Sobre educação

Vendo esse vídeo, o tema me surgiu e pareceu bastante oportuno. Porque, vamos ao choque de realidade: eu estudo desde 1998. Seria natural supor que, de todos os assuntos possíveis, esse era um dos que eu mais profundamente poderia discutir. Mas… não. Eu me sinto mais confortável em dissertar sobre a coleção do Pequeno Vampiro à qual eu dediquei, vamos supor, uma dúzia de horas da minha vida em comparação as quase cinco horas diárias desde a invenção do Google que eu dediquei à educação.

Educação de quem, exatamente? Educação de quê?

Eu passei no vestibular, o que me garante estudar, no mínimo, até 2019. Mas seria, como observa o senhor Izzy Nobre no vídeo citado, o vestibular o “diploma” que justificaria os quinze anos que passei estudando? Inicialmente, eu não pude deixar de assistir ao vídeo segurando uma vontade irreprimível de discordar. De dar coro aos professores que justificam as “matérias inúteis” como desenvolvedoras de habilidades que, essas sim, seriam “úteis”.

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Essa é a tia Doroteia, uma vampira sanguinolenta. Mas poderia ser sua professora do primário. Viu como a escola é do mal?

Pode parecer um conceito raso, o da simples utilidade, mas, novamente citando o vídeo – que é bem provável que você não tenha assistido -, nós vamos morrer véio. Nós já temos a internet para gastar nosso tempo com inutilidades. Que na educação, ao menos, as coisas sejam mais proveitosas. Ou que usemos a internet tanto para inutilidades quanto para utilidades.

É verdade, não é possível que aprender matemática – das operações básicas à forma trigonométrica de um número complexo – não tenham sido nem um pouco úteis. Ou talvez eu me recuse a acreditar que dediquei tanto tempo a algo que não fez por mim o mesmo que eu fiz por ela. Eu gostaria de ser pago cada vez que eu penso que as tentativas de definir – e, pior, quantificar – inteligência foram bastante bizarras.

Eu conheço várias pessoas brilhantes que simplesmente não se dão bem com a forma com a qual se mede a inteligência atualmente. Não é possível que alguém realmente acredite que toda a capacidade intelectual de alguém está no assinalar correto de uma questão num vestibular. Ou de oitenta delas.

vestibular-1A. B. Nogueira enquanto presta vestibular para Administração. Ela queria mesmo era fazer Engenharia de Tirolesas. “A inteligência de 200 mil anos de evolução como Homo sapiens sendo aferida em Múltipla Escolha. Vocês tão fazendo isso certo”, ela comenta ao final da prova.

Isso indica que, surpresa, a pessoa é boa ou ruim na resolução daquela prova, em específico. É contraditório que o formato da educação exija que a pessoa seja simultaneamente boa em matemática, biologia, português – áreas tão diferentes do conhecimento – e tenha um único método de aferir essas competências. Calma, que eu estou escutando alguém reclamar sobre provas discursivas, redação, blá blá blá.

Nenhum vestibular ou prova vai contemplar – jamais – a totalidade de estudantes que a eles se submetem. Será, no máximo, efetivo para os que forem aprovados e, às vezes, nem isso. É risível pensar na quantidade de gente que passou no vestibular por sorte. O problema é que as pessoas passam a vida inteira buscando reiterar sua individualidade quando uma coisa mais importantes passa por uma ditadura da coletividade.

Eu não acho que o caminho apontado pelo Izzy Nobre seja ruim (ele sugere algo mais aos moldes da educação estadunidense – onde o estudante, já no high school, entra em contato com matérias optativas “mais úteis”). Mas ainda assim soa como uma solução parcial. Afinal, como definir as matérias oferecidas? Será que contemplaríamos justamente todas as possibilidades?

Para mim, falta uma certa autonomia. Eu sou suspeito para falar sobre isso. Porque a ideia de homeschooling sempre me atraiu. E eu acho que essa é a forma perfeita de fornecer uma educação que, em vez de limitar ou restringir potenciais em nome de um currículo uniforme, os magnifique. O MEC exige uma formação a nível de ensino médio para a Educação Infantil (creches e pré-escolas). E Pedagogia ou licenciaturas para o Fundamental e Médio.

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Os invejosos dirão que é fake.

Ou seja, a maioria dos pais poderia pelo menos nos primeiros anos atuar como educadores. E melhor: sendo, além de professores, pais (dã), eles poderiam determinar, em conjunto com a criança, os próximos passos da própria formação. Há diversas possibilidades. Como a utilização de conteúdo digital, como o projeto CrashCourse dos irmãos Hank e John Green ou a Khan Academy.

Apenas para citar outros projetos, vsauce, SciShow, minutephysics, asapSCIENCE, TED, CGPGrey, periodicvideos, SmarterEveryDay, minuteearth. E isso apenas dentro do espectro que reúne as matérias “tradicionais” (biologia, química, física, geografia, história, literatura). O YouTube permite, por exemplo, contato com uma infinidade de outros campos. Apenas citando, o incrível canal thebrainscoop (que fala sobre taxidermia, biologia, museus e muitos, frise muitos, animais mortos ) ou o indymogul que tangencia diversos aspectos da produção cinematográfica.

São uma parte, na verdade, da imensa quantidade de conteúdo disponível na internet. Eles compartilham algumas coisas em comum. Primeiro, todos utilizam uma didática audiovisual que muitas vezes excede a capacidade de qualquer professor ordinário (no sentido exato da palavra). Segundo, todos estão em inglês. Com algumas exceções, em que há alguma legenda disponível, a maioria impõe uma barreira linguística.

Mas a ideia aqui é básica. Se você tem indivíduos bilíngues (e o devido incentivo), você consegue tornar o conteúdo mais acessível. Tome esse exemplo. Não tem como se atribuir um peso menor para a importância de aprender o inglês. Mas isso não ocorreu na minha vida estudantil. Estudei até o primeiro ano do ensino médio em uma escola pública, que foi uma sucessão de professores despreparados e relapsos, falta de foco e lições que pareciam tão conectadas com o mundo real quanto o socialismo utópico.

Na escola particular, a realidade não foi tão diferente. Se aprende inglês de maneira tão fragmentada (muitas vezes, simplesmente omitindo o listening por completo) que me dá até ânsia. A maior parte do que aprendi, fiz sozinho. E não é difícil. O meu eu infanto-juvenil acabou se guiando e aprendendo. Imagine o que não pode ser feito com a devida orientação.

A licenciatura como existe está errada. Ao se isolar numa universidade o professor perde contato com a realidade e raramente vai conseguir voltar. Depois, é obrigado a se sujeitar à matriz curricular definida pelo MEC e, bem, vocês sabem o final da história. Essa figura ainda é necessária, porque não adianta você adquirir um otimismo empolgado com a revolução educacional pela internet sendo que o mundo ainda continuará com os vestibulares.

Mas se você, num futuro próximo, planeja aumentar a população mundial, pense carinhosamente em participar mais da educação da sua prole. Descubra, com eles, quais são suas habilidades, defeitos, vontades. Tente, ao máximo, reverter o processo de enjaulamento e seleção de “habilidades ideais” que recebe o nome de educação formal. Se for surrar seu filho, deixe a cinta de lado e bata nele com exemplares da literatura universal. Okay, talvez é melhor não. Ninguém quer que seu filho fique com trauma de Shakespeare.

Eu pretendo ter meios financeiros, judiciais e de tempo para, caso eu tenha filhos, educá-los em casa. Eu sei das dificuldades a que eles – e eu – estaremos sujeitos, mas acho que valerá a pena. E para quem acha que o convívio social ao qual se é forçado quando educado em uma escola tradicional é imprescindível: ministrarei, eu mesmo, aulas de “Como As Pessoas Costumam Ser Bastante Escrotas e Esse é o Comportamento Padrão, Então Se Acostumem”.

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Professor titular das aulas práticas de “Como As Pessoas Costumam Ser Bastante Escrotas e Esse é o Comportamento Padrão, Então Se Acostumem”

Sei que abordei um pouco levianamente o assunto, então, por favor, deixem comentários que eu retomarei o tópico. Mas eu estou tendo uma crise de rinite e tá difícil viver no momento.

