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Viva o Google Trends

Os filósofos gregos que me perdoem, mas eles não se adaptariam a nossa era. Eles floresceram porque foram, de certa forma, pioneiros. Mesmo que não tenham sido os primeiros de fato, foram os que deixaram um certo registro que foi sobrevivendo – e sendo alterado – através dos séculos. Admitamos que Sócrates não teria chances em um mundo com sete bilhões de pessoas, no qual tudo parece ter sido dito e a chance de parecer original é quase nula.

Aristóteles não aguentaria a morte do conhecimento individual. Hoje nosso comportamento é massivo. As ideias não são mais pessoais e individualizadas. É como se tivéssemos uma população dividida, como em um gráfico de pizza. Você com certeza pode ser encaixado em um dos setores desse gráfico. E terá amiguinhos para compartilhar suas ideias.

Pitágoras encontraria os amiguinhos dele em uma comunidade de “Eu odeio feijão” no Orkut, mas teria dificuldade em ser publicado. É provável que o ócio dos gregos recebesse outro adjetivo pátrio. E honestamente? A morte do indivíduo é um fenômeno interessantíssimo. E devo agradecer ao ócio grego por me permitir enxergar isso.

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Imagine mentalmente a música do Harlem Shake tocando enquanto você assiste ao GIF. Ele é uma metáfora para a pergunta “Seria Sócrates um pré-socrático?”

Todo esse papo de filósofos queria chegar a dois pontos principais. Estar sem ter o que fazer é ótimo. Agradeço aos gregos por isso. E a coletividade e a massificação acabam por serem um ótimo objeto de estudo. Essas duas coisas – ócio e estudo de massa – se combinam no Google Trends. E eu agradeço ao Magno por isso.

O Trends, para quem não sabe, pega o registro de buscas no Google para fornecer dados e curiosidades estatísticas. E ele nos permite demonstrar perfeitamente esse comportamento massivo e esquisito de uma humanidade de sete bilhões de pessoas. Okay. Tudo bem. O Trends é um simulacro da humanidade de sete bilhões de pessoas, pois acaba reunindo informações de uma parcela com acesso à internet. Mas a maioria de nós não costuma ser muito preocupado com o pessoal que não tem acesso à internet, né?

O site nos mostra desde coisas banais e previsíveis, como a evolução das buscas por gripe suína após o surto midiático, a outras, no mínimo, curiosas. Por exemplo, o interesse sobre queimadura com limões tem records periódicos que coincidem com as férias. Ou que o estado que mais procura por “esperança” é a Paraíba. Também indicam coisas bonitas. Como a busca em diferir “mais de mas”, com um interesse crescente que chega a dar emoção.

Em maio de 2009 aconteceu alguma coisa bem interessante. Foi atingido o pico de buscas por “como fazer sexo”. Espero que as pessoas tenham descoberto. Ainda no ramo do conhecimento, mas não sexual, fico feliz que as procuras por “asterístico” tenham diminuído. Mas nem tudo são flores. As buscas por viajem estão aumentando. A sorte é que o Google tem aquela maneira toda delicada de dizer que você é analfabeto.

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“Você quis dizer:” – o Google faz parecer que ser burro foi algo acidental.

Eu podia procurar sobre coisas que realmente fariam alguma diferença. Acho que seria o que um filósofo grego faria. Mas a tentação de procurar quais são as tendências sobre bafo de cebola, sorvete de milho, ou por que diabos esse crescimento súbito para “perdi as chaves”?! É verdade que a precisão do Google Trends é bastante questionável principalmente porque ele depende de um certo volume de pesquisas.

Mas é um exercício divertido. Olhar as pesquisas relacionadas ao termo “as gata”. E se você não sabe as datas do alistamento militar, basta dar uma olhada no Google Trends. Parece que o 2 é o mais popular dos cinco primeiros números. E você achando que ser o primeiro era o mais importante. A verdade é que esse post não queria mostrar uma verdade chocante (se é que algum outro post quis), mas apenas apresentar uma ferramenta que pode ser útil para vencer o tédio.

