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Livros de inverno e literatura “de verdade”

Eu corro dois riscos escrevendo esse post. O primeiro é o de soar repetitivo. Afinal, tenho a impressão de que já discorri diretamente sobre o tema em pelo menos dois posts e indiretamente em outros tantos. O segundo risco é o de ser um tempo gasto inutilmente. No entanto, eu venho remoendo o assunto há mais de nove horas, desde que li esse artigo.

Dando vazão a minha insônia, aqui estou eu. E a única impressão que tenho sobre o artigo (se você não o leu, leia, talvez discorde de mim, o que seria ótimo) é que é pura dor de cotovelo. Imagino o diálogo interior travado pelo autor do texto. “Porra, aquela merda tá vendendo milhões”. “Qualquer um podia ter escrito aquilo lá”. “Não acredito que 50 Tons divide estante com Machado de Assis, indulgentemente relegado às traças e a edições meia boca”.

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“Ora, é claro que tu podes tirar um retrato, porém tu precisas ser rápido visto que a sessão de autógrafos com o gênio que escreveu esse livro já está para acabar”

Imagino que o juízo que Hatoum faz acerca de suas próprias obras não seja ruim. Mas ele prefere citar a literatura universal, numa espécie de tentativa de transmitir impessoalidade. Eu concordo que Graciliano Ramos tem uma técnica que ainda é muito superior à que Stephenie Meyer provou. É verdade que suas reflexões são muito mais profundas e mesmo o contexto histórico e a vida do autor poderiam ser argumentos que justificariam uma balança de qualidade pendendo para o lado dele.

Porém, isso não dá credibilidade a Milton Hatoum ou a qualquer pessoa para colocar o dedo indicador na sua posição predileta e rotular uma como melhor que a outra. Eu não entendo a incapacidade dessa corja intelectualizada em conciliação. Parece que não é possível haver um mundo no qual pessoas se divirtam com vampiros fluorescentes (a maioria delas em um processo de amadurecimento, que justifica completamente sua predileção por uma coisa mais simples) e outras que gostem de sofrer com a realidade seca das palavras de Graciliano Ramos.

Entretenimento e seriedade não são mutuamente exclusivos. O que justamente dá a Machado de Assis a sua genialidade é a capacidade que ele teve de traçar um perfil crítico da sociedade de sua época e a tornar até mesmo engraçada, sob as ironias que ele constrói. A literatura e, sobre ela, a arte fornecem um campo que pode ser preenchido de qualquer maneira. E isso a faz especial.

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“Aula de matemática básica pessoal! É possível somar as coisas. Literatura pode entreter e informar. Pode divertir e criar senso crítico. Pode até ser erótica! Ou melhor, pode ser, ao mesmo tempo, tudo isso e ainda mais. Mas não há nada de errado se ela for apenas um desses”

A leitura é uma forma de entretenimento. Subjugar a literatura de entretenimento é o mesmo que arrancar um braço de um polvo. Você provavelmente vai poder contar para os seus amigos (ou escrever sobre isso no Estadão), mas na verdade nem você nem o polvo vão lucrar. Atacar a literatura prazerosa e despreocupada é subtrair funções da literatura. É diminui-la.

Na tentativa de compreender as motivações que levaram Hatoum a atacar a literatura de entretenimento, só me vem a imagem da dor de cotovelo. Talvez, naquele mesmo diálogo interior, ele foi confrontado com uma voz acusadora, que dizia “Então por que não fez?”. Não, ele não poderia baixar o nível, afinal, supostamente a literatura de verdade deve englobar as características que definem as obras citadas aos caminhões naquele texto.

Mas eu te digo algo. Talvez a literatura de entretenimento seja a mais importante de todas. Quando sair uma biografia do Hatoum, eu provavelmente vou querer comprar, porque ao que parece ele lia Schopenhauer no ventre materno. Se ainda lhe parece justificável rotular as coisas dessa maneira, os livros de verão são um belo portal para uma posterior imersão na literatura “de verdade”. Eu fico imaginando se Hatoum definiria sua própria obra como livros de verão ou literatura “de verdade”. Creio que ele argumente que o tempo se encarregará de provar o que é essa tal de literatura de verdade.

Note que, no título, ele tomou o cuidado de se referir à suposta “baixa literatura” apenas por “livros”. Livros são entidades físicas, terrenas. Já a literatura é algo metafísico, transcedental e por assim vai. Isso, somado à aproximação bisonha da literatura à solidão trazem a imagem de um menino fazendo birra. “Vocês não gostam da minha literatura porque não a entendem”. “Sou bom demais para essa gente”. O gênio incompreendido.