Viva o Google Trends

Os filósofos gregos que me perdoem, mas eles não se adaptariam a nossa era. Eles floresceram porque foram, de certa forma, pioneiros. Mesmo que não tenham sido os primeiros de fato, foram os que deixaram um certo registro que foi sobrevivendo – e sendo alterado – através dos séculos. Admitamos que Sócrates não teria chances em um mundo com sete bilhões de pessoas, no qual tudo parece ter sido dito e a chance de parecer original é quase nula.

Aristóteles não aguentaria a morte do conhecimento individual. Hoje nosso comportamento é massivo. As ideias não são mais pessoais e individualizadas. É como se tivéssemos uma população dividida, como em um gráfico de pizza. Você com certeza pode ser encaixado em um dos setores desse gráfico. E terá amiguinhos para compartilhar suas ideias.

Pitágoras encontraria os amiguinhos dele em uma comunidade de “Eu odeio feijão” no Orkut, mas teria dificuldade em ser publicado. É provável que o ócio dos gregos recebesse outro adjetivo pátrio. E honestamente? A morte do indivíduo é um fenômeno interessantíssimo. E devo agradecer ao ócio grego por me permitir enxergar isso.

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Imagine mentalmente a música do Harlem Shake tocando enquanto você assiste ao GIF. Ele é uma metáfora para a pergunta “Seria Sócrates um pré-socrático?”

Todo esse papo de filósofos queria chegar a dois pontos principais. Estar sem ter o que fazer é ótimo. Agradeço aos gregos por isso. E a coletividade e a massificação acabam por serem um ótimo objeto de estudo. Essas duas coisas – ócio e estudo de massa – se combinam no Google Trends. E eu agradeço ao Magno por isso.

O Trends, para quem não sabe, pega o registro de buscas no Google para fornecer dados e curiosidades estatísticas. E ele nos permite demonstrar perfeitamente esse comportamento massivo e esquisito de uma humanidade de sete bilhões de pessoas. Okay. Tudo bem. O Trends é um simulacro da humanidade de sete bilhões de pessoas, pois acaba reunindo informações de uma parcela com acesso à internet. Mas a maioria de nós não costuma ser muito preocupado com o pessoal que não tem acesso à internet, né?

O site nos mostra desde coisas banais e previsíveis, como a evolução das buscas por gripe suína após o surto midiático, a outras, no mínimo, curiosas. Por exemplo, o interesse sobre queimadura com limões tem records periódicos que coincidem com as férias. Ou que o estado que mais procura por “esperança” é a Paraíba. Também indicam coisas bonitas. Como a busca em diferir “mais de mas”, com um interesse crescente que chega a dar emoção.

Em maio de 2009 aconteceu alguma coisa bem interessante. Foi atingido o pico de buscas por “como fazer sexo”. Espero que as pessoas tenham descoberto. Ainda no ramo do conhecimento, mas não sexual, fico feliz que as procuras por “asterístico” tenham diminuído. Mas nem tudo são flores. As buscas por viajem estão aumentando. A sorte é que o Google tem aquela maneira toda delicada de dizer que você é analfabeto.

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“Você quis dizer:” – o Google faz parecer que ser burro foi algo acidental.

Eu podia procurar sobre coisas que realmente fariam alguma diferença. Acho que seria o que um filósofo grego faria. Mas a tentação de procurar quais são as tendências sobre bafo de cebola, sorvete de milho, ou por que diabos esse crescimento súbito para “perdi as chaves”?! É verdade que a precisão do Google Trends é bastante questionável principalmente porque ele depende de um certo volume de pesquisas.

Mas é um exercício divertido. Olhar as pesquisas relacionadas ao termo “as gata”. E se você não sabe as datas do alistamento militar, basta dar uma olhada no Google Trends. Parece que o 2 é o mais popular dos cinco primeiros números. E você achando que ser o primeiro era o mais importante. A verdade é que esse post não queria mostrar uma verdade chocante (se é que algum outro post quis), mas apenas apresentar uma ferramenta que pode ser útil para vencer o tédio.

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Um pesadelo recorrente do Pitágoras…

Quando você não tiver nada melhor para fazer. Dê uma chance ao Google Trends. Tem uma mosca atrapalhando minha concentração. Vou procurar no Google o que devo fazer. Eu não consigo deixar de imaginar o que os filósofos gregos pesquisariam no Google Trends. Talvez Pitágoras seja o mais simples de imaginar. Ele provavelmente procuraria por feijão. E evitaria os lugares que têm muitas buscas sobre o assunto.

E mesmo que as minhas buscas no Trends façam nossa coletividade parecer um pouco idiota e embasbacada. Eu tenho certo orgulho por saber que o interesse em descobrir “o que é o amor” está crescente. Ou que as pessoas se preocupam com os piolhos de maneira quase constante desde 2004. Ainda há fé na humanidade. Quer dizer… ainda há fé na humanidade?

Rápido comentário sobre três livros

A Insustentável Leveza do Ser – Milan Kundera – 5/5
A narrativa é capaz de nos impor o fardo do questionamento e nos elevar. Simultaneamente. Questionar o que é traição, sexualidade, amor. Uma abordagem com um fardo filosófico, mas com a leveza única da literatura. O enredo é um mero palco, porque a verdadeira peça ocorre nas reflexões do narrador e das personagens. E como não se apaixonar por elas? A vontade era de sublinhar o livro inteiro, mas eu consegui me conter. Mais ou menos.

Sete Gatinhos – Nelson Rodrigues – 5/5
Dos livros que li do autor, até agora, esse foi o mais intenso. Pode não ter sido o mais impactante ou chocante. Mas foi intenso. A sensação de, como descreveu Flávio Aguiar, autor do excelente roteiro de leitura para o livro, banalização do grotesco é o ponto principal da obra. O “nada mais nos surpreende” saiu dos palcos e hoje é nosso modo de vida. Fora que as personagens, nessa obra, em específico, são inesquecíveis. E se não parecem motivos suficientes, clique aqui para saber o que o Lima Duarte pensa sobre desenhos no banheiro.

Mentes Perigosas – Ana Beatriz Barbosa Silva – 1/5
O livro queria ser leve. Acabou sendo leviano. A autora exagera em simplificações, é redundante e os exemplos, francamente. O que são aqueles exemplos? Joga areia em uma discussão muito importante (sobre as divergências quanto à psicopatia, sociopatia e outras classificações) e acaba por dar a entender que o livro é uma montoeira de achismos. O maior problema com isso é que ele praticamente incita uma cruzada para encontrar “psicopatas escondidos nos círculos de amizade, no trabalho e na escola”, para só no final dizer que “o diagnóstico de psicopatia deve ser feito apenas por um profissional”. Mas, como a autora diz o tempo todo, “cuidado, o perigo mora ao lado”. Um ótimo livro para achar que seu marido, seu chefe e até o padre da sua igreja são psicopatas ou para quem quer ter certeza de que a psiquiatria não está muito bem (representada).

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Nelson Rodrigues, logo após ler o livro da Ana Beatriz Barbosa, pensando: “puta merda, será que eu sou um psicopata?”

Livros de inverno e literatura “de verdade”

Eu corro dois riscos escrevendo esse post. O primeiro é o de soar repetitivo. Afinal, tenho a impressão de que já discorri diretamente sobre o tema em pelo menos dois posts e indiretamente em outros tantos. O segundo risco é o de ser um tempo gasto inutilmente. No entanto, eu venho remoendo o assunto há mais de nove horas, desde que li esse artigo.

Dando vazão a minha insônia, aqui estou eu. E a única impressão que tenho sobre o artigo (se você não o leu, leia, talvez discorde de mim, o que seria ótimo) é que é pura dor de cotovelo. Imagino o diálogo interior travado pelo autor do texto. “Porra, aquela merda tá vendendo milhões”. “Qualquer um podia ter escrito aquilo lá”. “Não acredito que 50 Tons divide estante com Machado de Assis, indulgentemente relegado às traças e a edições meia boca”.

