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Uma apologia ao Natal e ao Papai Noel

Todo ano é a mesma coisa. Pessoas, motivadas sabe-se lá por quais desventuras da vida, atacam a crença no Papai Noel e no Natal como se sentissem pessoalmente ofendidas por elas. Essas pessoas, no entanto, não entendem o papel crucial que o Natal e o Papai Noel desempenham para o mundo e para a existência humana.

Todas as virtudes natalinas, personificadas no Papai Noel, contribuem para tornar o momento da ceia natalina uma ocasião especial. A gratidão dentro de um ambiente familiar, simbolizada pela troca de presentes; as mensagens de esperança para o ano vindouro. A presença do Papai Noel e do Espírito Natalino, que tantos afirmam não existirem, faz-se de modo explicitamente visível nessas manifestações de solidariedade.

120403111958-large-e1333549976442“O alcance da nossa solidariedade é apenas até aqueles que compartilham das mesmas crenças que a gente. Não é mesmo, amigas?”

Infelizmente, as atitudes muitas vezes não saem das portas de casas. É difícil romper a barreira que separa o nosso conforto de uma realidade que muitas vezes nos choca. Por mais que façamos amigos secretos e confraternizações entre amigos de trabalho e familiares, dificilmente ajudamos estranhos.

E se isso já ocorre em um mundo no qual a maior parte da população acredita no Natal e tenta viver suas virtudes, imagine o que não aconteceria em universo descrente. Não. Precisamos do Papai Noel para que possamos negociar a ética e educar nossas crianças desde cedo pelo quid pro quo. Por que (e como?) explicar para uma criança que mal consegue discernir o preto do branco que a ética é tão complexa que mesmo inúmeros séculos e filósofos se passaram sem que houvesse um consenso?

É preciso a figura simples e previamente construída do Papai Noel para que a criança engula mais facilmente o porquê de ela ter de suprimir seus instintos egoístas. “Se você for um bom menino, ganhará um presente de Natal“. Além disso, tendo em vista a realidade que ameaça as ruas (a violência, as drogas, a promiscuidade), é preciso dar a nossas crianças uma dose de esperança.

Mesmo que ela seja surreal. É preciso dar às crianças algo para acreditar. Há um vazio existencial na humanidade e antes preenchê-lo de fatias de peru e tender, com uma mesa farta e um tio bêbado falando besteira, do que correr o risco de deixar nossas crianças à mercê do mundo. E sabe o maior problema? É que se não fizéssemos isso, é muito provável que elas realmente se afundassem nas drogas.

Porque não as ensinamos a pensar. Nós as fazemos deglutir a magia do Natal, pois ela é um modo simples e efetivo de evitar um pequeno desastre. Mesmo que desconfiemos que haja outra maneira de ensinar uma boa educação a uma criança, é mais simples chantageá-la. E esse é outro motivo pelo qual defendo o Natal. Porque somos, afinal de contas, muito preguiçosos.

pai autoritario“Escuta aqui, eu sei que deixamos você assistir televisão o dia inteiro. E que ela fica te bombardeando com anúncios falando que você precisa ter as coisas. Mas nós também vamos à missa todo domingo. E você precisa entender que, a despeito da enxurrada de publicidade, nós somos submissos aos ideais judaicos-cristãos. Eu não vou te explicar que roubar as coisas é errado segundo uma visão que cria o conceito de propriedade privada, porque você é muito novo para isso e, francamente, nem eu não entendo. Eu só quero que você acredite que se ficar roubando, não vai ganhar presentes no final do ano. Entendeu?”

Também pudera: vivemos uma rotina árdua, na qual contam-se os dias da semana até o próximo feriado. O Natal não é apenas um momento em que você extravasa e expurga sentimentos ruins e estresse acumulados. Aquele pequeno rito é uma tentativa de não pensar. De se entregar ao destino. Passamos tanto tempo planejando nossa vida, gerenciando gastos, que é naquelas horas da reunião natalina que podemos nos confortar com a ideia de que não precisamos nos preocupar. De que há algo maior tomando conta de nós.

Mesmo que alguns considerem falsos os abraços, mentirosos os sorrisos, as fotografias de uma noite de Natal provam que talvez o efeito que as coisas tenham seja mais valioso que o custo de suas causas. Ver que, pelo menos ali, familiares que se odeiam fingiram não existir mágoas já faz valer a pena.

Afinal, uma mentira dita muitas vezes, por muitas pessoas, quem sabe, acaba se tornando uma verdade. Tudo isso só faz com que eu conclua que as pessoas que não gostam do Natal devem ter alguma coisa de errado. É verdade, o Papai Noel é praticamente uma invenção da Coca Cola, é uma festa do consumo, mas será que essas pessoas não enxergam a importância dessas figuras para a nossa cultura, para a nossa vida?

Eu não consigo acreditar em alguém que não acredite. E acho que é esse o meu erro. Eu vejo no Papai Noel e no Natal uma extensão da minha personalidade. Eu amo decorar a arvore natalina. Por não conseguir enxergar minha vida sem esse pequeno mimo, eu não aceito que outras pessoas digam algo que considero uma heresia. Mas ultimamente o mundo vai tão mal. Há tantas pessoas que não creem no Natal, que eu venho sendo obrigado a respeitá-los. Não por concordar com eles, mas porque eles são muitos.

