma perspectiva masculina e que pode passar por machista, principalmente por conta de alguns personagens meio caricatos. Mas está tudo ali. É o contato entre os dois mundos estranhos, seja por motivos de imposições de papeis socioculturais, seja por simples diferenças biológicas e de constituição física. Muitas vezes a gente esquece que o amor é esse embate entre diferenças e a capacidade de nós superarmos elas (e nesse caso o filme é meio heteronormativo, mas todo amor envolve dois seres essencialmente diferentes). É por isso que o filme tem o romance que pode parecer meio bobinho e deslocado. Fora extrapolações de roteiro – porque o filme em si é bem simples – alguns aspectos que talvez façam você se interessar: cenas bonitas, com certa preocupação artística, algumas situações interessantes. Mas tem várias ressalvas: o plot device da insônia a torna glamourizada, a concepção de beleza é meio torto (todas as mulheres mostradas obedecem rigorosamente aos padrões de beleza vigentes). Mas enfim, nada a perder com o filme.

DJANGO
Você sabe quem (2012)

Estranho. O filme é eterno (no sentido de longo) e tem o feeling do diretor aqui e acolá, mas não do mesmo modo que nos outros filmes. Parece que ele amaciou seu próprio estilo, sei lá o que aconteceu gente. Ou então, eu que, depois de alguns filmes dele, comecei a achar que estilo já começa a desbotar. Não tem como criticar o roteiro, as cenas e os diálogos; tudo tem a mesma carga icônica. Porém, alguma impressão me fez não gostar tanto quanto, por exemplo, Reservoir Dogs. Um elogio: o uso do sangue, as cenas em que ele SALTA de vasos por conta de tiros e outros são belas. Bem melhor que Kill Bill, sem perder o exagero do trash. Outro elogio: Leonardo DiCaprio que está cada vez menos parecido com um buldogue e mais parecido com um ótimo ator.

IRREVERSÍVEL
Gaspar Noé (2002)

Esse não é nem um pouco tranquilo. Como começar? Pelo fim. Para que a tragédia-final (e motiva todos os acontecimentos do filme) permaneça na mente de quem assiste durante os 94 minutos de duração. A filmagem tem o quê epiléptico de Enter the Void (a abertura é bastante similar), os cenários decadentes e coloridos e à noite estão aqui também. Porém, cabe ressaltar que eu não diria que é um dos meus favoritos porque perdi uma grande parte do filme. Depois de anos de internet, as cenas que deveriam chocar absurdamente não fizeram tantas cócegas. Mas preciso admitir que esta aqui em baixo é de tremer o beicinho. O que é interessante. Pois o que mais me afetou (e me fez mal) não foi uma cena em que acontecesse algo horrendo, pelo contrário. Foi aquela em que tava tudo bem. Por enquanto…

irreversible-4Não adianta. O que aconteceu, aconteceu. É irreversível…

SECRET WINDOW
David Koepp (2004)

Por algum acaso do destino meu palpite sobre o “segredo” do filme estava certo. Por isso o filme perdeu a graça em alguns minutos. Ainda assim foi até interessante porque eu passei o filme caçando as pequenas dicas que ele vai dando até finalmente revelar a historinha. Mas enfim. Meu único porém é: Johnny Depp. Credo como esse cara é ruim. Ele fez a loucura do personagem adquirir aspectos jacksparrowanos. O overacting dele me cansa (embora eu ache que ele seja mesmo assim, nesse caso seria falta de acting) e mesmo para esse personagem ficou ruim.

THE SKELETON KEY
Iain Softley (2005)

Ótimo filme, conseguiu me surpreender bastante no final. Porém, a explicação acabou tirando o medo. Talvez, para algumas pessoas, o final elucidativo talvez fosse aterrorizá-las ainda mais. Não foi o meu caso.

