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A supervalorização da cultura estrangeira e basicamente o porquê de devermos ter medo disso

Olhe para o lado. Eu vejo inúmeras páginas de HQ’s cobrindo minha parede, com alguns diálogos em inglês, outros não. Olhe para o outro lado. Okay. Nada desse, ao menos para mim. Ainda assim, se olhar para frente, verei uma miscigenação anglo-portuguesa, eu fico cada vez mais reticente em relação a esses tipos de termos que venho usando por aqui. Vejo a dashboard do WordPress em uma miserável tentativa de aproximação do que poderia ser chamado de tradução.

Esse, no entanto, não é um post de crítica à tradução do WordPress. Não é, também, um post de crítica a traduções. Acontece que importamos, com uma facilidade inversamente proporcional ao valor que damos à nossa cultura, padrões comportamentais estadunidenses como se o American Way of Life fizesse algum sentido. Mesmo com o desmoronar dos yankees, mesmo com a crise mundial, mesmo com o caralho a quatro, vocês são capazes de enxergar isso acontecendo?

E não há problema nisso, também. Voltemos no tempo e auscultemos a senhora Tarsila do Amaral (quando criança eu poderia facilmente classificar a pintura dela como bizonha e não me sentir mal por isso. Bons tempos) e aquele marotão do Oswald de Andrade. Há algo incrivelmente sensato na proposta antropofágica (clique aqui se você estava dormindo nessas aulas). Então, por que eu acho que deveríamos ter medo disso?

Porque nem todo mundo no Brasil é capaz de enxergar o sentido nos traços extrapolados do Abaporu. Eu mesmo, tive que ler muita coisa para ter o vislumbre de entendimento sobre aquilo. E, em se tratando de modernismos, normalmente a arte é entregue totalmente desmontada. Eu tenho medo porque temos preguiça disso.

A arte brasileira, literatura, cinema (hmmm, polêmica), enfim, as manifestações culturais brasileiras são preconceituosamente rotuladas. Bizarramente, eu importei cultura americana e japonesa (é, julgue-me) durante anos a fio, sem sentir o mínimo de culpa. Eu tinha uma relação tão esquisita com minha própria pátria, que, já “escrevia” nessa época, tinha uma dificuldade imensa com um único aspecto da escrita: dar nome a personagens.

Minha estadunidensização era tão ferrenha, que eu simplesmente não via graça em nomes brasileiros. Minhas personagens eram, em uma espécie de bizarrice linguística, Johns, Kates, James. Não que hoje eu valorize nomes americanos ou qualquer nome, em geral. Tenho sérias dificuldades com esse ponto da narrativa, porque sinto a universalidade se esvaindo a cada limitação, seja cronológica, geográfica ou das personagens, que coloco.

Pensar tão centralizadamente, mesmo que em caminho oposto, como no ufanismo, ou já que usávamos exemplos de movimentos literários a Anta (esqueceu dessa aula, também?), é um problema que justifica o medo supracitado. Pensar tão unilateralmente impede que desfrutemos da possibilidade de um intercâmbio em tempo real, que basicamente se restringe ao Omegle e ao ChatRoulette (brincadeira), com, o que hoje parece bobo, o resto do mundo. Para que precisamos de ainda mais limitações para um bom uso da ferramenta “internet”, sendo que já lutamos demais contra a praga da procrastinação, a enxurrada de inutilidade e essa memória volátil?

E é aí que chego em um ponto interessante. Esse acesso que adquirimos com a internet trouxe uma espécie de oligarquização cultural. Não mais, apenas dos EUA. O Japão com seus animes bonitinhos (em alguns casos, seus pornôs de tentáculos) está criando monstros que atendem pelo nome de Otakus. Eu não sou livre de influências, poxa vida, mas há uma clara distinção entre ser um mosaico, em teoria consciente, e um painel unicolor. Até porque você perde muita coisa com isso.