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Um pesadelo recorrente do Pitágoras…

Quando você não tiver nada melhor para fazer. Dê uma chance ao Google Trends. Tem uma mosca atrapalhando minha concentração. Vou procurar no Google o que devo fazer. Eu não consigo deixar de imaginar o que os filósofos gregos pesquisariam no Google Trends. Talvez Pitágoras seja o mais simples de imaginar. Ele provavelmente procuraria por feijão. E evitaria os lugares que têm muitas buscas sobre o assunto.

E mesmo que as minhas buscas no Trends façam nossa coletividade parecer um pouco idiota e embasbacada. Eu tenho certo orgulho por saber que o interesse em descobrir “o que é o amor” está crescente. Ou que as pessoas se preocupam com os piolhos de maneira quase constante desde 2004. Ainda há fé na humanidade. Quer dizer… ainda há fé na humanidade?

Há espaço para o determinismo?

Minha vontade imediata é responder não. Mas pode ser que no curso desse texto, eu faça justamente o contrário. Vamos escrever um texto sobre o qual eu ainda não tenho opinião formada.

O determinismo esteve em moda pelo fim do século 19. Diz-se que se baseava em uma distorção dos conceitos evolucionistas de  Darwin, mas é fácil ver os motivos para a emergência de um pensamento do gênero. A coincidência das datas do surgimento de uma filosofia que justificava uma “superioridade evolutiva”, algo que depois foi chamado de darwinismo social, e o neocolonialismo não é nem um pouco surpreendente. A partir do momento em que você acreditava ser mais evoluído do que os africanos, era perfeitamente aceitável partilhar o território deles.

A base dessa filosofia é a de que há algo capaz de influenciar o indivíduo de tal forma que acaba com o conceito de liberdade. A história é tão velha que você decorou a frase “o homem é o produto do meio” e nem sabia o porquê. Agora, quando sua mãe falar que você vai virar maconheiro, porque seus amigos andam por aí emaconhados e andando de pé de lata, você já tem um argumento na ponta da língua: “mãe, para de ser tão determinista”.

Você e seus amigos, todos emaconhados, andando de pé de lata.

Porém, o alcance da liberdade humana é um tema complexo demais para renegarmos uma filosofia simplesmente porque ela foi usada com motivos políticos. Aliás, se isso fosse realmente um motivo para abandonar qualquer pensamento filosófico, teríamos que abandonar todos de uma vez. Ah é, a não-filosofia provavelmente já foi transformada em arma política. Parece que nessa falha lógica, nossa liberdade é praticamente inexistente.

Ainda assim, deixar o determinismo de lado apenas pelo que ele causou (em aplicações distorcidas de seus conceitos) me parece precipitado. Porque ele, em síntese, não contém nenhum mal. Por isso, vamos à química moderna.

Uma das coisas mais lindas que aprendi durante esse ano foi o maravilhoso universo atômico. Chega a um momento em que você é obrigado a se questionar se o determinismo que, querendo ou não, é um dos moldes da ciência como se conhece, existe de fato. A nível atômico, você sofre de uma coisa estranhíssima. Você não é capaz de determinar, simultaneamente, a posição e o módulo (intensidade) de um elétron ao mesmo tempo.

“Grande merda, eu não consigo assoviar e chupar cana ao mesmo tempo”. Você até pode se perguntar isso, mas a impossibilidade de determinar posição e módulo de um elétron põe uma barreira, pelo que se conhece, instransponível a “o quão fino pode ser o meu celular”. Isso porque se fizessem um fio tão fino que sua espessura fosse de alguns átomos (algo que você nunca será capaz de mensurar), você não iria ter informações suficientes para, por exemplo, montar um circuito lógico.

Benito di Paula é capaz de assobiar, chupar cana e fazer paixão. Tudo isso ao mesmo tempo em que dá uma polida nesse colar de pérolas e penteia o cavanhaque.

