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Um Cão Andaluz

Toda pessoa que se considera normal já se deparou com o maravilhoso e deslumbrante universo onírico. Os sonhos exercem fascínio e desafiam todas as noções, sejam as lógicas como as ilógicas. Não é a toa que os sonhos surjam em tantos aspectos do cotidiano, estejam no discurso do Luther King ou mesmo como uma tentativa de aumentar suas chances com uma garota com quem você está em friendzone (seu virjão). Dizer que sonhou com ela, e omitir a parte em que você imaginou ter sexo com ela, provavelmente não vai funcionar.

Como faz com TUDO o que envolve essa criatura bizonha que atende pela alcunha de ser humano, a arte reflete essa aura misteriosa dos sonhos. Pois bem. Um Cão Andaluz é um exemplo disso. O surrealismo, assunto de uma aula de Literatura em que você provavelmente estava babando sobre seu caderno, praticando e não aprendendo a teoria, foi um movimento profundamente influenciado por um vislumbre em um universo totalmente estranho. Nada se sabia sobre os sonhos.


Se você tem uma tia espírita, ela provavelmente já te aterrorizou com essa ideia

A paralisia do sono era, ainda é, na verdade, associada a demônios e espíritos que sentam sobre você, o aspecto alegórico dos sonhos eram premonições místicas, se você acordar um sonâmbulo, ele morrerá… Chega, então, Freud e coloca uma lanterna nessa obscuridade. Céus, isso soa ainda pior do que eu imaginei. Influenciados por um turbilhão de teorias (que podem ter sido influenciadas por um turbilhão de cocaína), os surrealistas resolveram brincar com os sonhos.


Uma pessoa com quem você com certeza gostaria de ter degustado moscas.

Um Cão Andaluz é resultado da união de Salvador Dalí (aquele cara dos reloginhos derretendo) com um senhor chamado Luis Buñuel. Trata-se da representação máxima, é impossível assistir o filme sem sentir um reconhecimento, de um sonho. O filme (com módicos dezesseis minutos) recria perfeitamente a atmosfera onírica, com cenas bastante perturbadoras, devo alertar.

No entanto, nosso amigo ser humano se mostrou incapaz de apreciar e começou a bombardear o filme com tentativas de interpretá-lo. Algumas, fazem um certo sentido, como a ideia de que o filme se trata da viagem ao inconsciente de um assassino (um “argumento” é a passagem onde formigas saem das mãos de uma personagem, o que seria a versão literal da expressão francesa “fourmis dans les paumes”, “formigas nas mãos”, e que significaria “um grande desejo de matar”).

Esquecem-se no entanto, do contexto que permitiu o Surrealismo. O filme foi lançado em 1928, se você não dormiu nas aulas de História sabe que em 29 aconteceu alguma coisa importante. Foi a falência de todo aquele sistema perfeitamente lógico (ainda que caótico) que guiava a economia estadunidense. É óbvio que a arte antecipa as coisas e, nesse caso, foi a vez de antecipar a descrença na própria realidade.

Pois bem, particularmente, acredito que o filme recria tão bem a atmosfera onírica, que nem sinto a necessidade de interpretá-lo. Acredito que os sonhos têm, sim, um significado alegórico, mas ele é totalmente individual e precisa-se da cooperação completa da pessoa que os teve para se chegar à interpretação correta. Nesse caso, Salvador Dalí dorme em paz, embora persista em nossas memórias, e a tentativa de chegar a uma interpretação (o que é, em si, uma tentativa de racionalizar o filme) pode tirar um pouco da magia do filme.


O círculo preto representa a vida como uma tristeza cíclica. A contraposição do preto e do branco indicam que há um elemento além da melancolia. Cabe a você decidir a forma da sua vida. Você vai ser um quadrado? Um círculo? Ou um mosaico multicolorido?