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“Ora, é claro que tu podes tirar um retrato, porém tu precisas ser rápido visto que a sessão de autógrafos com o gênio que escreveu esse livro já está para acabar”

Imagino que o juízo que Hatoum faz acerca de suas próprias obras não seja ruim. Mas ele prefere citar a literatura universal, numa espécie de tentativa de transmitir impessoalidade. Eu concordo que Graciliano Ramos tem uma técnica que ainda é muito superior à que Stephenie Meyer provou. É verdade que suas reflexões são muito mais profundas e mesmo o contexto histórico e a vida do autor poderiam ser argumentos que justificariam uma balança de qualidade pendendo para o lado dele.

Porém, isso não dá credibilidade a Milton Hatoum ou a qualquer pessoa para colocar o dedo indicador na sua posição predileta e rotular uma como melhor que a outra. Eu não entendo a incapacidade dessa corja intelectualizada em conciliação. Parece que não é possível haver um mundo no qual pessoas se divirtam com vampiros fluorescentes (a maioria delas em um processo de amadurecimento, que justifica completamente sua predileção por uma coisa mais simples) e outras que gostem de sofrer com a realidade seca das palavras de Graciliano Ramos.

Entretenimento e seriedade não são mutuamente exclusivos. O que justamente dá a Machado de Assis a sua genialidade é a capacidade que ele teve de traçar um perfil crítico da sociedade de sua época e a tornar até mesmo engraçada, sob as ironias que ele constrói. A literatura e, sobre ela, a arte fornecem um campo que pode ser preenchido de qualquer maneira. E isso a faz especial.

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“Aula de matemática básica pessoal! É possível somar as coisas. Literatura pode entreter e informar. Pode divertir e criar senso crítico. Pode até ser erótica! Ou melhor, pode ser, ao mesmo tempo, tudo isso e ainda mais. Mas não há nada de errado se ela for apenas um desses”

A leitura é uma forma de entretenimento. Subjugar a literatura de entretenimento é o mesmo que arrancar um braço de um polvo. Você provavelmente vai poder contar para os seus amigos (ou escrever sobre isso no Estadão), mas na verdade nem você nem o polvo vão lucrar. Atacar a literatura prazerosa e despreocupada é subtrair funções da literatura. É diminui-la.

Na tentativa de compreender as motivações que levaram Hatoum a atacar a literatura de entretenimento, só me vem a imagem da dor de cotovelo. Talvez, naquele mesmo diálogo interior, ele foi confrontado com uma voz acusadora, que dizia “Então por que não fez?”. Não, ele não poderia baixar o nível, afinal, supostamente a literatura de verdade deve englobar as características que definem as obras citadas aos caminhões naquele texto.

Mas eu te digo algo. Talvez a literatura de entretenimento seja a mais importante de todas. Quando sair uma biografia do Hatoum, eu provavelmente vou querer comprar, porque ao que parece ele lia Schopenhauer no ventre materno. Se ainda lhe parece justificável rotular as coisas dessa maneira, os livros de verão são um belo portal para uma posterior imersão na literatura “de verdade”. Eu fico imaginando se Hatoum definiria sua própria obra como livros de verão ou literatura “de verdade”. Creio que ele argumente que o tempo se encarregará de provar o que é essa tal de literatura de verdade.

Note que, no título, ele tomou o cuidado de se referir à suposta “baixa literatura” apenas por “livros”. Livros são entidades físicas, terrenas. Já a literatura é algo metafísico, transcedental e por assim vai. Isso, somado à aproximação bisonha da literatura à solidão trazem a imagem de um menino fazendo birra. “Vocês não gostam da minha literatura porque não a entendem”. “Sou bom demais para essa gente”. O gênio incompreendido.

A literatura tem sim um quê de solidão, mas não era desse sentimento que Hatoum estava falando. Escritor, ele usou um eufemismo bastante oportuno. Isso porque a palavra “elitizada” soa um pouco mal. Mas é exatamente isso que Hatoum endossa quando parafraseia algum qualquer para dizer que literatura “de verdade” é para poucos. Nota-se que ele pouco se difere dos hipsters e indies, que regozijam fazer parte de uma minoria risível, apenas por ser uma minoria. É a ideia de exclusividade.

Foi a partir de livros infantis, muitos deles com função única de entretenimento que eu me formei como um leitor. Se eu nascesse um pouco mais tarde, teria sido um leitor de Crepúsculo. Sim, Milton Hatoum, espante-se com isso.. Leitores de Cinquenta Tons de Cinza. Leitores. É impossível que o exercício de ler 480 páginas seja nulo. Mesmo que ele aumente o vocabulário de seu leitor em uma única palavra, foi um exercício pouco rentável, mas ela existiu. Não o estou atacando pessoalmente, é uma observação extremamente fortuita: quando li Dois Irmãos do Hatoum, não me senti nem um pouco intimidado, nem um pouco abismado, nem um pouco “leitor de literatura de verdade”.

É aliás, com grande supresa que notei quem escrevia. Se fosse alguém escondido pelo anonimato, tudo bem, era justificável. Mas me admira que ele tenha elencado tantos autores consagrados quando não encontrei vários dos elementos que configuram, segundo ele, a literatura “de verdade” no romance do próprio Hatoum. Mesmo assim, se me perguntassem, hoje, se valeria a pena gastar tempo lendo o livro, eu diria que sim.  Se me perguntassem sobre qualquer livro. Eu diria sim.

Porque não há tempo perdido lendo um livro ou assistindo a um filme. Não há tempo perdido com arte ou cultura. Pois mesmo que ele seja de todos o que menos gostamos (sejam lá quais razões), ainda poderemos fazer como fez o senhor do artigo e colocar nossos neurônios para dissertarem. Mesmo que nossos cérebros derretam enquanto assistimos Big Brother, analisá-lo por uma perspectiva sociológica, por exemplo, certamente seria um exercício produtivo. Aliás, esse tema não encerra por aqui, porque vocês com certeza vão prestigiar uma apologia ao Big Brother Brasil.

Porque há algo muito importante sobre o nosso momento literário e artístico. E ele é tão incrível que acaba influenciando na forma com que lemos literatura de outros tempos e épocas. É a morte definitiva do autor. É a consagração da arte como domínio público a partir do momento em que ela é criada, afinal, ela nem ao menos precisa ser divulgada mais. O acesso é vertiginoso, instantâneo e generalizado. Hatoum sugere uma volta ao medievo, na qual umas dúzias de pessoas detinham a cultura do mundo inteiro.

A contemporaneidade dá ao leitor, telespectador ou seja lá qual for o receptor a capacidade de ampliação de sentido, de construção de significado, de maximização. O leitor muitas vezes é capaz de tornar uma obra muito mais valiosa do que ela era inicialmente. E esse é o problema de Hatoum. Ele ataca a obra, como se ela contivesse um mal. A obra é apenas um esqueleto do que ela pode ser.

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Milton Hatoum, aos dois anos, lendo um livro do Sartre. Ele diz que entendeu tudo!

A evocação de outras realidades deixa claro que ele sabe que não é bem assim. Que a educação tornaria maior o interesse por leituras mais complexas, mas como julgar um texto que tem um único parágrafo que parece apontar para isso? Hatoum sabe que é o leitor que dá dimensão à obra. Isso seria, de fato, solucionado por uma melhor educação. Mas será que é isso o que ele realmente quer? O retorno à ideia da fusão da literatura com a solidão (o que na verdade quer dizer que a literatura “de verdade” é para poucos), ao fim do texto, acaba com qualquer indício de que o autor realmente deseja uma literatura não-elitizada.

Afinal de contas, se todos lessem Coração das Trevas, sobre qual livro ele iria poder destilar toda a sua intelectualidade em um artigo? Quem sabe em um mundo de pseudointelectuais, a literatura de entretenimento virasse objeto de culto. Imaginem! Teríamos um Milton Hatoum atacando a literatura pesada e enfadonha, subserviente a inúmeras influências e tarefas, que precisa ao mesmo tempo ser veículo político, de entretenimento e reflexão.