DEAR ZACHARY: A LETTER TO A SON ABOUT HIS FATHER
Kurt Kuenne (2008)

Putz. Quase que lágrimas masculinas foram derramadas em vários momentos. Como sempre é o caso de bons documentários, a realidade é bastante esquisita, mais estranha que a ficção. Uma sucessão de bizarrices, aliada à personalidade incrível e tocante do pai de Zachary e de todos que deram seus depoimentos. Não deixa de revisitar também o conceito do Stalin de que a morte de um é tragédia e a de milhões estatística. Num mundo cada vez mais amortecido pela hiperexposição de mortes e mortes na televisão e internet – causando, inclusive a síndrome da hiposensibilidade à tragédia, que comentei acima e da qual eu sofro – esse filme consegue provocar em quem assiste um misto de emoções ímpar. E quem sabe passe a reavaliar as tragédias televisionadas de uma forma mais “toda tragédia é uma tragédia”. Valor à vida, por mais clichê, brega e moralista que isso soe.

O OLHO QUE TUDO VÊ
Marc Evans (2002)

Sabe aquele típico argumento do autor incompreendido de “vocês não gostaram porque não entenderam?”. Então. Normalmente ele me causa um certo repúdio, mas dessa vez ele poderia ser usado com propriedade. Eu não entendo por que as notas desse filme são tão baixas, eu não entendo como alguém pode não gostar dele. Quer dizer. Eu até imagino. O sujeito vai atrás de um filme de terror/suspense. Provavelmente seguiu a indicação do balconista, que tava querendo locar aquele filme que já estava empoeirado na prateleira. Chegando em casa, o cara que alugou encontra algo mais fora do padrão e que, para quem estava esperando sustos ou tensão, é apenas decepcionante. Mas o assunto abordado pelo filme é tão senso comum e óbvio (nem por isso ruim) que é impossível que a pessoa não note que o valor do filme se expande. Mesmo que seja alguém que está esperando um filme para assistir com os amiguinhos e “levar uns sustos” (nenhuma crítica a isso – conheci Drag Me To Hell assim e foi uma das surpresas mais gratificantes). Esse filme, aliás, é genial em uma coisa que o Would You Rather peca: ele foca nos dramas pessoais dos personagens.

CROSSFIRE HURRICANE
Brett Morgan (2012)

Tava na lista por eras, mas eu demorei para achar um torrent numa qualidade decente. O assunto “artistas” sempre me fascinou, talvez pelo mesmo aspecto que “religiões” me atraía. Só que com o bônus. Porque ele coloca pessoas de carne e osso no altar, sendo adoradas e endeusadas de maneira bisonha. E qualquer documentário, livro, produção sobre isso esbarra no “como o artista lida com a fama”. O artista é capaz do que os fãs não é. De expôr e expressar o que os fãs não conseguem, mas sentem. Ele é porta-voz de milhares de pessoas ou até de uma (ou mais de uma) geração. O fã cria uma relação platônica porque ele consome o artista que sofre a exposição pública e, em si, vira domínio público. Assim, o fã se vê como uma pessoa incrivelmente íntima de alguém que não tem nem conhecimento da existência dela. Enfim. Divagações à parte, é óbvio que toda essa mistura criou um documentário esplêndido. Tudo isso aliado ao fato de que os Stones eram inteligentes para caralho, cheiravam altas maconha e eram o Anticristo dos Beatles. Gostando ou não ou mesmo não ligando para eles, assista.

PULSE
Kiyoshi Kurosawa (2001)

Jesus que filme doido. Mais bizarro é que já em 2001 o pessoal tava preocupado com a internet. A arte é realmente nossa guia para o futuro. Por isso eu confesso que fico aterrorizado quando a Vicky me mostra um clipe tipo esse. Não sei qual é a direção que a arte aponta, mas, qualquer que seja ela, não te dá medo? Enfim. Eu não entendi o filme ao assistir ele. Porém, é bem acessível se você ler algo sobre. Algumas coisas que o filme tem: fantasmas, barulho de internet discada (que sempre foi bem medonho pra mim), alguns suicídios e manchas na parede. De resto: assista e leia.

THE BIG LEBOWSKI
Joel Coen (1998)

Puta que filme ruim. Por que as pessoas gostam disso? Tem o esqueleto de um filme passível de culto, mas a execução é tosca. Algumas cenas, alguns personagens, alguns diálogos. De resto, tudo é soterrado em bobagem e situações nhebas, sério, alguém me explica por que as pessoas gostam disso?! Quero acreditar que a semelhança nominal com o tio BUK seja apenas acaso. Porque, coitado, se foi intencional, o velho deve estar tendo uma crise de vômitos no post-mortem por causa desse filme.