A literatura tem sim um quê de solidão, mas não era desse sentimento que Hatoum estava falando. Escritor, ele usou um eufemismo bastante oportuno. Isso porque a palavra “elitizada” soa um pouco mal. Mas é exatamente isso que Hatoum endossa quando parafraseia algum qualquer para dizer que literatura “de verdade” é para poucos. Nota-se que ele pouco se difere dos hipsters e indies, que regozijam fazer parte de uma minoria risível, apenas por ser uma minoria. É a ideia de exclusividade.

Foi a partir de livros infantis, muitos deles com função única de entretenimento que eu me formei como um leitor. Se eu nascesse um pouco mais tarde, teria sido um leitor de Crepúsculo. Sim, Milton Hatoum, espante-se com isso.. Leitores de Cinquenta Tons de Cinza. Leitores. É impossível que o exercício de ler 480 páginas seja nulo. Mesmo que ele aumente o vocabulário de seu leitor em uma única palavra, foi um exercício pouco rentável, mas ela existiu. Não o estou atacando pessoalmente, é uma observação extremamente fortuita: quando li Dois Irmãos do Hatoum, não me senti nem um pouco intimidado, nem um pouco abismado, nem um pouco “leitor de literatura de verdade”.

É aliás, com grande supresa que notei quem escrevia. Se fosse alguém escondido pelo anonimato, tudo bem, era justificável. Mas me admira que ele tenha elencado tantos autores consagrados quando não encontrei vários dos elementos que configuram, segundo ele, a literatura “de verdade” no romance do próprio Hatoum. Mesmo assim, se me perguntassem, hoje, se valeria a pena gastar tempo lendo o livro, eu diria que sim.  Se me perguntassem sobre qualquer livro. Eu diria sim.

Porque não há tempo perdido lendo um livro ou assistindo a um filme. Não há tempo perdido com arte ou cultura. Pois mesmo que ele seja de todos o que menos gostamos (sejam lá quais razões), ainda poderemos fazer como fez o senhor do artigo e colocar nossos neurônios para dissertarem. Mesmo que nossos cérebros derretam enquanto assistimos Big Brother, analisá-lo por uma perspectiva sociológica, por exemplo, certamente seria um exercício produtivo. Aliás, esse tema não encerra por aqui, porque vocês com certeza vão prestigiar uma apologia ao Big Brother Brasil.

Porque há algo muito importante sobre o nosso momento literário e artístico. E ele é tão incrível que acaba influenciando na forma com que lemos literatura de outros tempos e épocas. É a morte definitiva do autor. É a consagração da arte como domínio público a partir do momento em que ela é criada, afinal, ela nem ao menos precisa ser divulgada mais. O acesso é vertiginoso, instantâneo e generalizado. Hatoum sugere uma volta ao medievo, na qual umas dúzias de pessoas detinham a cultura do mundo inteiro.

A contemporaneidade dá ao leitor, telespectador ou seja lá qual for o receptor a capacidade de ampliação de sentido, de construção de significado, de maximização. O leitor muitas vezes é capaz de tornar uma obra muito mais valiosa do que ela era inicialmente. E esse é o problema de Hatoum. Ele ataca a obra, como se ela contivesse um mal. A obra é apenas um esqueleto do que ela pode ser.

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Milton Hatoum, aos dois anos, lendo um livro do Sartre. Ele diz que entendeu tudo!

A evocação de outras realidades deixa claro que ele sabe que não é bem assim. Que a educação tornaria maior o interesse por leituras mais complexas, mas como julgar um texto que tem um único parágrafo que parece apontar para isso? Hatoum sabe que é o leitor que dá dimensão à obra. Isso seria, de fato, solucionado por uma melhor educação. Mas será que é isso o que ele realmente quer? O retorno à ideia da fusão da literatura com a solidão (o que na verdade quer dizer que a literatura “de verdade” é para poucos), ao fim do texto, acaba com qualquer indício de que o autor realmente deseja uma literatura não-elitizada.

Afinal de contas, se todos lessem Coração das Trevas, sobre qual livro ele iria poder destilar toda a sua intelectualidade em um artigo? Quem sabe em um mundo de pseudointelectuais, a literatura de entretenimento virasse objeto de culto. Imaginem! Teríamos um Milton Hatoum atacando a literatura pesada e enfadonha, subserviente a inúmeras influências e tarefas, que precisa ao mesmo tempo ser veículo político, de entretenimento e reflexão.