Ele poderia até manter o título. Citaria J.K. Rowling, Stephenie Meyer e E.L. James. Tolkien também pode ser uma boa. Stephen King, por que não? Infelizmente, ainda não vivemos esse mundo de inversão de valores e a simples citação desses autores ainda é desvalorizada. Mas esperemos pelo dia em que será lugar-comum ler qualquer escritor russo ou um modernista espevitado. Será uma forma de argumentar e construir uma imagem intelectualizada, apenas enumerar autores fora do senso comum da época (nossos atuais escritores de best-seller), como se isso fosse prova de nossa sapiência.

A literatura é fantástica o suficiente para englobar mundos distintos. Não há conflito entre esses diversos universos, que muitas vezes se entremeiam e geram as obras primas. Sabe o que eu acharia graça? Se pudéssemos ressucitar Machado de Assis ou qualquer figurão da literatura e o sujeito escrevesse um elogio à literatura de entretenimento (numa máquina de escrever, porque ele teria que ir se acostumando gradativamente às novas tecnologias).

É triste que a cultura seja restrita e pessoas com opiniões como a de Milton Hatoum só ampliam esse quadro horrível. Para definir com clareza o quanto a literatura atual se baseia no domínio público, estou com o livro de Hatoum aqui. Eu sei que mal dá para ver porque, no meu protesto silencioso, eu o coloquei sob vários “livros de verão”. Tem Harry Potter, tem até o livro do Hugh Laurie. Mas pode deixar, seu Miltão, porque isso não é uma ofensa. Considero esses livros tão livros quanto os outros que tenho em minha estante. Ela é bastante receptiva e não tem preconceito.

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“Milton o quê?” “Hatoum” “Não entendi” “Hatoum” “Ã?” “H – A – T – O… ah, deixa para lá, vou levar esse aqui do Paulo Coelho”

Está lá Saramago, que não gosta de ficar muito perto da Bíblia, mas que se dá incrivelmente bem com Graciliano Ramos. Acho que são os resquícios de ideais comunistas. Tem ali também Machado de Assis, que eu acho que anda tentando se aproximar de Clarice Lispector. Acho que ele quer uma prosa intimista com ela. Mas, sinceramente, o lado mais engraçado da minha estante é o que reúne Gregório de Mattos e Veríssimo. Você não sabe o que eu escuto vindo de lá.

Eu vou dormir. Porque talvez consiga, pelo menos em sonho, ver Machado de Assis, despreocupado, com um sorriso no rosto, lendo Paulo Coelho. Ou, quem sabe, Dois Irmãos, do Milton Hatoum.

Uma apologia ao Natal e ao Papai Noel

Todo ano é a mesma coisa. Pessoas, motivadas sabe-se lá por quais desventuras da vida, atacam a crença no Papai Noel e no Natal como se sentissem pessoalmente ofendidas por elas. Essas pessoas, no entanto, não entendem o papel crucial que o Natal e o Papai Noel desempenham para o mundo e para a existência humana.

Todas as virtudes natalinas, personificadas no Papai Noel, contribuem para tornar o momento da ceia natalina uma ocasião especial. A gratidão dentro de um ambiente familiar, simbolizada pela troca de presentes; as mensagens de esperança para o ano vindouro. A presença do Papai Noel e do Espírito Natalino, que tantos afirmam não existirem, faz-se de modo explicitamente visível nessas manifestações de solidariedade.

120403111958-large-e1333549976442“O alcance da nossa solidariedade é apenas até aqueles que compartilham das mesmas crenças que a gente. Não é mesmo, amigas?”

Infelizmente, as atitudes muitas vezes não saem das portas de casas. É difícil romper a barreira que separa o nosso conforto de uma realidade que muitas vezes nos choca. Por mais que façamos amigos secretos e confraternizações entre amigos de trabalho e familiares, dificilmente ajudamos estranhos.

E se isso já ocorre em um mundo no qual a maior parte da população acredita no Natal e tenta viver suas virtudes, imagine o que não aconteceria em universo descrente. Não. Precisamos do Papai Noel para que possamos negociar a ética e educar nossas crianças desde cedo pelo quid pro quo. Por que (e como?) explicar para uma criança que mal consegue discernir o preto do branco que a ética é tão complexa que mesmo inúmeros séculos e filósofos se passaram sem que houvesse um consenso?

É preciso a figura simples e previamente construída do Papai Noel para que a criança engula mais facilmente o porquê de ela ter de suprimir seus instintos egoístas. “Se você for um bom menino, ganhará um presente de Natal“. Além disso, tendo em vista a realidade que ameaça as ruas (a violência, as drogas, a promiscuidade), é preciso dar a nossas crianças uma dose de esperança.

Mesmo que ela seja surreal. É preciso dar às crianças algo para acreditar. Há um vazio existencial na humanidade e antes preenchê-lo de fatias de peru e tender, com uma mesa farta e um tio bêbado falando besteira, do que correr o risco de deixar nossas crianças à mercê do mundo. E sabe o maior problema? É que se não fizéssemos isso, é muito provável que elas realmente se afundassem nas drogas.

Porque não as ensinamos a pensar. Nós as fazemos deglutir a magia do Natal, pois ela é um modo simples e efetivo de evitar um pequeno desastre. Mesmo que desconfiemos que haja outra maneira de ensinar uma boa educação a uma criança, é mais simples chantageá-la. E esse é outro motivo pelo qual defendo o Natal. Porque somos, afinal de contas, muito preguiçosos.

pai autoritario“Escuta aqui, eu sei que deixamos você assistir televisão o dia inteiro. E que ela fica te bombardeando com anúncios falando que você precisa ter as coisas. Mas nós também vamos à missa todo domingo. E você precisa entender que, a despeito da enxurrada de publicidade, nós somos submissos aos ideais judaicos-cristãos. Eu não vou te explicar que roubar as coisas é errado segundo uma visão que cria o conceito de propriedade privada, porque você é muito novo para isso e, francamente, nem eu não entendo. Eu só quero que você acredite que se ficar roubando, não vai ganhar presentes no final do ano. Entendeu?”

Também pudera: vivemos uma rotina árdua, na qual contam-se os dias da semana até o próximo feriado. O Natal não é apenas um momento em que você extravasa e expurga sentimentos ruins e estresse acumulados. Aquele pequeno rito é uma tentativa de não pensar. De se entregar ao destino. Passamos tanto tempo planejando nossa vida, gerenciando gastos, que é naquelas horas da reunião natalina que podemos nos confortar com a ideia de que não precisamos nos preocupar. De que há algo maior tomando conta de nós.

Mesmo que alguns considerem falsos os abraços, mentirosos os sorrisos, as fotografias de uma noite de Natal provam que talvez o efeito que as coisas tenham seja mais valioso que o custo de suas causas. Ver que, pelo menos ali, familiares que se odeiam fingiram não existir mágoas já faz valer a pena.

Afinal, uma mentira dita muitas vezes, por muitas pessoas, quem sabe, acaba se tornando uma verdade. Tudo isso só faz com que eu conclua que as pessoas que não gostam do Natal devem ter alguma coisa de errado. É verdade, o Papai Noel é praticamente uma invenção da Coca Cola, é uma festa do consumo, mas será que essas pessoas não enxergam a importância dessas figuras para a nossa cultura, para a nossa vida?

Eu não consigo acreditar em alguém que não acredite. E acho que é esse o meu erro. Eu vejo no Papai Noel e no Natal uma extensão da minha personalidade. Eu amo decorar a arvore natalina. Por não conseguir enxergar minha vida sem esse pequeno mimo, eu não aceito que outras pessoas digam algo que considero uma heresia. Mas ultimamente o mundo vai tão mal. Há tantas pessoas que não creem no Natal, que eu venho sendo obrigado a respeitá-los. Não por concordar com eles, mas porque eles são muitos.

Isso é difícil para mim. Porque apesar de a sociedade considerar polido e de bom grado que haja a tolerância, dentro da minha família há um ambiente muito ruim para aqueles que não acreditam no Natal. Nas reuniões que precedem as festas natalinas, o tema sempre retorna. Um dos meus pedidos ao Papai Noel é de que aqueles que não acreditam no poder do Natal passem a crer.