ROOM 237
Rodney Ascher (2012)

Se eu tivesse CERTEZA que é um mockumentary, eu daria 5 estrelas. Mas a ironia é sutil demais e eu simplesmente não consegui ter essa visão do filme. Por isso avalio pelo que eu pude ver. Se alguém viu algo mais nele, por favor, me avisa. Porque eu tou desesperado para tirá-lo desse limbo de nota. Vamos lá, chamam várias pessoas para falar sobre o Iluminado do Kubrick. E santo deus, parece que cada um dos entrevistados tá besuntado em um ácido lisérgico diferente, mas igualmente intenso. É interessante notar algumas coisas que o Kubrick fez e que passaram despercebidas, mas de resto, a narrativa proposta pelos entrevistados parece paranoia. Ainda assim, é a prova audiovisual da morte do autor e do domínio público da obra. Apesar de surreal e doido, está tudo certo. O filme, intencionalmente ou não, contém esses significados. E não é um tempo totalmente perdido. Só alguém por favor me diz onde tá o rosto do Kubrick nas nuvens, pois se ninguém achar eu volto e mudo a nota porque daí eu tenho certeza que é mockumentary.

Rápido comentário sobre oito livros

THE NAKED LADY WHO STOOD ON HER HEAD
Garry Small, Gigi Vogan

O livro dispõe (numa interessante ordem cronológica) casos psiquiátricos errr… excêntricos e curiosos. A linguagem é simples e precisa. Há elementos claramente maquiados ou mesmo criados, para tornar as histórias mais atraentes, mas isso não tira o mérito do livro. É uma leitura interessante. Um livro leve, sem ser leviano. Diferente de outros
star2star2star2star2star1

O CONCORRENTE
Stephen King

O livro é muito rápido. Não sei se tem outra maneira de ler sem sair devorando as páginas. A narrativa é empolgante e tem uma cena de intestinos de fora em um avião. O thrill já fica claro na forma como os capítulos são dispostos, como em um countdown. Eu já comentei uma cena de intestinos de fora?
star2star2star2star2star2

A DANÇA DA MORTE
Stephen King

Puta que livro foda. Depois da Torre eu não pensava que iria experimentar a sensação (incrível) de ler uma narrativa épica tão cedo. Sem chatices de definições literais. É um livro enorme, com personagens incríveis. A atenção dada às múltiplas tramas, às situações, a tudo, faz com que você termine o livro, depois de já acostumado a viver, por tabela, o caos pós-apocalíptico retratado e pense: e agora? Como eu vou viver? Ou te faça desejar uma pandemia 99% letal. Provavelmente a última opção.
star2star2star2star2star2

EVERYTHING’S EVENTUAL
Stephen King

São 14 contos (uns algo mais que contos). O primeiro, quase um revival da morte do Rodrigo Santoro no Lost, é desconcertante. Seguido pela figura sempre oportuna de Satã e um pobre menino. O terceiro é um dos mais densos. Curiosamente nesse conto tem uma incrível menção às frases de banheiro. Os próximos dois contos têm “Death” no título original. Ambos interessantíssimos, embora eu prefira o primeiro. E agora dois que merecem uma pausa.

The Little Sisters of Eluria é um spin-off da Torre Negra que sei lá como eu ainda não tinha lido. Não vai fazer tanto sentido se você não conhece a série, mas puta merda, que narrativa incrível. Eu soube que tem uma HQ contendo essa história e sinceramente eu mal posso esperar para ler. Everything’s Eventual dá nome ao livro por um motivo simples: é muito foda. A ideia é genial e parte do prazer está em descobrir aos poucos algo que eu antecipei, mas poderia ser imaginado na primeira página: o conto é foda demais.