Ele poderia até manter o título. Citaria J.K. Rowling, Stephenie Meyer e E.L. James. Tolkien também pode ser uma boa. Stephen King, por que não? Infelizmente, ainda não vivemos esse mundo de inversão de valores e a simples citação desses autores ainda é desvalorizada. Mas esperemos pelo dia em que será lugar-comum ler qualquer escritor russo ou um modernista espevitado. Será uma forma de argumentar e construir uma imagem intelectualizada, apenas enumerar autores fora do senso comum da época (nossos atuais escritores de best-seller), como se isso fosse prova de nossa sapiência.

A literatura é fantástica o suficiente para englobar mundos distintos. Não há conflito entre esses diversos universos, que muitas vezes se entremeiam e geram as obras primas. Sabe o que eu acharia graça? Se pudéssemos ressucitar Machado de Assis ou qualquer figurão da literatura e o sujeito escrevesse um elogio à literatura de entretenimento (numa máquina de escrever, porque ele teria que ir se acostumando gradativamente às novas tecnologias).

É triste que a cultura seja restrita e pessoas com opiniões como a de Milton Hatoum só ampliam esse quadro horrível. Para definir com clareza o quanto a literatura atual se baseia no domínio público, estou com o livro de Hatoum aqui. Eu sei que mal dá para ver porque, no meu protesto silencioso, eu o coloquei sob vários “livros de verão”. Tem Harry Potter, tem até o livro do Hugh Laurie. Mas pode deixar, seu Miltão, porque isso não é uma ofensa. Considero esses livros tão livros quanto os outros que tenho em minha estante. Ela é bastante receptiva e não tem preconceito.

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“Milton o quê?” “Hatoum” “Não entendi” “Hatoum” “Ã?” “H – A – T – O… ah, deixa para lá, vou levar esse aqui do Paulo Coelho”

Está lá Saramago, que não gosta de ficar muito perto da Bíblia, mas que se dá incrivelmente bem com Graciliano Ramos. Acho que são os resquícios de ideais comunistas. Tem ali também Machado de Assis, que eu acho que anda tentando se aproximar de Clarice Lispector. Acho que ele quer uma prosa intimista com ela. Mas, sinceramente, o lado mais engraçado da minha estante é o que reúne Gregório de Mattos e Veríssimo. Você não sabe o que eu escuto vindo de lá.

Eu vou dormir. Porque talvez consiga, pelo menos em sonho, ver Machado de Assis, despreocupado, com um sorriso no rosto, lendo Paulo Coelho. Ou, quem sabe, Dois Irmãos, do Milton Hatoum.

Uns probleminhas acerca da cultura

Esses dias me falaram sobre Jogos Vorazes e, após eu falar que só conhecia a série de nome, meu interlocutor adicionou um “mas você provavelmente não iria gostar…”. Achei meio estranho e perguntei o porquê. “Ah, é que você é todo culto e…”. Bem. Como eu posso começar?

Tenho espasmos de raiva quando vejo exercícios de pseudointelectualismo pela internet. E infelizmente isso está cada vez mais frequente. Acho que é esse culto à inteligência ou sei lá o que diabos está acontecendo. Um dos mais recorrentes é rotular o que é e o que não é cultura. O que é ou o que não é ser um vampiro. “Ah, isso aí é literatura comercial”. “Isso não tem valor literário”. Pelo amor de deus, acho que não são espasmos de raiva que me acometem, são contrações tetânicas.

Isso é arte

É simplesmente medíocre querer tirar o papel de entretenimento da literatura, por exemplo, ou mesmo a possibilidade da escrita poder gerar lucros. Isso diminui a arte. Diminui o alcance que ela proporciona. E eu não estou nem entrando no mérito de arte contaminada pelo capitalismo. Em uma espécie de hipsterização intelectual, parece que tornar algo acessível a um público é demonizável. Já li críticas sobre Inception ter sido mastigado demais.

Essa mentalidade é a típica síndrome de retenção cultural, onde o sujeito quer a exclusividade sobre determinado objeto artístico. É o tipo de cara que sente arrepios nos pelos do períneo quando conta, em uma roda de amigos, que é “ama o mundo onírico do Lynch e os que não gostaram é porque não tiveram capacidade para compreendê-lo”. E olha que o problema vai mais fundo que isso. Ele existe devido ao uso que se dá à arte e à cultura, de modo geral. A exteriorização da nossa personalidad

Sabe gato, eu não gostei de Crepúsculo porque eles distorceram completamente o que é ser um vampiro, saca? Fora que aquele melodrama foi feito apenas para vender. Droga, ela lucrando milhões e eu sem dinheiro nem para óculos da Chilli Beans.