Porque seria horrível perder a chance de ganhar presentes no Natal. Por isso, qualquer conduta que seja improcedente com os valores natalinos é evitada. Não porque haja, de fato, um raciocínio sobre a ética e as justificativas desses valores. Mas apenas pela pressão social exercida, desde a nossa infância, que nos atemoriza sob a possibilidade de não ganhar presentes no final do ano.

mitosAlguns mitos são inofensivos, outros não.

É por isso que, às vezes, tenho pequenas discussões com amigos próximos. Eles insistem em dizer que algumas condutas minhas são desnecessárias. Tenho um amigo que fala que pendurar as meias de Natal é retrógrado, que é um hábito há muito tempo já desmistificado. Mas sou obrigado a dizer que não posso voltar atrás nas minhas crenças. Porque a minha criação diz que pendurar as meias de Natal é um dos pré-requisitos para que toda a magia natalina ocorra. Eu não posso correr o risco de perder meus presentes.

Como nosso senso de irmandade é muito forte dentro do período de Natal, e como cada um de nós sente-se pessoalmente identificado com a causa, vestimos a camisa e buscamos representação política. Não apenas isso. Acreditamos que o Natal fez tão bem para nós que ele deve ser passado adiante. Como não consigo enxergar um mundo sem Papai Noel, acho que todo o mundo deve acreditar nele.

Algumas pessoas me consideram radical. Acham que não devo querer expandir o Natal para além do 25 de dezembro. Mas, eu me pergunto, depois de tudo isso que eu falei, vocês não concordam que todo dia deveria ser Natal? De que se todas as pessoas acreditassem no Papai Noel viveríamos uma única irmandade, trocaríamos presentes, imagine! Um amigo secreto globalizado.

SantaJesus02paidPapai Noel e algum desconhecido apostando quebra de braços. Provavelmente um fã com uma ideia inusitada para a foto.

Pode parecer utopia, mas eu realmente espero que isso um dia aconteça. Acho que se todos realmente temessem perder seus presentes de Natal, não existiria mais crime. Todos seríamos felizes.

Um post sobre segurança na internet (para ser lido em uma voz-interior paternal e conselheira)

Olha, eu realmente sentia que deveria jogar no fogo naquele pedaço de papel verde que está jogado em algum canto da casa, caso eu não escrevesse esse post. Se aquilo (o RG, para os que não pegaram a metáfora) é a documentação física da nossa cidadania (ou seria o título de eleitor? ou os comprovantes de votação? quem saberá?), acho que me abster de escrever esse post me forçaria a tacar fogo nela.

O recado é bastante simples: tome cuidado com seus dados pela internet. Em recentes incursões, descobri que é bastante fácil, com o auxílio do Google e de um pouco de lógica, angariar não apenas dados levianos, mas coisas que poderiam ser bastante prejudiciais se usadas por alguém mal intencionado. Esse post é mais para repensarmos algumas situações que nos deixam bastante expostos, então vamos lá:

A maldita TeleListas.net é um ótimo ponto de partida. Esse site é um compêndio de dados que incluem seu telefone e seu endereço. Acredite, eu faria o mínimo de esforço de, se seus dados estiverem por lá, entrar em contato por aqui para pedir a exclusão. Entretanto, se você foi atento o suficiente para ler o rodapé, saberá que esse esforço pode ser em vão. Isso porque a maldita lista é atualizada automaticamente e seus dados podem ser reincluidos. Para a exclusão definitiva, é claro, é preciso ter mais dor de cabeça.

Esse é o momento em que parece dúbio se realmente vale a pena se preocupar com isso. Acontece que esses dados podem ser um ponto de partida valioso. Gente com sobrenome peculiar, como eu, costuma ser bizarramente fácil de encontrar, tanto em redes sociais, como em qualquer busca simples. Não sei quanto a vocês, mas apenas o fato de que alguém pode ter fácil acesso ao endereço da minha casa já me parece uma justificativa bastante plausível.

outro-estranho-no-ninho11Essa é a metáfora imagética para ter um sobrenome peculiar

De posse de um nome e de um endereço, qualquer um pode fazer uma ligação e se passar por uma empresa de qualquer coisa pedindo uma confirmação de dados. Pode parecer bobo, mas a maioria de nós nem sequer atentaria para a possibilidade de ser um golpe. Parece incrivelmente óbvio agora, porém tente realmente se imaginar em casa, quando o telefone toca.

A pessoa informa que é da empresa X, provavelmente uma que realiza tratamento de água ou fornecimento de energia elétrica na cidade (visto que há grandes chances de você ser cliente dela), informa seu nome completo, seu endereço e pede seu RG e o CPF. É complicado, mas sem nenhum aviso prévio, não há razões para desconfiar.

Tudo bem, imaginemos que você não caia no golpe do recadastramento. Faça uma busca pelo seu nome completo pelo Google, usando aspas. Pode ser que nada retorne, mas há alguns resultados potencialmente perigosos. Processos judiciários, em alguns casos, são indexados pelo Google. E adivinhe: um desses costumes da nossa justiça é se referir às partes do processo como “brasileiro, branco, 43 anos, portador do RG tal, viúvo, vendedor de cachorro quente”.

Agora olha que interessante: com um pouco mais de paciência, ou sorte, seu stalker pode descobrir que você prestou algum concurso público ou vestibular. O bizarro site da UEM divulgou a lista de todo mundo que prestou vestibular. Com as notas. Tá lá. Em um dos listões da ACAFE, como se esse vestibular não fosse bizonho o suficiente, estavam lá os RGs da rapazeada. Infelizmente não consegui achar o link, mas estou praticamente certo de que estava lá.

Não parece preocupante? Pois imagine a seguinte situação: eu descubro o endereço e telefone de uma senhora com um distinto sobrenome. Depois, descubro, acessando um Facebook da vida, que a donairosa mulher tem uma filha. Pasmém! Em idade vestibulável. Um Google no nome da menina revela o RG da garota, que passou em um vestibular há algum tempo. Seu Facebook, porém, revela que ela continua fazendo cursinho. Hmm, será que Pedagogia não era o sonho dela?

Pelo que parece, não. Afinal, todos os posts públicos do perfil da menina falam sobre “Medicina da Depressão”. Vestibulanda de Medicina, então. Provavelmente passa o dia fora, estudando. Isso ou não vai nem tangenciar a nota de corte. Ligar em horário comercial é um potencial indício de que a menina vai estar na rua. E mais: sabendo onde fica o cursinho, dá a dica dos lugares frequentados pela menina.

E para que tudo isso? Basta um telefonema para a nossa mamãe, com um tom ameaçador e algumas gírias indecorosas para deixá-la assustada. Jogar dados como o RG ou falar que “pegou a menina saindo do cursinho e levou embora no carro”, em um estado de choque gerado por um anúncio de sequestro via telefone, faria qualquer pessoa se aterrorizar. Falar que a menina está implorando para não ser morta porque não quer perder o sonho de ser médica faria o mais racional dos pais molhar as calças.

I+don+t+know+who+you+are.+I+don+t+know+what+_b40790232cf1ab8b3e4303946a342135“Nóis tá com teu filho. Tá feio pra caralho nesse RG aqui. Precisa que fale o número da fita ou cê vai depositar logo a grana? Tá chorando igual mocinha aqui. Olha que eu corto a orelha dele. Heim. Vai ficá igual ao Van Gogh tirando a parte de ser um pintor de tendências impressionistas de sucesso póstumo porque ele vai tar morto bem antes disso. Morô?”

É fácil analisar todos os pontos furados dessa história na frieza de uma cadeira desconfortável, com um calor desanimador e o tédio corroendo. Eu fico imaginando se o racionalismo funciona tão bem sob a ameaça da morte de um filho. A quantidade de dados que podem ser retirados de maneira, até onde eu saiba, completamente legal, apenas fuçando sites de busca e de relacionamentos é infindável.

Acompanhar qualquer Twitter ou Facebook público faz você saber coisas tão pessoais sobre o usuário, que apenas alguém muito próximo teria conhecimento. As pessoas enxergam o computador como uma extensão da própria rede de amizades, o que é verdade, mas sem atentar à exposição pública. É particularmente conveniente que eu faça esse post, porque o Facebook acabou de promover modificações que facilitam, e muito, um maior controle acerca do que se expõe na rede social.