Após esse conto, um que é pouco menos jawdropping. Mas o livro retoma o fôlego e os 6 últimos textos são absolutamente incríveis. Para um comentário rápido, está ficando prolixo demais. Leia.
star2star2star2star2star2

MADAME BOVARY
Gustave Flaubert

Outro livro que eu não sei onde eu tava com a cabeça por ainda não ter lido. A narrativa se enrola um pouquinho em um ou outro trecho, mas basta ter frequentado o ensino médio para lembrar o porquê. A história é interessante e reúne todos os elementos para fazer um bom livro. Traição, romance e uma cirurgia em um cara com o pé torto. E é claro que a cirurgia dá errado.
star2star2star2star2star2

O RETRATO DE DORIAN GRAY
Oscar Wilde

Esse livro tem um ritmo mais interessante que o Madame Bovary e personagens mais densos. O apelo filosófico do texto é incrível, tanto no seu tema principal, como através, principalmente, de Lord Henry e seus paradoxos. A ideia do retrato poderia ter sido uma ideia do Stephen King, porque, vamos combinar, ela é bem assustadora. Um daqueles livros que dispensa o meu comentário de recomendação.
star2star2star2star2star2

TEMPO DAS FRUTAS
Nélida Piñon

Se enquanto eu escrevo esse texto essa senhora não bater as botas, gostaria de deixar claro que considero ela um dos melhores contistas(?)/cronistas(?)/cadê os acadêmicos de letras(?) vivos. Essa mulher foi a escritora que melhor conseguiu executar uma das funções iniciais da poesia: a expressão de emoções. É uma leitura muito densa. Você sente que ela está brincando com você através das palavras. Por quê? Porque ela pode. Ah, vale lembrar também a imagética forte, a recorrente visão feminina (será que ela é a nova Clarice? Vamos citar Nélida Piñon no Facebook) e a universalidade dos textos. É isso.
star2star2star2star2star2

ADMIRÁVEL MUNDO NOVO
Aldous Huxley

Hoje é o dia dos livros-que-eu-já-deveria-ter-lido-há-muito-tempo-e-não-sei-por-que-só-fui-ler-agora. Com esse eu fechei a tríade distópica (os outros são 1984 e Laranjinha do Burgess). Claro que tem outros livros mas eu entendo por que o pessoal agrupou esses três. Eles são como três flechas que saem do mesmo ponto mas tomam rumos distintos. Orwell e Huxley são mais estruturais, debatem os aspectos do funcionamento da sociedade em suas distopias. Burgess mostra um lado mais individual, psicológico e social. Mantêm, sim, pontos comuns, como a preocupação linguística.

Mas enfim. Falando especificadamente de Admirável, a narrativa tem fluidez e empolga. A reserva dos selvagens, o soma, o entretenimento pago e, principalmente, o sistema de castas temperado com conhecimento biológico são aspectos que diferem o livro de Huxley das outras distopias.
star2star2star2star2star2

gifcertoVocê depois de ler esses maravilhosos livros

Rápido comentário sobre três livros

A Insustentável Leveza do Ser – Milan Kundera – 5/5
A narrativa é capaz de nos impor o fardo do questionamento e nos elevar. Simultaneamente. Questionar o que é traição, sexualidade, amor. Uma abordagem com um fardo filosófico, mas com a leveza única da literatura. O enredo é um mero palco, porque a verdadeira peça ocorre nas reflexões do narrador e das personagens. E como não se apaixonar por elas? A vontade era de sublinhar o livro inteiro, mas eu consegui me conter. Mais ou menos.

Sete Gatinhos – Nelson Rodrigues – 5/5
Dos livros que li do autor, até agora, esse foi o mais intenso. Pode não ter sido o mais impactante ou chocante. Mas foi intenso. A sensação de, como descreveu Flávio Aguiar, autor do excelente roteiro de leitura para o livro, banalização do grotesco é o ponto principal da obra. O “nada mais nos surpreende” saiu dos palcos e hoje é nosso modo de vida. Fora que as personagens, nessa obra, em específico, são inesquecíveis. E se não parecem motivos suficientes, clique aqui para saber o que o Lima Duarte pensa sobre desenhos no banheiro.