Quando completamos uns doze ou treze anos, percebemos que nossa capacidade de manipulação dos recursos linguísticos é falha. Seja culpa da educação a que fomos submetidos, seja por sermos novos demais, nós não conseguimos expressar quem nós somos com nossas palavras. Em uma fase na qual nossa maior certeza é a de que sabemos quem somos, não ser capaz de expressar isso seria capaz de nos fazer entrar em combustão espontânea. Mesmo que possamos mudar de banda favorita em um piscar de olhos, precisamos de uma banda para exteriorizar nossa personalidade, crucialmente na adolescência.

E a partir desse momento nos apoderamos de artistas e objetos de cultura, como se esses fossem nossos porta-vozes. É essa relação, por demais íntima, que cria uma intolerância cultural. Trata-se apenas de uma retomada àquelas discussões filosóficas clássicas: “uma faca, em si, contém algum mal ou é o uso que dela se faz que pode ser mal?”.

Não emito um juízo de valor tão ferrenho contra usar a arte como exteriorização da personalidade porque, além de também usá-la assim, esse é mais um das funções da cultura. O problema vem quando, por estabelecermos esse laço tão íntimo com a arte ou o que seja, nos sentimos donos dela. Eu me lembro da cruzada dos advogados dos bons costumes vampirescos quando Crepúsculo veio à tona. Esses detentores de o que é ser vampiro se sentiram ofendidos por Crepúsculo porque a Stephenie Meyer fez o que ela quis com uma criatura mitológica de uso público, mas que algumas pessoas haviam se apoderado para representar sabe-se lá o que elas queriam representar.

“Vampiro de verdade paga mensalidade para a Camarilla”

É a mesma coisa com essa história do zumbi apaixonado que, francamente, eu nem entendi direito. O que eu me pergunto é se os críticos do zumbi crepuscular iriam gostar que os zumbis se mantivessem realmente fiéis à tradição e não passassem de lendas haitianas de vudu. A origem do próprio “zumbi de verdade” veio através da distorção de outra cultura.

Em síntese: o sujeito se identifica com algo e cria uma relação de intimidade e posse para com algo que, na realidade, é intangível, que é a arte. Quando Stephanie Meyer fez o vampiro brilhar, ela fez milhares de góticos (sei lá quem se identifica com “vampiro de verdade”) se verem purpurinando. 

Na verdade, não há nenhum problema em vestir sua cultura, afinal, existem pessoas capazes de se expressar muito melhor do que nós. Além disso, não se trata apenas da cultura como meio de expressão, mas como simples “gostar”. Simplesmente causar descargas de serotonina é uma das inúmeras funções da cultura, mas nenhuma justifica você agir como detentor dela. Mesmo se um autor chamasse o público e dissesse “vocês estão errados, suas interpretações sobre a minha obra estão todas erradas, vocês não me entenderam”, ele deveria levar uns sopapos.

Existem bastantes evidências para afirmar que a arte não pertence nem mesmo ao artista depois que ela é tornada pública. Querer normatizar a arte diretamente é, no mínimo, uma idiotice. No entanto, durante todo esse texto, meu foco é na maneira com que consumimos a arte, nas implicações que esse modo traz e por que isso é errado. Se você é um fascista da cultura intelectual, por favor, repense a maneira com que você vê a arte.

Porque se ela é capaz de gerar emoções, reflexão, entretenimento e lucro, remover um desses elementos não a torna superior. É justamente o contrário. Caso você esteja triste por se julgar vítima de uma cultura de massificação, dê uma chance a algo mais avant-garde. Acho que eu estou me revelando bastante repetitivo, porque vou acabar voltando ao discurso desse post. De qualquer maneira, vou ler um pouco de Paulo Coelho. Obrigado.

O intelectual mais importante do país lendo um livro do intelectual mais importante do país deitado na cama do intelectual mais importante do país. Ufa. E você achando que seus filmes franceses eram coisa de intelectual!

Um Cão Andaluz

Toda pessoa que se considera normal já se deparou com o maravilhoso e deslumbrante universo onírico. Os sonhos exercem fascínio e desafiam todas as noções, sejam as lógicas como as ilógicas. Não é a toa que os sonhos surjam em tantos aspectos do cotidiano, estejam no discurso do Luther King ou mesmo como uma tentativa de aumentar suas chances com uma garota com quem você está em friendzone (seu virjão). Dizer que sonhou com ela, e omitir a parte em que você imaginou ter sexo com ela, provavelmente não vai funcionar.

Como faz com TUDO o que envolve essa criatura bizonha que atende pela alcunha de ser humano, a arte reflete essa aura misteriosa dos sonhos. Pois bem. Um Cão Andaluz é um exemplo disso. O surrealismo, assunto de uma aula de Literatura em que você provavelmente estava babando sobre seu caderno, praticando e não aprendendo a teoria, foi um movimento profundamente influenciado por um vislumbre em um universo totalmente estranho. Nada se sabia sobre os sonhos.