Imaginar que boa parte das ciências exatas se baseiam em artifícios que apenas tangenciam uma solução determinista é, no mínimo, um pouco assustador. Pegue, por exemplo, o conceito de limite. Imagine que você está multiplicando 1/2 por 1/2 por 1/2 por 1/2 por 1/2… e resolve fazer isso até o infinito. Você vai chegar a 1 dividido por um número tão grande, mas tão grande, que vai ser quase como se o resultado fosse zero. O número é tão próximo de zero que pode ser considerado isso. Será mesmo?

A matemática pura e simples deveria considerar que não. Porém, isso funciona no mundo real. A um engenheiro civil, um número após cinco mil casas decimais não irá fazer diferença alguma. Muito menos a quem habitar a casa projetada por esse engenheiro. E, convenhamos, o pedreiro pode ter feito uma gambiarra que vai dar uma diferença, entre o assoalho e sua porta, de dois centímetros maior que deveria. Mas isso também não vai alterar sua vida.

Isso porque não vivemos em um universo determinista. E é por isso que eu considero bobagem encarar as leis da física ou química como evidências de qualquer inteligência criadora. Porque as racionalizações que parecem incrivelmente lógicas apenas tangenciam a realidade. A verdade é que nós criamos explicações deterministas para o universo porque gostamos de ser dessa forma. Esse talvez seja o motivo pelo qual eu, mesmo tendo todas essas argumentações, tenho dificuldades em me desligar da ideia de determinismo.

Porque a ausência dele nos põe na ingrata missão de aceitar que vivemos em um mundo caótico, ao qual atribuímos alguns padrões na tentativa de tornar a nossa vida mais simples. Porém, a eficácia desses padrões nesse quesito não significa que eles sejam corretos. Muitos teóricos e principalmente gente que lidava diretamente com esse tipo de conhecimento reconhecia que a nossa física ou química poderia não ser um código universal. De que existem infinitas possibilidades de explicação, igualmente lógicas, para um mesmo fenômeno.

É por isso que a ciência está em constante renovação. Na essência, a busca por um determinismo a torna visceralmente falha. Então, eu retomo a pergunta inicial. Há espaço para o determinismo? Diferentemente do que eu teria respondido à primeira vista, talvez haja sim. O determinismo começa a falhar quando tentamos forçá-lo goela abaixo da sociedade ou da ciência. Enquanto ele permanecer como objeto de desejo, ele continuará criando ciência. Até se chegar ao limiar da incerteza, como fez Heisenberg. Mas, ainda bem, há sempre como ir ainda mais fundo.

Credo, nem pareço eu escrevendo esse texto. Há um meio ano atrás eu era um dos odiadores da ciência abstrata. E agora quase escrevi um manifesto de apoio a ela. Nós somos abstratos, afinal de contas. Por isso procuramos tanto algo concreto. Ou determinista.

Mullets, por exemplo, determinam sucesso absoluto no jogo da conquista sexual.

Como e por que eu não acredito em deus

Levei um tempo expressivo até tocar nesse assunto. Não por considerá-lo desmerecedor, mas porque não via motivos para discuti-lo. Alguma coisa, entretanto, me incutiu de uma súbita vontade de abordá-lo. Como eu sei que isso caleja em muita gente, prometo tentar ser bem objetivo e apenas apresentar os meus argumentos. O resto deixo com vossas senhorias. A oportunidade de críticas diretas a instituições religiosas, de modo geral, será outro. Por enquanto, vamos lá.

O que essa imagem quer dizer?

Por que eu não acredito no deus da igreja católica?

Pode parecer que eu já estou partindo de um factoide, mas não é. A despeito disso, os católicos ainda são maioria, então começarei por eles. A razão para a negação dessa existência é simples: a bíblia não me convence, a minha experiência pessoal não me convence e as outras justificativas não me convencem. Iniciando com a bíblia.