Isso é difícil para mim. Porque apesar de a sociedade considerar polido e de bom grado que haja a tolerância, dentro da minha família há um ambiente muito ruim para aqueles que não acreditam no Natal. Nas reuniões que precedem as festas natalinas, o tema sempre retorna. Um dos meus pedidos ao Papai Noel é de que aqueles que não acreditam no poder do Natal passem a crer.

Porque seria horrível perder a chance de ganhar presentes no Natal. Por isso, qualquer conduta que seja improcedente com os valores natalinos é evitada. Não porque haja, de fato, um raciocínio sobre a ética e as justificativas desses valores. Mas apenas pela pressão social exercida, desde a nossa infância, que nos atemoriza sob a possibilidade de não ganhar presentes no final do ano.

mitosAlguns mitos são inofensivos, outros não.

É por isso que, às vezes, tenho pequenas discussões com amigos próximos. Eles insistem em dizer que algumas condutas minhas são desnecessárias. Tenho um amigo que fala que pendurar as meias de Natal é retrógrado, que é um hábito há muito tempo já desmistificado. Mas sou obrigado a dizer que não posso voltar atrás nas minhas crenças. Porque a minha criação diz que pendurar as meias de Natal é um dos pré-requisitos para que toda a magia natalina ocorra. Eu não posso correr o risco de perder meus presentes.

Como nosso senso de irmandade é muito forte dentro do período de Natal, e como cada um de nós sente-se pessoalmente identificado com a causa, vestimos a camisa e buscamos representação política. Não apenas isso. Acreditamos que o Natal fez tão bem para nós que ele deve ser passado adiante. Como não consigo enxergar um mundo sem Papai Noel, acho que todo o mundo deve acreditar nele.

Algumas pessoas me consideram radical. Acham que não devo querer expandir o Natal para além do 25 de dezembro. Mas, eu me pergunto, depois de tudo isso que eu falei, vocês não concordam que todo dia deveria ser Natal? De que se todas as pessoas acreditassem no Papai Noel viveríamos uma única irmandade, trocaríamos presentes, imagine! Um amigo secreto globalizado.

SantaJesus02paidPapai Noel e algum desconhecido apostando quebra de braços. Provavelmente um fã com uma ideia inusitada para a foto.

Pode parecer utopia, mas eu realmente espero que isso um dia aconteça. Acho que se todos realmente temessem perder seus presentes de Natal, não existiria mais crime. Todos seríamos felizes.

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Nova Ordem Ecumênica

Não se assustem com o tom de seriedade deste texto.

O catolicismo perdeu sua força no Brasil, conforme revelou o Censo brasileiro de 2000. Uma vez que o percentual de católicos, que atingia 83% em 1991, caiu para cerca de 73% nove anos depois, nota-se o crescimento da religião evangélica, que passou de 9% para 15% no mesmo período. Esse declínio católico reflete a inadequação do tradicionalismo das autoridades eclesiásticas frente a assuntos em discussão na sociedade, como o casamento entre homoafetivos.

Uma vez que o catolicismo sempre sofreu com a perda de fiéis, processo que teve início com o cisma que dividiu a Igreja em Ortodoxa e Católica Romana, o que mais chama a atenção na constituição atual do panorama de religiões no Brasil é a ascensão das Igrejas Evangélicas. Visto que ocorreram diversas subdivisões desde a Reforma Protestante, o espaço da Igreja Católica diminuiu, como analisa Antônio Pierucci no texto “A encruzilhada da fé”. Além disso, o sociólogo Max Weber citava o protestantismo como “a religião do capitalismo”, uma vez que uma de suas bases é enaltecer o trabalho. Desse modo, em uma sociedade pós-Guerra Fria, onde o capitalismo venceu seu último inimigo, a consolidação de uma religião que vai ao auxílio dos interesses de mercado, em vez de condená-los, como ainda faz o catolicismo, é perceptível. Assim, a manutenção de tradicionalismos arcaicos apenas endossa a perda de espaço pelo catolicismo nos últimos anos.

Entretanto, o catolicismo permanece absoluto nas regiões norte-nordeste, onde o percentual de católicos é de aproximadamente 85%. Isso tem raízes históricas, perceptíveis por meio da análise da estreita ligação entre a religião e os movimentos sociais dessa região, como a Guerra de Canudos, ligação que demonstra a influência que uma figura messiânica teve sobre uma população. Por isso, a influência que o catolicismo exerce sobre a sociedade, mesmo que em declínio, ainda deve ser considerada. Além disso, ficam evidentes as tentativas de modernização e secularização, ainda que isoladas em algumas vertentes católicas.

Ainda assim, o estabelecimento de uma sociedade utilitarista e globalizada limita organizações com um histórico de dificuldade de adaptação, como a Igreja Católica. Dessa maneira, chama a atenção a expansão de múltiplas Igrejas que operam em um regime fordista. Portanto, em tempos de capitalismo globalizado, é assim que as Igrejas têm de ser para continuar a sobreviver.

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