Se você tem uma tia espírita, ela provavelmente já te aterrorizou com essa ideia

A paralisia do sono era, ainda é, na verdade, associada a demônios e espíritos que sentam sobre você, o aspecto alegórico dos sonhos eram premonições místicas, se você acordar um sonâmbulo, ele morrerá… Chega, então, Freud e coloca uma lanterna nessa obscuridade. Céus, isso soa ainda pior do que eu imaginei. Influenciados por um turbilhão de teorias (que podem ter sido influenciadas por um turbilhão de cocaína), os surrealistas resolveram brincar com os sonhos.


Uma pessoa com quem você com certeza gostaria de ter degustado moscas.

Um Cão Andaluz é resultado da união de Salvador Dalí (aquele cara dos reloginhos derretendo) com um senhor chamado Luis Buñuel. Trata-se da representação máxima, é impossível assistir o filme sem sentir um reconhecimento, de um sonho. O filme (com módicos dezesseis minutos) recria perfeitamente a atmosfera onírica, com cenas bastante perturbadoras, devo alertar.

No entanto, nosso amigo ser humano se mostrou incapaz de apreciar e começou a bombardear o filme com tentativas de interpretá-lo. Algumas, fazem um certo sentido, como a ideia de que o filme se trata da viagem ao inconsciente de um assassino (um “argumento” é a passagem onde formigas saem das mãos de uma personagem, o que seria a versão literal da expressão francesa “fourmis dans les paumes”, “formigas nas mãos”, e que significaria “um grande desejo de matar”).

Esquecem-se no entanto, do contexto que permitiu o Surrealismo. O filme foi lançado em 1928, se você não dormiu nas aulas de História sabe que em 29 aconteceu alguma coisa importante. Foi a falência de todo aquele sistema perfeitamente lógico (ainda que caótico) que guiava a economia estadunidense. É óbvio que a arte antecipa as coisas e, nesse caso, foi a vez de antecipar a descrença na própria realidade.

Pois bem, particularmente, acredito que o filme recria tão bem a atmosfera onírica, que nem sinto a necessidade de interpretá-lo. Acredito que os sonhos têm, sim, um significado alegórico, mas ele é totalmente individual e precisa-se da cooperação completa da pessoa que os teve para se chegar à interpretação correta. Nesse caso, Salvador Dalí dorme em paz, embora persista em nossas memórias, e a tentativa de chegar a uma interpretação (o que é, em si, uma tentativa de racionalizar o filme) pode tirar um pouco da magia do filme.


O círculo preto representa a vida como uma tristeza cíclica. A contraposição do preto e do branco indicam que há um elemento além da melancolia. Cabe a você decidir a forma da sua vida. Você vai ser um quadrado? Um círculo? Ou um mosaico multicolorido?

Uma recomendação: assista o filme com a mente aberta. Tente se lembrar da última vez que se pegou quase dormindo e admirou-se com o quão desconexos seus pensamentos pareciam. O filme, em si, pode não te trazer a emoção imediata que um suspense poderia, mas, qual foi a última vez que você refletiu sobre seus sonhos? Você já parou para pensar sobre eles? Cegos congênitos sonham? Você sabia que, comprovadamente, pode ter um sonho lúcido?

Enfim… tantas perguntas, uma afirmação: a cena da navalha é memorável.

http://www.youtube.com/watch?v=020Z8rONCIc

A supervalorização da cultura estrangeira e basicamente o porquê de devermos ter medo disso

Olhe para o lado. Eu vejo inúmeras páginas de HQ’s cobrindo minha parede, com alguns diálogos em inglês, outros não. Olhe para o outro lado. Okay. Nada desse, ao menos para mim. Ainda assim, se olhar para frente, verei uma miscigenação anglo-portuguesa, eu fico cada vez mais reticente em relação a esses tipos de termos que venho usando por aqui. Vejo a dashboard do WordPress em uma miserável tentativa de aproximação do que poderia ser chamado de tradução.

Esse, no entanto, não é um post de crítica à tradução do WordPress. Não é, também, um post de crítica a traduções. Acontece que importamos, com uma facilidade inversamente proporcional ao valor que damos à nossa cultura, padrões comportamentais estadunidenses como se o American Way of Life fizesse algum sentido. Mesmo com o desmoronar dos yankees, mesmo com a crise mundial, mesmo com o caralho a quatro, vocês são capazes de enxergar isso acontecendo?