O @acabei pode ser testemunha de que mesmo com um nome comum é possível encontrar coisas como um vídeo em que ele toca triângulo em um evento de escola maravilhoso. Imagine se a pior coisa que pudessem encontrar de você não fosse um ingênuo e inocente episódio de solo de idiofone triangular, mas coisas… piores.

Isso foi, em parte, motivado por uma reflexão que acabou me acometendo. Eu, que sempre fui partidário da ideia de exposição máxima, de que a configuração “Público” do Facebook era algo incentivável, estou revendo esses conceitos. Porque de certa forma as coisas estão ficando perigosas. Eu não me refiro apenas a ameaças de sequestro. Há toda uma sorte de possibilidades que envolvem uso de dados pessoais.

E há uma razão para que esses dados recebam esse adjetivo. Foi-se o tempo em que o pessoal se cadastrava no Orkut com e-mail que não existia e a rapazeada ia lá, criava o e-mail, e roubava a conta da pessoa. Hoje, qualquer pessoa com tempo livre e um pouco de raciocínio lógico consegue descobrir coisas que poderiam ser empregadas a fins mais obscuros do que atualizações de status que dizem “eu sou gay”.

142998488Melhor deletar a conta do Flogão, não é verdade?

Acho que é tempo de fazer uma busca por seus nicks antigos, dar um jeito de deletar aqueles Flogões e fazer algumas alterações no perfil do Facebook. Pode ser que isso salve sua vida. Espero que você tenha usado uma voz mental, para ler esse post, que soasse como a voz de um ancião transmitindo um conselho valiosíssimo. Porque tirando a parte do ancião, a outra também é mentira.

Legalização do aborto e instituição da pena de morte

Eu iria abordar todos os temas polêmicos de uma só vez. Mas me deu uma preguiça e, por enquanto, vão só esses. Depois ainda virão maconha, cotas e aqueles mesmos assuntos de sempre. O post é incrivelmente longo. Tenha calma, respire fundo, eu sei que você não vai ler.

Legalização do aborto
Os argumentos que sustentam a proibição são, na maioria, morais. São poucos os que atravessam a linha da moralidade e se tornam argumentos judiciários, biológicos ou mesmo éticos. Isso acontece, por exemplo, na situação do casamento homoafetivo, por razões históricas e culturais explícitas.

Isso põe o assunto em uma região muito sensível, que causa essa polêmica. A moral é excessivamente ligada à ideia de comunidade. Ela é um conjunto de valores adotados por um grupo restrito de pessoas. É por isso que assuntos nos quais legisla a moral (no caso do aborto, impera a judaico-cristã) ficam embaçados quando se fala de leis.

a_fazendaNessa comunidade, por exemplo, impera a moral do cultismo. Eles só discutem sobre temas puros que contemplam a essência humana!

Porque a moral contradiz a universalidade que a lei pede. Mesmo que seja universal dentro de um país, a lei deve se fundamentar em um princípio ético. A palavra ética contém em si, além da ideia de código de costumes, a relação entre as vontades individuais e a coletividade. É preciso, desse modo, que os argumentos anti-aborto, para início de conversa, secularizem-se, para que haja qualquer possibilidade de debate.

Só que isso é complicado. As maiores premissas que justificam a não-legalidade do aborto são morais. Complica a total subjetividade na concepção do início da vida. Porque, dependendo da ótica utilizada, é possível sustentar, inclusive, a hipótese da vida nem existir. Uma vez que esses pontos são áreas cinzas, em que dificilmente haverá algum avanço, é preciso analisar a questão por aspectos mais tangíveis.

O que deve ser visto são as implicações práticas da legalização do aborto, que, pasmém, resumem-se à ocorrência de abortos legalizados. A moral judaico-cristã não é impedida pela legalização de uma prática abortiva. Legislar sobre o aborto não é institucionalizá-lo. A consequência mais imediata à legalização do aborto é a utilização desse mecanismo pelas mulheres que assim desejarem.

 

À esquerda: cristãos antes da legalização do aborto.
À direita: cristãos após a legalização do aborto.

O problema é que não existe lixeira dentro da maior parte das religiões derivadas do eixo judaico-cristão. Isso porque é necessária, para a manutenção da hierarquia e da ordem, a outorga de um código de costumes que, independente de refutações, é imutável. É essa a beleza da religião. Ela te oferece verdades eternas e isso se prolonga da origem da vida até o código de costumes.

Não é sem motivos que, mesmo sob provas cabais do bom senso, a Igreja Católica, por exemplo, mantém sua posição contra o uso de preservativos. Aliás, segundo Bento 16, é até aceitável em caso de prostituição. Isso demonstra que, apesar de grande parte dos fiéis não se mostrar radicalmente contrários ao uso de camisinha, a Igreja precisa manter sua posição, sob risco de ter outros dogmas questionados.

Então por que o aborto é combatido de maneira tão violenta por parte da parcela religiosa da população? Talvez estes dados acabem por confundir ainda mais. Na verdade isso é explicado pelo fato de que o que impera nessa discussão é a moral. Ela tem umas nuances esquisitas. Justamente por valer para um grupo restrito de pessoas, para se identificar como cristão você deve aceitar a moral cristã. Se a postura da Igreja Católica é a de manutenção total da demonização do aborto, ser cristão é compactuar com esse e todos os outros dogmas morais da cristandade.

É diferente de seguir a ética legislativa, por exemplo. Você pode fumar ou não, sofrendo as consequências disso mas sabendo que sua relação indivíduo x coletividade está sendo respeitada. Por mais que se incomodem com o seu vício, o máximo que poderiam te fazer seria pedir para você não fumar enquanto estiverem por perto. Isso não acontece com a moral.

Se você fez um aborto, uma escolha que, apesar de infringir a lei vigente, mantém a sua relação indivíduo x coletividade impecável. Quer dizer, até a coletividade em questão ser uma comunidade moral. Isso porque, assumindo que você faz parte dela, acabou de infringir o código de conduta ao qual você foi submetida. Convenhamos que não há muita escolha quando você gosta da religião católica, mas discorda pontualmente. É um pacote completo, o “ser católico”. Por isso, não seria estranho que a população que endossa o antiabortismo tenha, em si, representantes favoráveis ao direito da escolha.

E esse é um ponto crucial, principalmente para quem enche a boca para gritar contra o aborto. Você deveria poder ser favorável ao direito da escolha e ser contrário ao aborto. Isso, aliás, é explicado de uma maneira infinitamente mais garbosa neste maravilhoso sítio eletrônico (hahaha). Defender um direito ético à escolha não te impede de exercer e viver sob a égide da moral judaico-cristã.

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“Olha lá! Tá vendo? Eu disse que existiam católicos sensatos!”

Outra dificuldade para o aborto é a ideia tenebrosa de que há qualquer ensinamento a ser transmitido por uma gravidez indesejada. Imagine Marcela, que acabou de passar em Odontologia, em segundo lugar, mas ela nem havia estudado muito. Ela teve pleno acesso à educação formal e sabe tudo sobre os métodos contraceptivos. Mas, numa das noites de comemoração pelo vestibular, conheceu um rapaz donairoso e, como era sua primeira vez, acabou esquecendo do preservativo.

Simplesmente estava tão nervosa que não atentou aos fatos. Foi inconsequente? Claro que sim. Isso é motivo para que ela tenha um filho que, para sempre, vai lembrá-la de como ela foi irresponsável? E digamos que ela não tenha jogo de cintura, afinal ela não teve maturidade nem para exigir a camisinha, para criar o filho e manter a universidade. É justo que essa garota simplesmente perca a oportunidade de cursar o ensino superior por uma burrada?

É fácil dizer “bem feito” quando o tropeço é dado por uma pessoa distante. Vá diminuindo a distância de Marcela, imaginando-a como uma prima, uma irmã, até imaginar que é você ou a sua namorada. Aí as coisas mudam bastante de figura. Como o maravilhoso intelectual que só argumenta com ditados populares diria, “pimenta no dos outros é refresco”.

marcelaÉ Marcela, em vez de estar fazendo obturações, você vai estar trocando fraldas.