Uma recomendação: assista o filme com a mente aberta. Tente se lembrar da última vez que se pegou quase dormindo e admirou-se com o quão desconexos seus pensamentos pareciam. O filme, em si, pode não te trazer a emoção imediata que um suspense poderia, mas, qual foi a última vez que você refletiu sobre seus sonhos? Você já parou para pensar sobre eles? Cegos congênitos sonham? Você sabia que, comprovadamente, pode ter um sonho lúcido?

Enfim… tantas perguntas, uma afirmação: a cena da navalha é memorável.

http://www.youtube.com/watch?v=020Z8rONCIc

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O porquê de Dogville ser o melhor filme que eu já vi em muito tempo

Não acho que os filmes, livros ou a própria vida contenham um sentido tão grande assim. Principalmente, porque filmes costumam durar duas horas, livros umas dez e a vida… Bem, a vida varia. Mas isso não é exatamente o principal. Uma vida não é suficiente para se compreender todas as nuances da mesma, vá entender, Jesus nos fez assim. Aquele judeu cruel!

Dessa forma, nem que eu queria, eu não vou saber tudo sobre o Genocídio Armênio, a fabricação de Nunchakus, a ordenha de cabras na Irlanda. Provavelmente vou morrer sem saber talhar marfim e nunca saberei arremessar um bumerangue. Então, é presumível que muito do que eu vá falar aqui não exista, de fato, em Dogville. Indiferente ao que o nazista do Lars von Trier queria passar com o filme dele, eu irei fazer essa resenha (?).

O filme começa devagar, vou ser honesto para vocês. O negócio dos riscos no chão parece megalomaníaco demais, uma mera brincadeira com os atores, que são forçados a manipular maçanetas invisíveis, ou, quem sabe, uma forma de cortar recursos. Tudo bem que o maluco escreveu aquele manifesto, que, por sinal, parece bem divertido, se não fosse meio impossível. Então, não vou me ater às particularidades de algo que eu não conheço exatamente.

O senhor acabei me indicou o filme e me alertou para uma cena de tortura, que poderia ofender os olhos de minha mãe, maruja barbuda e musculosa que vem me acompanhando nesse cruzeiro pelo cinema. Céus, isso soa muito pior do que parece ser possível, acredite. Passa-se uma hora e alguns minutos e eu me pergunto: “como diabos esse filme pode conter alguma tortura?”. Acontece, meu amigo, que, se você não assistiu ao filme, é melhor você sair desse recinto, porque não vou poupar spoilers. Era inferível (uma dedução inerente a qualquer ser humano, aliás) desde o título que eu já assisti ao filme e que terão spoilers.

A tortura existe e foi claramente pior para os olhos da minha mãe que as cenas de sexo lésbico em Mulholland Drive. Conversando com a boa velha, após o filme, nos engajamos à busca de significações para aquela bela película. O uso das imagens como os “gângsters”, o “poder”, a bestialidade do estupro, enfim.

Há uma clara oposição entre o altruísmo e o quid pro quo, pomposa expressão latina para o que as prostitutas fazem, em geral. No começo, vemos uma Grace (a personagem principal) doando felicidade e boa vontade. Embora Tom (o pseudofilósofo) seja um covarde, sua missão inicial era usar Grace para uma “ilustração”.

Vejo aí, a voz do Lars von Trier, por meio da boca dessa personagem, em mostrar que Grace (e talvez Dogville), já que a referência ao que acontece como uma “ilustração” é repetida em momentos cruciais, trata-se dessa imagem, metáfora. Imagem de que, afinal?

Como dizia aquela frase de que a arte é uma representação humana, ou qualquer clichê de Senhor Óbvio, o filme é uma imagem, assustadoramente realista, da sociedade humana. Um dos pilares da organização humana sustenta o quid pro quo, em cenas não exibidas em pomposos festivais de cinema e, aliás, muito piores. É só ver o que o dinheiro compra, que vemos o quanto as pessoas se parecem, infelizmente, com os habitantes de Dogville.