E não há problema nisso, também. Voltemos no tempo e auscultemos a senhora Tarsila do Amaral (quando criança eu poderia facilmente classificar a pintura dela como bizonha e não me sentir mal por isso. Bons tempos) e aquele marotão do Oswald de Andrade. Há algo incrivelmente sensato na proposta antropofágica (clique aqui se você estava dormindo nessas aulas). Então, por que eu acho que deveríamos ter medo disso?

Porque nem todo mundo no Brasil é capaz de enxergar o sentido nos traços extrapolados do Abaporu. Eu mesmo, tive que ler muita coisa para ter o vislumbre de entendimento sobre aquilo. E, em se tratando de modernismos, normalmente a arte é entregue totalmente desmontada. Eu tenho medo porque temos preguiça disso.

A arte brasileira, literatura, cinema (hmmm, polêmica), enfim, as manifestações culturais brasileiras são preconceituosamente rotuladas. Bizarramente, eu importei cultura americana e japonesa (é, julgue-me) durante anos a fio, sem sentir o mínimo de culpa. Eu tinha uma relação tão esquisita com minha própria pátria, que, já “escrevia” nessa época, tinha uma dificuldade imensa com um único aspecto da escrita: dar nome a personagens.

Minha estadunidensização era tão ferrenha, que eu simplesmente não via graça em nomes brasileiros. Minhas personagens eram, em uma espécie de bizarrice linguística, Johns, Kates, James. Não que hoje eu valorize nomes americanos ou qualquer nome, em geral. Tenho sérias dificuldades com esse ponto da narrativa, porque sinto a universalidade se esvaindo a cada limitação, seja cronológica, geográfica ou das personagens, que coloco.

Pensar tão centralizadamente, mesmo que em caminho oposto, como no ufanismo, ou já que usávamos exemplos de movimentos literários a Anta (esqueceu dessa aula, também?), é um problema que justifica o medo supracitado. Pensar tão unilateralmente impede que desfrutemos da possibilidade de um intercâmbio em tempo real, que basicamente se restringe ao Omegle e ao ChatRoulette (brincadeira), com, o que hoje parece bobo, o resto do mundo. Para que precisamos de ainda mais limitações para um bom uso da ferramenta “internet”, sendo que já lutamos demais contra a praga da procrastinação, a enxurrada de inutilidade e essa memória volátil?

E é aí que chego em um ponto interessante. Esse acesso que adquirimos com a internet trouxe uma espécie de oligarquização cultural. Não mais, apenas dos EUA. O Japão com seus animes bonitinhos (em alguns casos, seus pornôs de tentáculos) está criando monstros que atendem pelo nome de Otakus. Eu não sou livre de influências, poxa vida, mas há uma clara distinção entre ser um mosaico, em teoria consciente, e um painel unicolor. Até porque você perde muita coisa com isso.

Há tanta coisa igual, tanta coisa clichê, que qualquer coisa que difira um pouco desse padrão industrializado de cultura se sobressai instantaneamente. Mas céus, às vezes, até a criatividade internética parece seguir o ritmo de produção da linha de montagem dos tênis da Nike. A diferença é que não são vietnamitas famintos produzindo calçados que eles nunca irão usar.

Eu vejo um cenário degringolando. O conceito de meme do Dawkins, que só conheço superficialmente, acredito eu, não previa que houvesse um estágio industrial dessa informação, de modo que ela… perde a graça. A incorporação à rotina pode geral alguma coisa na literatura, no cinema, na arte em geral, mas mostra o problema da supervalorização da cultura estrangeira. Repetimos ad infinitum um ritual de costumes que não são os nossos, sacramentamos essas ideias. O que levanta uma questão ainda melhor. O que é cultura estrangeira?

Recentemente, ví um vídeo que me deixou… animado. Era um sujeito que havia feito algumas experiências envolvendo DMT (um dos componentes da ayahuasca, sim, eu copiei e colei, o que me lembra do Glauco e do Glauco Mattoso e nossa, quantas linkagens. Faça uso do Google e aumente seu QI em 10 pontos). Mas, basicamente, essa não foi a razão pela qual eu levei o sujeito a sério, até porque suas descrições soavam um pouquinho lunáticas e de portas da percepção eu já tenho minha dose com o John Frusciante.

O cara, Terrence McKenna, além de um sobrenome bizarro, fala no vídeo mencionado sobre a produção cultural. Então, eu volto àquela pergunta feita anteriormente, com uma resposta: do ponto de vista individual, toda cultura produzida por outras pessoas é estrangeira. E essa é uma maneira muito interessante de pensar, porque força você a tomar um caminho, de duas opções: você se torna culturalmente passivo ou cria sua própria cultura.