Um grande número de pessoas parece “aceitar” um olhar crítico sobre a bíblia. Também pudera, os episódios de subjugação da mulher, para não falar de Sodoma e Gomorra seriam razão muito maior para um veto do que os preconceitos de Monteiro Lobato. E isso é só um pouco. Você realmente não precisa procurar muito para encontrar qualquer coisa na bíblia. Um dos argumentos que eu mais escuto é “ah, mas isso é no antigo testamento”…

Bem, pelo que me consta, há uma certa unidade cristã. Se você se rotula como tal, você aceita as imposições do rótulo e, até onde eu sei, o antigo testamento ainda constava no pacote “ser cristão”. “Ah, mas o antigo testamento foi escrito em um período de guerra”… tudo bem, o contexto histórico do antigo testamento deixa bem claro que esse deus era do tipo “mate o inimigo, conquiste a terra do inimigo, estabeleça leis de convívio harmônico para um povo do deserto”.

E justamente por isso, não vejo justificativas para a adoção do padrão ético de um povo do deserto em uma organização social complexa como é a nossa. Soa tão dissonante quanto adotar uma legislação à Hamurabi. Opa, eu acho que tem gente que ainda pensa assim. Se temos uma sociedade moderna que pensa com arcaísmos, não é nenhuma surpresa que um código de costumes beduínos prevaleça quase inabalável. Caso você acredite fundamentalmente na bíblia, lamento, mas esse tópico não é para você. Vá e viva a sua vida. Mas temo que você não vá conseguir dormir à noite pensando qual desses pequenos embates é o que deus sussurrou ao ouvido dos escribas bíblicos.

Claro que se basear em erros de tradução ou o que quer que seja é bastante idiota, mas é apenas um indício de que não há, de fato, como levar a bíblia à literalidade. Principalmente porque há pontos de divergência. Dessa forma, meu questionamento é a posição desse livro como código de conduta. Afinal, se a ética está nela, qual é o padrão que usamos para julgar alguns conflitos do livro? Logicamente, eu tento apenas sustentar a ideia de que mesmo os cristãos se baseiam em condutas éticas fora da bíblia, até mesmo para interpretá-la.

Ora, a falha da bíblia não prova absolutamente nada, afinal, há um considerável número de subdivisões no catolicismo devido a divergências interpretativas. Porém, sujeita as “provas” bíblicas para a existência de deus ao mesmo crivo de desconfiança das demais ideologias ali presentes.

Uma parte fundamental para o relacionamento deus vs indivíduo, segundo o catolicismo, está em uma relação de obrigações e, principalmente, submissão. Em nome de um suposto pecado original, ou da morte do filho de deus que é deus e filho e pai e espírito santo (tente entender, é pior do que o Sartre bêbado).

Sartre SÓBRIO

É por isso que a igreja confronta tão seriamente as refutações evolucionistas. Porque mesmo que seja uma besteira que não iria, de fato, alterar a fé dos católicos de verdade, ela ruiria uma estrutura milenar, afinal, baseada em um livro beduinesco. Diferentemente das religiões orientais e de outras variantes, a igreja católica é estamental e imutável. O catolicismo não tem borracha nem corretivo…

Tudo bem, afinal, o que o leva a pôr em dubiedade a existência do deus católico. Porque, juntamente com os outros dogmas centrais, ele também se enraíza na nossa amada bíblia. Qualquer tentativa de ajustar o deus para além da real presença desse na hora da deglutição da hóstia, para além da morada celestial, para além do conjunto estritamente estabelecido na bíblia tira esse deus da classificação “deus católico”.

Convenhamos que são poucos os que engolem isso. As contradições da bíblia são tamanhas e tão desajustadas com a nossa atual sociedade que muitos católicos adotam uma postura deísta. Os motivos são facilmente encontráveis em uma pesquisa que envolve a comparação entre as explicações científicas de fenômenos, os dogmas cristãos e a própria noção pessoal de deus. Não raro, isso gera uma profunda mudança no conceito de deus. E é aqui que vem…

Por que eu não acredito em um deus?