Filhos em hipótese nenhuma devem ser encarados como uma “punição justa”. Esse é o tipo de pensamento medíocre que chega a subestimar a vida. A criatura argumenta que um ovócito secundário recém-fecundado é vida, mas encara uma criança que vomita e faz birra como uma “punição justa”. Além disso, não é preciso nem citar as implicações de segurança que o aborto legalizado e legislado traria para mulheres que se arriscam atualmente.

Não cabe também o discurso distorcido e moralista de que isso potencializaria a promiscuidade. Ah, é. A única razão pela qual as pessoas fazem sexo de maneira ordenada é porque há a possibilidade de ter filhos. É a mesma lógica tortuosa que diria que usando a pílula do dia seguinte não há razão para usar camisinha. Parece que o aborto seria tratado com a trivialidade de usar um comprimido para dores de cabeça.

A banalização do sexo só vem com a vulgarização. E isso não tem nada a ver com conhecimento. Ter aulas de educação sexual é totalmente frio e você não sente, em momento nenhum, a vontade de sair procriando. A terminologia biológica é suficientemente sem graça para que o foco seja todo no entendimento. Se você realmente quer saber o que gera promiscuidade, por que não dá uma olhada para a sua televisão que, pasmém, ocupa o centro da sala.

Esse objeto, que acaba por deixar a bíblia aberta em segundo plano, é sim um transmissor de banalização do sexo. E mais: objetificação da mulher em cada um dos comerciais de cerveja. E além disso: incute os ideais de conformismo feminino e submissão em cada desenho sem sal de princesas, voltadas às meninas e ideais de ferocidade competitiva aos meninos.

Tudo isso ricamente ilustrado em cores fortes e vibrantes. Entremeados de comerciais que vendem tudo aquilo que eu citei a preços exorbitantes. E se você acha ruim que seu filho tenha aulas de educação sexual, trata o assunto como um demônio de nove patas (essa é a opinião que você, na verdade, aceitou como verdadeira – quem disse foi o seu pastor: “sexo é coisa do inimigo”), se você acha que não deve conversar abertamente com o seu filho sobre sexo, relaxe.

Relaxe porque com certeza os amigos mais velhos dele vão ser ótimos professores. Mas não pense que eles vão ter o cuidado de se expressar na fria terminologia biológica que fala sobre pelos pubianos e pudendo. Pior do que isso, talvez o seu filho esteja, agora mesmo, descobrindo isso com requintes de crueldade em sites com fetiches que você nem imaginava possíveis.

amigos

Estranho que esses amigos do seu filho são tão familiares

Então, por favor, repensem todas as questões que envolvem o aborto. Procurem separar os argumentos morais dos éticos, porque a moral é válida apenas para uma comunidade. Tente ver que as implicações da legalização do aborto podem não ser nada além de… abortos. Por pessoas que estão decidindo por isso. Você, católico fervoroso, pode lavar as suas mãos com a benção de deus. Porque, eu francamente não entendo sua lógica, mas tenho certeza que um deus onisciente iria entender que você não tem culpa se outras pessoas simplesmente não querem participar do mesmo clube que o seu.

E mais do que isso, talvez esse deus entenda o suficiente (ops, com certeza ele entende) sobre as estruturas de poder legislativo, de modo que compreenda que é preciso adotar padrões com o objetivo de serem universais. A legalização do aborto, antes do que uma discussão sobre o início da vida (afinal, nem temos um consenso se vírus são seres vivos ou não), é uma discussão sobre impactos. Sejam eles econômicos, sejam eles sociais, sejam eles quais forem.

E, francamente, depois de toda essa reflexão está muito claro que o único impacto que a legalização do aborto geraria seria a execução de abortos por parte daqueles que assim desejarem, de maneira segura e amparada pela lei. Não haverá a institucionalização do aborto, não haverá grávidas sendo forçadas ao aborto, não haverá nada que justifique que uma parcela restrita (ainda que majoritária) da população se oponha a um direito amplo.

A instituição da pena de morte
É estranho como as polêmicas se avizinham. Enquanto a problemática com o aborto conversa com a confusão com o casamento homoafetivo, a instituição da pena de morte divide alguns pontos em comum com as cotas universitárias. Ambas são respostas paliativas para problemas sociais já historicamente conhecidos. E surgem como duas alternativas que, a princípio, são rápidas e fáceis, mas atacam a consequência e não a causa.

Essa dificuldade em separar consequência e causa é clássico sintoma de uma análise fragmentada e uma das principais causas é a deglutição de uma única fonte de informação. Pegue, por exemplo, o sujeito que só assiste ao glorioso Datena. A análise que esse cara fizer, provavelmente em uma discussão de boteco, irá colher seus argumentos de uma única fonte.

venha“Há de se entender, Comandante Hamilton, que o homem não é uma simples dicotomia. Eu ousaria dizer, inclusive, que o espectro da bondade humana se assemelha muito mais a um gradiente, que varia tom a tom, dependendo de inúmeras circunstâncias. Tome um minuto do seu voo no Águia II para ponderar sobre essas questões da existência humana”.

E o pior é que esse tio do boteco tem uma justificativa. A programação da televisão é realmente imposta sobre ele. Claro, ele, em teoria, possui livre-arbítrio suficiente para abandonar a sessão derretimento de cérebro, mas não há liberdade na escolha efetiva do que ele irá assistir. Já você passa o dia lendo manifesto de Facebook e dando share no vídeo sobre Belo Monte, enquanto passarinhos gorgeiam alegres e soltos fora da caverna na qual você se acorrenta.

Uma mídia massificada que estampa o ladrão, ou assassino ou golpista, o tempo inteiro, não poderia gerar uma opinião diferente nas pessoas que a consomem de maneira exclusiva. Após uma enxurrada de imagens chocantes, é muito simples personificar a perversidade humana na figura do bandido.

E é claro que tudo isso é entremeado de situações nas quais a bondade humana floresce como a flor do lixão dos Racionais. Quando a televisão mostra o filho que mutilou a vó e jogou os pedaços aos cachorros, cria-se a personificação do capeta na figura do bandido. Quando a televisão mostra o mendigo que devolveu o troco da esmola, tem-se aí a prova de que o mundo tem jeito. E o que isso gera?

Uma sobrevalorização da honestidade. A inversão de valores é tão ferrenha, que parece que ser honesto é algo sobrenatural. Aí o brasileiro médio, da classe média, estudou até o ensino médio, estatura média, olha para a própria vida média e fala: “bandido não deveria torrar o meu dinheiro na cadeia, deveria morrer”. E tudo parece incrivelmente justificado. A única coisa que parece valer na vida desse cidadão médio é de que ele foi “honesto”.

Com uma televisão que diz que os bandidos são uma merda e diz que ser honesto “é raro hoje em dia“, cria-se a atmosfera perfeita para que esse mesmo brasileiro médio se ache no direito de dizer que bandido tem de morrer. Afinal, se esse brasileiro honesto só merece uma vida média, por que um bandido deve merecer sequer uma vida?

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Ser honesto, hoje em dia, é mais difícil do que ser engraçado.

E é sob essa lógica tortuosa que se estrutura uma das maiores e mais estúpidas concepções de justiça possíveis. A ideia é tão errada que eu não consigo nem decidir por onde começar. A primeira delas: para que pena de morte?

Um dos argumentos mais prontos é a de que se gasta muito dinheiro com o preso. Verdade, chegando a exorbitantes R$ 4,8 mil por mês por detento em um presídio federal. Não é por nada. Daria para pagar uma faculdade de Medicina para cada um desses presos. Ou melhor, para “quem realmente merece”, não é mesmo? Analisar o homem como um mero produto do meio soa simplório, mas é preciso entender que as coisas são simplórias no meio em que essas pessoas vivem. Dê uma olhada na triste ironia da charge:

chargeangeli dúvida adolescentes tráfico

Eu odeio apelar para o determinismo, mas vocês já experimentaram tentar contrariar o fluxo de uma grande quantidade de pessoas? Imagine esquecer seu celular no banco do cinema, porque você quis ser um dos primeiros a sair, para evitar filas no banheiro. Imagine tentar voltar para recuperar o celular.