Essa ideia me fez adquirir uma nova perspectiva sobre as coisas que eu considerava toscas no mundo. O fato do indivíduo estar produzindo algo, com alguma inovação, é digno de louvor. É aquela ideia de “você está falando a maior besteira do mundo, mas morreria pelo seu direito de falar”, mutatis mutandis, aplicada à produção cultural.

Mas, José, me diz uma coisa. Se a cultura estrangeira é tudo o que eu não produzo, se todo mundo produzir alguma coisa, ninguém vai consumir e tudo vai explodir, serão tantas culturas que o mundo não vai aguentar, aliens. Calma, History Channel. A inovação é outra farsa.

Farsa no sentido literal da palavra: “inovação”. De novidade. De novo. Não existe algo essencialmente novo, assim como não existe um espelho perfeitamente polido. Retomemos a figura do mosaico: o rearranjar de peças em um quebra cabeça é inovação? Literalmente não, são as mesmas peças. Claro, poderíamos queimar as peças, comê-las, digerí-las e vomitá-las, mas não vamos fazer isso. Mas o efeito final dessa reorganização é inovador, na medida do possível.

Então, mais cultura requer, necessariamente, mais consumo cultural. Entretanto, a supervalorização impede que a barreira do consumo seja ultrapassada. Devemos ter medo porque, se todo mundo pensar assim e apenas consumir cultura, as coisas ficarão incrivelmente feias. Por isso, meu amigo, volte aos seus textos melancólicos no tumblr. E você, menina, escreva mais no seu diário. E você, zelador do prédio, pare de apenas assistir pornografia e vá fazê-la. Quer dizer. É o que esperamos, mas se você não conseguir, escreva um livro sobre isso.

Viva a Bruna Surfistinha! O Dado Dolabella! Obrigado Sartre! Supla! Rogério Skylab! Valeu Miley Cyrus! Restart! Não há aqui nem um único pingo de ironia.

Porque enquanto tiver coisas ruins, significa que há pessoas que acham que podem  fazer melhor. E por coisas ruins, é lógico que estou falando do Sartre e do Skylab.

O porquê de Dogville ser o melhor filme que eu já vi em muito tempo

Não acho que os filmes, livros ou a própria vida contenham um sentido tão grande assim. Principalmente, porque filmes costumam durar duas horas, livros umas dez e a vida… Bem, a vida varia. Mas isso não é exatamente o principal. Uma vida não é suficiente para se compreender todas as nuances da mesma, vá entender, Jesus nos fez assim. Aquele judeu cruel!

Dessa forma, nem que eu queria, eu não vou saber tudo sobre o Genocídio Armênio, a fabricação de Nunchakus, a ordenha de cabras na Irlanda. Provavelmente vou morrer sem saber talhar marfim e nunca saberei arremessar um bumerangue. Então, é presumível que muito do que eu vá falar aqui não exista, de fato, em Dogville. Indiferente ao que o nazista do Lars von Trier queria passar com o filme dele, eu irei fazer essa resenha (?).

O filme começa devagar, vou ser honesto para vocês. O negócio dos riscos no chão parece megalomaníaco demais, uma mera brincadeira com os atores, que são forçados a manipular maçanetas invisíveis, ou, quem sabe, uma forma de cortar recursos. Tudo bem que o maluco escreveu aquele manifesto, que, por sinal, parece bem divertido, se não fosse meio impossível. Então, não vou me ater às particularidades de algo que eu não conheço exatamente.

O senhor acabei me indicou o filme e me alertou para uma cena de tortura, que poderia ofender os olhos de minha mãe, maruja barbuda e musculosa que vem me acompanhando nesse cruzeiro pelo cinema. Céus, isso soa muito pior do que parece ser possível, acredite. Passa-se uma hora e alguns minutos e eu me pergunto: “como diabos esse filme pode conter alguma tortura?”. Acontece, meu amigo, que, se você não assistiu ao filme, é melhor você sair desse recinto, porque não vou poupar spoilers. Era inferível (uma dedução inerente a qualquer ser humano, aliás) desde o título que eu já assisti ao filme e que terão spoilers.

A tortura existe e foi claramente pior para os olhos da minha mãe que as cenas de sexo lésbico em Mulholland Drive. Conversando com a boa velha, após o filme, nos engajamos à busca de significações para aquela bela película. O uso das imagens como os “gângsters”, o “poder”, a bestialidade do estupro, enfim.

Há uma clara oposição entre o altruísmo e o quid pro quo, pomposa expressão latina para o que as prostitutas fazem, em geral. No começo, vemos uma Grace (a personagem principal) doando felicidade e boa vontade. Embora Tom (o pseudofilósofo) seja um covarde, sua missão inicial era usar Grace para uma “ilustração”.