E é para isso que eu chamo a atenção do “poder”. A imagem dos “gângsters”, das repentinas aparições da polícia, dos “pauzinhos movidos”. Tudo isso gira em torno de dinheiro. Grace, no entanto, não é pura. O final, que pode parecer beatificador e aliviante para alguns, faz dela outra criatura chafurdante naquele lodo. Não há ser humano que se salve. Não importa que Dogville seja queimada e até o pequeno bebê seja jogado ao chão depois de um tiro. Dogville é um simulacro, um microcosmo, aliás, de algo muito maior. E que está dentro de nós.

Um ponto de vista que beira o achismo, mas que faz perfeito sentido, é o que eu penso sobre o fato dos cenários não existirem. A atmosfera criada é totalmente efetiva. Tentar vislumbrar Dogville com cenários é quase impossível, porque todo o “desnudar” humano que se vê é perdido. Dogville acerta no que, acredito eu, BBB falha, pois permite, ainda que na ficção, o traçado de um perfil crível do ser humano, sem paredes para escondê-lo. Essa visão, além da presença de um narrador, aproxima o filme do movimento literário realista. Esse esmiuçar da humanidade é encontrado em um dos meus livros prediletos.

O Ateneu, de Raul Pompéia pode ter feito toda a minha sala dormir, embora tenha me deixado realmente animado com uma frase, que talvez façam os intermináveis descritivismos valerem a pena:

“O que é nulo, flutua e aparece, como no mar as pérolas imersas são ignoradas e sobrenadam ao dia as algas mortas e a espuma”

Assim como em O Ateneu, o coitado, literalmente, do Sérgio acaba sofrendo com esse mau selvagem, que é o homem. As algas mortas e a espuma sobejam em Dogville. Uma ajuda, um hábito bom, qualquer coisa altruísta, se levado à repetição, torna-se uma obrigação. Essa cobrança de “tudo o que as pessoas não precisavam”, uma ironia brilhante, é basicamente o que vivenciamos em nossas cadeias de relações interpessoais.

Nossas amizades criam obrigações. E isso não é unilateral. Ao passo que sofremos com cobranças, cobramos por nossas atitudes. Desse ponto de vista, será que um dia abandonaremos o capitalismo? Não se encaixa perfeitamente nessa lacuna ética que, talvez, seja um dos pilares da nossa evolução como espécie? Esse coletivismo individual?

O filme não nos dá respostas, nos traz perguntas. E basicamente contém a essência humana. Por isso, eu acredito que qualquer um é capaz de encontrar muita coisa nesse filme. Assim como o pessoal encontra na bíblia – que funciona em um quid pro quo, usar expressões em latim te deixam mais cult, incrivelmente semelhante ao do filme. Você não “salva” as pessoas da “comunidade” por meio de atos generosos, apenas, por ter uma compreensão do que Jesus, brother de luz, ensinou a você. Você faz isso porque tem medo de ir para o inferno tostar.

Fora o viés bíblico para justificar preconceitos. Fora o conforto de um contato individual com uma criatura gigantescamente bondosa que poderia te matar afogado em sapos, mas não faz. Embora, sejamos honestos, se fôssemos tal divindade, estaríamos nos preocupando em matar as pessoas de modos cada vez mais bizarro.

Assim, Dogville fecha um parágrafo nas minhas indagações existenciais, pontuando uma das essências humanas. Por que é essência, é imutável? Por que é essência? São tantas perguntas adjecentes, que chega a dar sono. Acho que para essas, no entanto, eu posso usar uma desculpa. Já são quase quatro e meia da manhã.

Dogville é um ótimo filme. Inspira ótimas perguntas. Eu poderia ter explorado o sentido da metáfora dos cachorros no filme, mas a preguiça me consome. E, ademais, o que eu estaria ganhando com isso?