Isso não é garantia de que todo menino de favela vai morrer antes de crescer, por causa do tráfico, mas dá noção à grandeza do problema. É fácil refrear sua vontade de roubar um celular quando você tem pleno acesso aos meios legais de ter um. Chega a ser ridículo que você se orgulhe de uma honestidade que nunca foi realmente posta à prova. E o pior de tudo é que eu, escola particular, notebook e eletrônicos à disposição, já me peguei querendo possuir coisas ilegalmente.

Tudo isso porque somos bombardeados intensamente e por todos os lugares possíveis com a ideia de que temos que ter. Dá uma olhada nestes dados e sente o drama. 97,2% dos lares brasileiros têm televisão a cores. Enquanto, acredite nisso, menos do que isso (96,1%) têm geladeiras. É simplesmente bizonho. Então imagine que quase a totalidade da população brasileira é atingida pelo mesmo tipo de propaganda que faz a cabeça de quem tem acesso ao ensino formal de qualidade. Imagine o que isso gera em quem não tem esse acesso. Se você quer manifestar seu crédito à honestidade, não bajule a sua própria. Elogie aqueles que realmente refrearam desejos muito maiores que os seus.

famlia na tv“Mas que droga pessoal, justo agora que iria ter um programa de auditório sobre o papel do existencialismo em uma abordagem diferencial dos meios de controle midiático? O que faremos agora, família? Seremos obrigados a deglutir aquele conteúdo massificado que está nos livros?”

Essa não é uma tentativa de eximir a culpabilidade individual, porque ela realmente existe. É apenas uma busca por mostrar que as coisas não são tão simples assim. Seria perfeitamente justo instituir a pena de morte se a culpabilidade fosse total, mas ela não é. Logo, é perfeitamente justo que o estado arque com a criminalidade, porque ele tem, sim, uma parcela de culpa.

No entanto, não significa que os valores que eu citei acima são os valores corretos. Para áreas cinzas como essa, existe o código de leis que está sujeito a falhas e a interpretações errôneas. Se você já tem problemas como condenações indevidas, pessoas indevidamente absolvidas, e toda uma sorte de brechas legais, você realmente acha inteligente colocar a responsabilidade, não mais sobre a decisão de alguns anos de cadeia, mas de uma vida nas mãos do poder judiciário?

E, pasmém, a pena de morte não funciona nem como inibidora da criminalidade. Isso é o que algumas pesquisas, como a citada, sugerem, contrariando a sempre usada imagem de alguns estados dos EUA como exemplos a serem seguidos. É a mesmíssima situação das cotas, você tem um problema social e dá um jeito de mascarar a consequência dele.

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Sessões de Família Dinossauro aos presos: inibem ou estimulam o crime?

É a típica postura demagógica de alguns governantes. Porque há, sim, interesse por parte do povo em ver a execução desses presos. Há interesse porque o brasileiro médio depõe no bandido toda a sua frustração. O sangue dos “injustos” é o regozijo dos “justos”. Mas, a partir do momento em que você endossa uma postura desse tipo, qual é o tamanho da sua justiça?

Francamente, nosso senso de honestidade só existe porque ele é útil. Se não fôssemos justos, honestos, seria muito improvável que nossa sociedade atingisse o grau de organização que tem hoje (desorganização?). A despeito da onipresença de traições em todas as histórias da humanidade, a verdade é que a desonestidade cria anarquismo. Porque, em todas as eras, o desonesto foi um outsider. Tente conceber uma organização humana onde os desejos individuais se sobreponham à coletividade. Não é compatível.

A força do ser humano, força de sobrevivência, só advém da nossa capacidade em se transformar em um organismo coletivo, muito mais forte. É idiota querer sair por aí em busca da independência. O seu Ari já dizia: “o homem é um ser social”. E se é social, é pressuposto que essa sociedade se constitua da maneira mais harmônica possível.

Então, não é uma espécie de crença na bondade universalizante do ser humano. É apenas dissociar a ideia de que a primeira escolha de todo bandido foi o crime. Provavelmente não foi.

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“O que você quer ser quando crescer? Astronauta, jogador de fute…”  “Bandido!”

Além disso, é engraçado que o mesmo cara que enche a boca para defender a pena de morte, quando o assunto acaba, dá uns tragos na cerveja choca e põe o assunto política na roda. E malha o pau na impunidade dos corruptos. Oh, oh. Supõe esse cara o quê? Que o sistema se tornará menos passível de erros? Ou que os percalços seriam toleráveis para o “bem maior” que a pena de morte traria?

Ora, eu passei as últimas mil e trezentas palavras defendendo que a pena de morte não tem nenhum “bem maior” e que ela é apenas uma solução equivocada. Desse modo, pensar que, ainda por cima, certamente iriam ocorrer injustiças é, no mínimo, um ótimo argumento contrário a ela. Eu já fui completamente favorável à pena de morte, mas hoje ela soa como uma estupidez. Não se trata de mero apelo aos direitos humanos, até porque acho que há casos em que o criminoso iria preferir ser morto a viver as consequências de seus atos.

Uma vez que eu não acredito em qualquer julgamento post-mortem, seria previsível que eu prefira que haja uma justiça em vida. O extremismo quanto à pena de morte é particularmente comum em sites como o Isso é Bizarro, nos quais o gore come solto, o que me leva a crer que é antes de tudo uma postura de choque. O sujeito olha a “maldade humana” em seu estado puro e não atenta às motivações que levaram a isso.

Casos como os moleques de Dnepropetrovsk, e alguns outros sucitam todo um universo problemático, como se não fosse suficiente a dificuldade em lidar com criminosos “normais” (com o perdão da ironia). Qualquer um que viu aquele vídeo tem a certeza absoluta de que um psicopata, embora eu ache a palavra tão gasta e distorcida pela mídia que deveria ser substituída, não pode receber o mesmo tratamento que um preso comum.

Ainda engatinhamos na capacidade de determinar corretamente o que é psicopatia e quais são suas causas, mas em algumas situações, em que o impulso é totalmente canalizado a algum crime, não há muitas possibilidades. Seria aí uma justificativa para a pena de morte? Ainda acho que não. Porque não temos conhecimento suficiente para orientar esse tipo de decisão.

Ainda não são compreendidas todas as influências do meio sobre um psicopata, as causas fisiológicas e não se tem certeza se ele pode responder pelos seus atos da mesma maneira como assumimos que as pessoas “normais” o façam. Sob essa zona cinza, prefiro não opinar. Mas se houvesse embasamento suficiente, ainda assim relutaria muito a aceitar a pena de morte como uma solução.

A ideia de qualquer doença ou desordem, seja ela mental ou não, é a de que qualquer desvio na funcionalidade normal deve tentar ser corrigida. Pena de morte para psicopatas é quase o mesmo que recusar o Protocolo de Milwaukee a um paciente com raiva. Mesmo que a ciência determinasse que a reincidência para um psicopata fosse quase garantida, isso não deveria ser justificativa para tentar reverter esse quadro.

honesto

“Olha pessoal, vou ser bem honesto: a morte para os bandidos é apenas uma solução paliativa. Afinal de contas, a violência e o tráfico são análogos a uma planta, não adianta cortar os ramos ou o caule. Há de se podar as raízes”.

Portanto, eu tenho a nítida impressão de que a pena de morte tenta apenas saciar o imediatismo da maioria das pessoas. Parece que banhar o chão de sangue vai resolver o problema. Às vezes, as pessoas até sabem disso. Mas bem que querem o espetáculo. Parece que ser honesto é tão difícil e requer tanta força de vontade, que aqueles que são honestos merecem regozijar diante da morte dos que “submergem ao crime”.

É mais fácil canalizar todo o mal do mundo em uma imagem, a do bandido. E depois matar essa imagem, como se isso fosse o expurgar definitivo da maldade. Mas a experiência de outros países (ou um exercício de bom senso) deixa claro que enquanto as causas se mantiverem, as consequências vão sendo substituídas, uma a uma, injeção letal após injeção letal.

Por enquanto, é isso.