Vejo aí, a voz do Lars von Trier, por meio da boca dessa personagem, em mostrar que Grace (e talvez Dogville), já que a referência ao que acontece como uma “ilustração” é repetida em momentos cruciais, trata-se dessa imagem, metáfora. Imagem de que, afinal?

Como dizia aquela frase de que a arte é uma representação humana, ou qualquer clichê de Senhor Óbvio, o filme é uma imagem, assustadoramente realista, da sociedade humana. Um dos pilares da organização humana sustenta o quid pro quo, em cenas não exibidas em pomposos festivais de cinema e, aliás, muito piores. É só ver o que o dinheiro compra, que vemos o quanto as pessoas se parecem, infelizmente, com os habitantes de Dogville.

E é para isso que eu chamo a atenção do “poder”. A imagem dos “gângsters”, das repentinas aparições da polícia, dos “pauzinhos movidos”. Tudo isso gira em torno de dinheiro. Grace, no entanto, não é pura. O final, que pode parecer beatificador e aliviante para alguns, faz dela outra criatura chafurdante naquele lodo. Não há ser humano que se salve. Não importa que Dogville seja queimada e até o pequeno bebê seja jogado ao chão depois de um tiro. Dogville é um simulacro, um microcosmo, aliás, de algo muito maior. E que está dentro de nós.

Um ponto de vista que beira o achismo, mas que faz perfeito sentido, é o que eu penso sobre o fato dos cenários não existirem. A atmosfera criada é totalmente efetiva. Tentar vislumbrar Dogville com cenários é quase impossível, porque todo o “desnudar” humano que se vê é perdido. Dogville acerta no que, acredito eu, BBB falha, pois permite, ainda que na ficção, o traçado de um perfil crível do ser humano, sem paredes para escondê-lo. Essa visão, além da presença de um narrador, aproxima o filme do movimento literário realista. Esse esmiuçar da humanidade é encontrado em um dos meus livros prediletos.

O Ateneu, de Raul Pompéia pode ter feito toda a minha sala dormir, embora tenha me deixado realmente animado com uma frase, que talvez façam os intermináveis descritivismos valerem a pena:

“O que é nulo, flutua e aparece, como no mar as pérolas imersas são ignoradas e sobrenadam ao dia as algas mortas e a espuma”

Assim como em O Ateneu, o coitado, literalmente, do Sérgio acaba sofrendo com esse mau selvagem, que é o homem. As algas mortas e a espuma sobejam em Dogville. Uma ajuda, um hábito bom, qualquer coisa altruísta, se levado à repetição, torna-se uma obrigação. Essa cobrança de “tudo o que as pessoas não precisavam”, uma ironia brilhante, é basicamente o que vivenciamos em nossas cadeias de relações interpessoais.

Nossas amizades criam obrigações. E isso não é unilateral. Ao passo que sofremos com cobranças, cobramos por nossas atitudes. Desse ponto de vista, será que um dia abandonaremos o capitalismo? Não se encaixa perfeitamente nessa lacuna ética que, talvez, seja um dos pilares da nossa evolução como espécie? Esse coletivismo individual?

O filme não nos dá respostas, nos traz perguntas. E basicamente contém a essência humana. Por isso, eu acredito que qualquer um é capaz de encontrar muita coisa nesse filme. Assim como o pessoal encontra na bíblia – que funciona em um quid pro quo, usar expressões em latim te deixam mais cult, incrivelmente semelhante ao do filme. Você não “salva” as pessoas da “comunidade” por meio de atos generosos, apenas, por ter uma compreensão do que Jesus, brother de luz, ensinou a você. Você faz isso porque tem medo de ir para o inferno tostar.

Fora o viés bíblico para justificar preconceitos. Fora o conforto de um contato individual com uma criatura gigantescamente bondosa que poderia te matar afogado em sapos, mas não faz. Embora, sejamos honestos, se fôssemos tal divindade, estaríamos nos preocupando em matar as pessoas de modos cada vez mais bizarro.

Assim, Dogville fecha um parágrafo nas minhas indagações existenciais, pontuando uma das essências humanas. Por que é essência, é imutável? Por que é essência? São tantas perguntas adjecentes, que chega a dar sono. Acho que para essas, no entanto, eu posso usar uma desculpa. Já são quase quatro e meia da manhã.

Dogville é um ótimo filme. Inspira ótimas perguntas. Eu poderia ter explorado o sentido da metáfora dos cachorros no filme, mas a preguiça me consome. E, ademais, o que eu estaria ganhando com isso?