Aqui há um perigo muito grave. O conceito de deus pode ser tão deformado de suas origens cristãs (eu vou abordar as outras religiões, mas imagino que isso seja um subconjunto) que gera algumas interpretações curiosas. “Eu não acredito em deus, mas em uma energia”. “Eu não acredito em um deus de barba, mas em uma inteligência superior”. Tudo bem, fica realmente difícil refutar todas as interpretações deístas. Até porque se não há a possibilidade de refutar um deus já pré-estabelecido por uma organização religiosa, imaginem o que não seria ficar discutindo cada possibilidade.

A minha explicação quanto a quase todas as interpretações de “deus pessoal” com as quais eu tive contato é simplória. O ser humano tem um único problema: a consciência. A percepção de si mesmo gera uma angústia tremenda no Homo sapiens sapiens. Ao passo que ele se enxerga tão biológico e feral quanto qualquer animal, ele se isola pela capacidade de abstração. Não obstante a isso, ele passa a preencher essa lacuna existencial (afinal, esse é o problema do ser humano, perceber sua existência) com coisas variadas.

Freud, por exemplo, via o homem como um ser em transição. Como na evolução, as mutações ocorrem ao acaso, não necessariamente para o bem ou para o mal. Afinal, elas não são direcionadas. Assim pensava nosso amigo do cachimbo. O ser humano tem a cultura (que é um fruto da consciência, é só ligar os pontinhos) enquanto ainda retém particularidades animalescas.

A religião, de modo geral, preenche essa lacuna de forma soberba, porque ela é, até quando se insistir nisso, irrefutável. Ela apaga o sentimento de ansiedade porque ela dá uma resposta arbitrária. Remanescer crendo em um “deus-energia” me parece uma forma de manter-se preenchido por uma verdade absoluta. E admitamos: qualquer deus pessoal é irrefutável. Porém, há algo que esse tipo de pensamento não é capaz de oferecer, que é a dúvida.

O agnóstico tem a dúvida. E abdica dela. “50% de chance que existe, 50% de chance que não existe. Tanto faz”. Etimologicamente, a palavra é sutil. Agnose é negar o conhecimento. Em termos práticos, não se trata de enfatizar a existência ou não-existência, mas negar a capacidade de ser arbitrário. Negar uma verdade absoluta. Parece lógico estabelecer uma proporção de cinquenta por cento para cada lado. Tecnicamente, não.

Isso porque não hesitamos em ser ateus em relação a 99,99% dos outros deuses existentes. O que isso tenta provar? A porcentagem de chance de deus existir, ou não, depende da nossa formação cultural. Se emana de nós, seres humanos, totalmente falhos, a formação de uma religiosidade, eu vejo inúmeras razões para que ela provavelmente seja falsa. E por provavelmente falsa eu quero sugerir que a chance da sociedade estar errada, por mero retrospecto, é maior que 50%.

Não há razão para qualquer evento, apenas por ter duas possibilidades, ser distribuído equalitariamente. O embaço é puramente matemático. A chance de dar cara é, de fato, 50%. A chance de dar coroa, também, 50%. Porém, a chance de eu ter dedos na mão esquerda é a mesma de eu não os ter? Qualquer valor arbitrariamente deduzido será uma tolice. Aliás, curiosamente, a chance de eu ter dedos é substancialmente maior do que a de eu não ter. Afinal, eu estou digitando.

E esse é um dos pontos em que eu quero chegar. Estabelecer um valor arbitrário é tolo e não invalida que comprovações diminuam, sim, a chance de um evento delas dependente.


Matematicamente: deus = tangente de 90º

Tudo bem. Os subterfúgios matemáticos foram muitos, mas é claro que isso não invalida sua crença. Aliás, se você está esperando para ser plenamente convencido, lembre-se de que esse é o post de título “como e por que eu não acredito em deus”. São razões que me convenceram. Não há obrigatoriedade que você engula esse papo matemático.

Por que você se importa?