Mentes Perigosas – Ana Beatriz Barbosa Silva – 1/5
O livro queria ser leve. Acabou sendo leviano. A autora exagera em simplificações, é redundante e os exemplos, francamente. O que são aqueles exemplos? Joga areia em uma discussão muito importante (sobre as divergências quanto à psicopatia, sociopatia e outras classificações) e acaba por dar a entender que o livro é uma montoeira de achismos. O maior problema com isso é que ele praticamente incita uma cruzada para encontrar “psicopatas escondidos nos círculos de amizade, no trabalho e na escola”, para só no final dizer que “o diagnóstico de psicopatia deve ser feito apenas por um profissional”. Mas, como a autora diz o tempo todo, “cuidado, o perigo mora ao lado”. Um ótimo livro para achar que seu marido, seu chefe e até o padre da sua igreja são psicopatas ou para quem quer ter certeza de que a psiquiatria não está muito bem (representada).

nelson_rodrigues_-_divulgacao

Nelson Rodrigues, logo após ler o livro da Ana Beatriz Barbosa, pensando: “puta merda, será que eu sou um psicopata?”

Um Cão Andaluz

Toda pessoa que se considera normal já se deparou com o maravilhoso e deslumbrante universo onírico. Os sonhos exercem fascínio e desafiam todas as noções, sejam as lógicas como as ilógicas. Não é a toa que os sonhos surjam em tantos aspectos do cotidiano, estejam no discurso do Luther King ou mesmo como uma tentativa de aumentar suas chances com uma garota com quem você está em friendzone (seu virjão). Dizer que sonhou com ela, e omitir a parte em que você imaginou ter sexo com ela, provavelmente não vai funcionar.

Como faz com TUDO o que envolve essa criatura bizonha que atende pela alcunha de ser humano, a arte reflete essa aura misteriosa dos sonhos. Pois bem. Um Cão Andaluz é um exemplo disso. O surrealismo, assunto de uma aula de Literatura em que você provavelmente estava babando sobre seu caderno, praticando e não aprendendo a teoria, foi um movimento profundamente influenciado por um vislumbre em um universo totalmente estranho. Nada se sabia sobre os sonhos.


Se você tem uma tia espírita, ela provavelmente já te aterrorizou com essa ideia

A paralisia do sono era, ainda é, na verdade, associada a demônios e espíritos que sentam sobre você, o aspecto alegórico dos sonhos eram premonições místicas, se você acordar um sonâmbulo, ele morrerá… Chega, então, Freud e coloca uma lanterna nessa obscuridade. Céus, isso soa ainda pior do que eu imaginei. Influenciados por um turbilhão de teorias (que podem ter sido influenciadas por um turbilhão de cocaína), os surrealistas resolveram brincar com os sonhos.


Uma pessoa com quem você com certeza gostaria de ter degustado moscas.

Um Cão Andaluz é resultado da união de Salvador Dalí (aquele cara dos reloginhos derretendo) com um senhor chamado Luis Buñuel. Trata-se da representação máxima, é impossível assistir o filme sem sentir um reconhecimento, de um sonho. O filme (com módicos dezesseis minutos) recria perfeitamente a atmosfera onírica, com cenas bastante perturbadoras, devo alertar.

No entanto, nosso amigo ser humano se mostrou incapaz de apreciar e começou a bombardear o filme com tentativas de interpretá-lo. Algumas, fazem um certo sentido, como a ideia de que o filme se trata da viagem ao inconsciente de um assassino (um “argumento” é a passagem onde formigas saem das mãos de uma personagem, o que seria a versão literal da expressão francesa “fourmis dans les paumes”, “formigas nas mãos”, e que significaria “um grande desejo de matar”).

Esquecem-se no entanto, do contexto que permitiu o Surrealismo. O filme foi lançado em 1928, se você não dormiu nas aulas de História sabe que em 29 aconteceu alguma coisa importante. Foi a falência de todo aquele sistema perfeitamente lógico (ainda que caótico) que guiava a economia estadunidense. É óbvio que a arte antecipa as coisas e, nesse caso, foi a vez de antecipar a descrença na própria realidade.

Pois bem, particularmente, acredito que o filme recria tão bem a atmosfera onírica, que nem sinto a necessidade de interpretá-lo. Acredito que os sonhos têm, sim, um significado alegórico, mas ele é totalmente individual e precisa-se da cooperação completa da pessoa que os teve para se chegar à interpretação correta. Nesse caso, Salvador Dalí dorme em paz, embora persista em nossas memórias, e a tentativa de chegar a uma interpretação (o que é, em si, uma tentativa de racionalizar o filme) pode tirar um pouco da magia do filme.