Há tanta coisa igual, tanta coisa clichê, que qualquer coisa que difira um pouco desse padrão industrializado de cultura se sobressai instantaneamente. Mas céus, às vezes, até a criatividade internética parece seguir o ritmo de produção da linha de montagem dos tênis da Nike. A diferença é que não são vietnamitas famintos produzindo calçados que eles nunca irão usar.

Eu vejo um cenário degringolando. O conceito de meme do Dawkins, que só conheço superficialmente, acredito eu, não previa que houvesse um estágio industrial dessa informação, de modo que ela… perde a graça. A incorporação à rotina pode geral alguma coisa na literatura, no cinema, na arte em geral, mas mostra o problema da supervalorização da cultura estrangeira. Repetimos ad infinitum um ritual de costumes que não são os nossos, sacramentamos essas ideias. O que levanta uma questão ainda melhor. O que é cultura estrangeira?

Recentemente, ví um vídeo que me deixou… animado. Era um sujeito que havia feito algumas experiências envolvendo DMT (um dos componentes da ayahuasca, sim, eu copiei e colei, o que me lembra do Glauco e do Glauco Mattoso e nossa, quantas linkagens. Faça uso do Google e aumente seu QI em 10 pontos). Mas, basicamente, essa não foi a razão pela qual eu levei o sujeito a sério, até porque suas descrições soavam um pouquinho lunáticas e de portas da percepção eu já tenho minha dose com o John Frusciante.

O cara, Terrence McKenna, além de um sobrenome bizarro, fala no vídeo mencionado sobre a produção cultural. Então, eu volto àquela pergunta feita anteriormente, com uma resposta: do ponto de vista individual, toda cultura produzida por outras pessoas é estrangeira. E essa é uma maneira muito interessante de pensar, porque força você a tomar um caminho, de duas opções: você se torna culturalmente passivo ou cria sua própria cultura.

Essa ideia me fez adquirir uma nova perspectiva sobre as coisas que eu considerava toscas no mundo. O fato do indivíduo estar produzindo algo, com alguma inovação, é digno de louvor. É aquela ideia de “você está falando a maior besteira do mundo, mas morreria pelo seu direito de falar”, mutatis mutandis, aplicada à produção cultural.

Mas, José, me diz uma coisa. Se a cultura estrangeira é tudo o que eu não produzo, se todo mundo produzir alguma coisa, ninguém vai consumir e tudo vai explodir, serão tantas culturas que o mundo não vai aguentar, aliens. Calma, History Channel. A inovação é outra farsa.

Farsa no sentido literal da palavra: “inovação”. De novidade. De novo. Não existe algo essencialmente novo, assim como não existe um espelho perfeitamente polido. Retomemos a figura do mosaico: o rearranjar de peças em um quebra cabeça é inovação? Literalmente não, são as mesmas peças. Claro, poderíamos queimar as peças, comê-las, digerí-las e vomitá-las, mas não vamos fazer isso. Mas o efeito final dessa reorganização é inovador, na medida do possível.

Então, mais cultura requer, necessariamente, mais consumo cultural. Entretanto, a supervalorização impede que a barreira do consumo seja ultrapassada. Devemos ter medo porque, se todo mundo pensar assim e apenas consumir cultura, as coisas ficarão incrivelmente feias. Por isso, meu amigo, volte aos seus textos melancólicos no tumblr. E você, menina, escreva mais no seu diário. E você, zelador do prédio, pare de apenas assistir pornografia e vá fazê-la. Quer dizer. É o que esperamos, mas se você não conseguir, escreva um livro sobre isso.

Viva a Bruna Surfistinha! O Dado Dolabella! Obrigado Sartre! Supla! Rogério Skylab! Valeu Miley Cyrus! Restart! Não há aqui nem um único pingo de ironia.

Porque enquanto tiver coisas ruins, significa que há pessoas que acham que podem  fazer melhor. E por coisas ruins, é lógico que estou falando do Sartre e do Skylab.