Porque a sociedade em que eu vivo acredita. Decisões que deveriam ser laicas são intrinsecamente relacionadas a ideias que eu julgo falsas. Eu me afeto com isso. Afinal o tabu para com o sexo é indissolúvel da maioria das crenças religiosas. É feio ser contra os cristãos? Reflita, mesmo sendo eticamente judaico-cristão, se é justificável matar um embaixador que nada tinha a ver por causa de um vídeo estúpido? Tudo isso amparado pelo invólucro no qual a religião é envolvido, afinal “não se discute futebol nem religião”.

O resultado é estupidez engolida sob o pretexto de manter o “respeito à religião”. Ora, se os conceitos de deus são tão tênues (para mim) como eu expus anteriormente, o que falar de diversas organizações que não são isentas do mau-caráter humano? E não me venha com discursos pró-religiões-hipsters porque eu faço das de José Saramago as minhas palavras, não sou eu quem devo julgar tão profundamente uma religião da qual eu não sou parte integrante, ainda que no espectro indireto. Saiba, entretanto, que o regime de karma cíclico budista tem impactos como, por exemplo: se alguém padece de alguma doença é porque ela fez algo em uma vida passada que a fez merecer isso.

É claro que as implicações desse tipo de pensamento estão longe da minha esfera de conhecimento e convívio, mas não é preciso ser nenhum expert para concluir que acontece algo muito parecido com o que se vê na Índia. O regime de castas subjuga uma população mesmo após o banimento da prática. Essa é a força da religião e esse é o motivo de eu me importar.

Eu poderia, sim, citar enxurradas de exemplos, mas esse é o tipo de coisa que pode ser feito por qualquer um. Deslanchar argumentos decorados é inútil se você não os entrelaçar. Eu tenho plena consciência de que algumas noções éticas minhas são fruto de uma sociedade cristã, mas isso não impõe que eu aceite o pacote de crenças completamente.

Acredito que consegui dar vazão a minha súbita vontade de exteriorizar esses pensamentos. Provavelmente fui fragmentário, mas tentei ser um pouco mais conciso que o usual e menos anedótico. Bem, se houverem dúvidas, raivas, cartas com antraz (nossa, a Wikipédia acabou de me ensinar que o nome da doença é carbúnculo, hahahaha), favor entrar em contato. Obrigado.

Por fim, acreditando ou não em deus, aprecie jenipapo!

O que diabos aconteceu com o ideal de homem renascentista? O renascimento.

O ideal de homem renascentista tinha cheiro de perfeição. Da Vinci foi engenheiro, matemático, escultor, pintor, arquiteto, vendedor de tangerinas, poeta, transão, cultivou uma barba respeitável, canhoto, enfim. Todo mundo sabe quem ele foi. E realmente espero não ter de conhecer algum Leonardo da Vinci. Deve ser, no mínimo, insuportável. No entanto, estou saturado do mundo das especializações. Se há algo que destruiu o renascimento foi as consequências dele.

Não é nenhum mistério que o renascimento foi o início de todo o processo que culminou na aparição de um sistema malvadinho que atende pelo nome de Coca Cola. E para completar a metáfora, no Papai Noel às avessas. A partir do momento em que houve uma congruência de fatores, uma antropocentralização (nossa senhora) da sociedade (aka Europa), os brioches que chegaram, acidentalmente, às “Índias”… enfim; a partir do momento em que todos esses fatores se acumularam, um sistema econômico emergiu.

Como é que Papai Noel não se esquece de ninguém? Só se for detentor do meio de produção, que, aí, perdão não tem…

Porém, o homem renascentista era um faz tudo. E em algum determinado momento, o econômico sobrepujou esse homem renascentista. Porque um faz tudo, ainda que não sejam todos que conseguem, é certamente perigoso. Não havia espaço suficiente para vários homens com cheiro de perfeição. Entenda: quando o acúmulo de capital se tornou o principal objetivo da humanidade, passou a ser interessante a fragmentação do conhecimento.