O círculo preto representa a vida como uma tristeza cíclica. A contraposição do preto e do branco indicam que há um elemento além da melancolia. Cabe a você decidir a forma da sua vida. Você vai ser um quadrado? Um círculo? Ou um mosaico multicolorido?

Uma recomendação: assista o filme com a mente aberta. Tente se lembrar da última vez que se pegou quase dormindo e admirou-se com o quão desconexos seus pensamentos pareciam. O filme, em si, pode não te trazer a emoção imediata que um suspense poderia, mas, qual foi a última vez que você refletiu sobre seus sonhos? Você já parou para pensar sobre eles? Cegos congênitos sonham? Você sabia que, comprovadamente, pode ter um sonho lúcido?

Enfim… tantas perguntas, uma afirmação: a cena da navalha é memorável.

http://www.youtube.com/watch?v=020Z8rONCIc

O porquê de Dogville ser o melhor filme que eu já vi em muito tempo

Não acho que os filmes, livros ou a própria vida contenham um sentido tão grande assim. Principalmente, porque filmes costumam durar duas horas, livros umas dez e a vida… Bem, a vida varia. Mas isso não é exatamente o principal. Uma vida não é suficiente para se compreender todas as nuances da mesma, vá entender, Jesus nos fez assim. Aquele judeu cruel!

Dessa forma, nem que eu queria, eu não vou saber tudo sobre o Genocídio Armênio, a fabricação de Nunchakus, a ordenha de cabras na Irlanda. Provavelmente vou morrer sem saber talhar marfim e nunca saberei arremessar um bumerangue. Então, é presumível que muito do que eu vá falar aqui não exista, de fato, em Dogville. Indiferente ao que o nazista do Lars von Trier queria passar com o filme dele, eu irei fazer essa resenha (?).

O filme começa devagar, vou ser honesto para vocês. O negócio dos riscos no chão parece megalomaníaco demais, uma mera brincadeira com os atores, que são forçados a manipular maçanetas invisíveis, ou, quem sabe, uma forma de cortar recursos. Tudo bem que o maluco escreveu aquele manifesto, que, por sinal, parece bem divertido, se não fosse meio impossível. Então, não vou me ater às particularidades de algo que eu não conheço exatamente.

O senhor acabei me indicou o filme e me alertou para uma cena de tortura, que poderia ofender os olhos de minha mãe, maruja barbuda e musculosa que vem me acompanhando nesse cruzeiro pelo cinema. Céus, isso soa muito pior do que parece ser possível, acredite. Passa-se uma hora e alguns minutos e eu me pergunto: “como diabos esse filme pode conter alguma tortura?”. Acontece, meu amigo, que, se você não assistiu ao filme, é melhor você sair desse recinto, porque não vou poupar spoilers. Era inferível (uma dedução inerente a qualquer ser humano, aliás) desde o título que eu já assisti ao filme e que terão spoilers.

A tortura existe e foi claramente pior para os olhos da minha mãe que as cenas de sexo lésbico em Mulholland Drive. Conversando com a boa velha, após o filme, nos engajamos à busca de significações para aquela bela película. O uso das imagens como os “gângsters”, o “poder”, a bestialidade do estupro, enfim.

Há uma clara oposição entre o altruísmo e o quid pro quo, pomposa expressão latina para o que as prostitutas fazem, em geral. No começo, vemos uma Grace (a personagem principal) doando felicidade e boa vontade. Embora Tom (o pseudofilósofo) seja um covarde, sua missão inicial era usar Grace para uma “ilustração”.

Vejo aí, a voz do Lars von Trier, por meio da boca dessa personagem, em mostrar que Grace (e talvez Dogville), já que a referência ao que acontece como uma “ilustração” é repetida em momentos cruciais, trata-se dessa imagem, metáfora. Imagem de que, afinal?

Como dizia aquela frase de que a arte é uma representação humana, ou qualquer clichê de Senhor Óbvio, o filme é uma imagem, assustadoramente realista, da sociedade humana. Um dos pilares da organização humana sustenta o quid pro quo, em cenas não exibidas em pomposos festivais de cinema e, aliás, muito piores. É só ver o que o dinheiro compra, que vemos o quanto as pessoas se parecem, infelizmente, com os habitantes de Dogville.

E é para isso que eu chamo a atenção do “poder”. A imagem dos “gângsters”, das repentinas aparições da polícia, dos “pauzinhos movidos”. Tudo isso gira em torno de dinheiro. Grace, no entanto, não é pura. O final, que pode parecer beatificador e aliviante para alguns, faz dela outra criatura chafurdante naquele lodo. Não há ser humano que se salve. Não importa que Dogville seja queimada e até o pequeno bebê seja jogado ao chão depois de um tiro. Dogville é um simulacro, um microcosmo, aliás, de algo muito maior. E que está dentro de nós.

Um ponto de vista que beira o achismo, mas que faz perfeito sentido, é o que eu penso sobre o fato dos cenários não existirem. A atmosfera criada é totalmente efetiva. Tentar vislumbrar Dogville com cenários é quase impossível, porque todo o “desnudar” humano que se vê é perdido. Dogville acerta no que, acredito eu, BBB falha, pois permite, ainda que na ficção, o traçado de um perfil crível do ser humano, sem paredes para escondê-lo. Essa visão, além da presença de um narrador, aproxima o filme do movimento literário realista. Esse esmiuçar da humanidade é encontrado em um dos meus livros prediletos.

O Ateneu, de Raul Pompéia pode ter feito toda a minha sala dormir, embora tenha me deixado realmente animado com uma frase, que talvez façam os intermináveis descritivismos valerem a pena:

“O que é nulo, flutua e aparece, como no mar as pérolas imersas são ignoradas e sobrenadam ao dia as algas mortas e a espuma”

Assim como em O Ateneu, o coitado, literalmente, do Sérgio acaba sofrendo com esse mau selvagem, que é o homem. As algas mortas e a espuma sobejam em Dogville. Uma ajuda, um hábito bom, qualquer coisa altruísta, se levado à repetição, torna-se uma obrigação. Essa cobrança de “tudo o que as pessoas não precisavam”, uma ironia brilhante, é basicamente o que vivenciamos em nossas cadeias de relações interpessoais.

Nossas amizades criam obrigações. E isso não é unilateral. Ao passo que sofremos com cobranças, cobramos por nossas atitudes. Desse ponto de vista, será que um dia abandonaremos o capitalismo? Não se encaixa perfeitamente nessa lacuna ética que, talvez, seja um dos pilares da nossa evolução como espécie? Esse coletivismo individual?

O filme não nos dá respostas, nos traz perguntas. E basicamente contém a essência humana. Por isso, eu acredito que qualquer um é capaz de encontrar muita coisa nesse filme. Assim como o pessoal encontra na bíblia – que funciona em um quid pro quo, usar expressões em latim te deixam mais cult, incrivelmente semelhante ao do filme. Você não “salva” as pessoas da “comunidade” por meio de atos generosos, apenas, por ter uma compreensão do que Jesus, brother de luz, ensinou a você. Você faz isso porque tem medo de ir para o inferno tostar.

Fora o viés bíblico para justificar preconceitos. Fora o conforto de um contato individual com uma criatura gigantescamente bondosa que poderia te matar afogado em sapos, mas não faz. Embora, sejamos honestos, se fôssemos tal divindade, estaríamos nos preocupando em matar as pessoas de modos cada vez mais bizarro.

Assim, Dogville fecha um parágrafo nas minhas indagações existenciais, pontuando uma das essências humanas. Por que é essência, é imutável? Por que é essência? São tantas perguntas adjecentes, que chega a dar sono. Acho que para essas, no entanto, eu posso usar uma desculpa. Já são quase quatro e meia da manhã.

Dogville é um ótimo filme. Inspira ótimas perguntas. Eu poderia ter explorado o sentido da metáfora dos cachorros no filme, mas a preguiça me consome. E, ademais, o que eu estaria ganhando com isso?