O que faz bastante sentido, na verdade. Afinal, como alguém seria capaz de lucrar com uma fábrica em que todos os operários dominassem todos os processos para obtenção do produto? Cedo ou tarde, leriam o livro do Papai Noel e veriam que podiam, eles mesmos, abrir uma fábrica – claro, o probleminha seria arrumar o maquinário, mas o impedimento físico é, talvez, menor que o intelectual. Mas não menor que o econômico. De qualquer maneira, as mãos peludas do Destino jogaram os dados e foi assim que aconteceu. O conhecimento se fragmentou.

Começou a era das especializações. O ideal de homem renascentista foi morto pelo renascimento. Porque o renascimento levou os homens a enfrentar o mar, sem medo de nada. O mar trouxe novos países. Os novos países, novos produtos. Os produtos, dinheiros. Os dinheiros precisavam de proteção. Contra a insurreição fabril, operários uni-vos, e toda aquela palhaçada. E uma geração apertadora de porcas foi criada.

Para não falar nas justificas filosóficas encontradas para isso. O positivismo, em si, tem aspectos risíveis. A divisão do conhecimento em caixinhas invioláveis e sem intercâmbio algum é o pior miasma da nossa educação. Um argumento que me convence de um modo muito sólido é a dificuldade que temos para delinear o que é inteligência. Eu estou bastante convencido que, dando-me uma página com 30 linhas, eu a preencheria com inumeráveis tipos de inteligência. Claro, nenhum embasamento técnico-científico seria utilizado, mas, afinal, é isso que eu estou criticando nesse texto. A burocracia da especialização que nos torna cegos.

Se eu acredito que capacidade de interpretar relações sociais é uma inteligência? Claro. Se eu acho boa memória um tipo de inteligência? Óbvio. Se eu considero a perícia em domesticação de anões uma espécie de inteligência? Acho, no mínimo, que deveria ser levada à pauta para uma possível inclusão no rol de matérias obrigatórias no ensino fundamental. Eu poderia discorrer por décadas sobre os meus achismos sobre a inteligência, mas esse não é o ponto principal do texto. Há uma palavra que eu prefiro, em detrimento do excessivamente longo “ideal de homem renascentista”. Conhecimento holístico. Eu sei, é lindo.

Você chega em casa e abre o jantar dizendo que espera que um dia o mundo seja orientado a um conhecimento holístico e não mais o fragmentário modelo positivista. Claro, provavelmente ninguém vai te ouvir, porque os jantares não são mais o momento de reunião familiar, onde todos trocariam olhares constrangidos ao ver o patriarca humilhar a mãe. Mas calma. Ensaie um pouco enquanto limpa o macarrão que caiu no notebook e no colchão, enquanto sua mãe come na sala, assistindo televisão. Com sorte será o momento do intervalo e alguém possa ouvir sua epifania filosófica.

Porém, o que esse lindo termo significa é algo que venho defendendo durante todo o texto, praticamente. Embora a tiração de sarro com o Karl Marx tenha motivos políticos muito maiores que eu (Illuminatis e tudo mais), o objetivo principal do texto é oferecer uma perspectiva de mudança comportamental. Eu deixei, há muito, de acreditar no conhecimento retido em uma caixa, abandonado às traças. Eu deixei de valorizar apenas o conhecimento acadêmico. Eu passei a olhar com desconfiança para intelectualismos. Porque, afinal, qual é o problema em saber fazer malabarismo? Dedicar algumas horas da sua vida para empilhar copos? Nenhum. Qual é o problema em decorar fatos absolutamente inúteis, porém incrivelmente curiosos? Nenhum. Aliás, é o contrário.

O conhecimento transcende academicismos. Transcende a decoreba. Sim, aquele liferuler que você odeia, que usa camiseta polo e vai para a balada country é mais inteligente que você em matéria de… é… quem sabe conquista de damas fáceis. Não é legal ter orgulho de ser nerd virgem. Isso é só um amuleto para fazer a sua miserabilidade mais suportável. Se afiançar à sua virgindade (e não se trata apenas de sexo, mas virgindade social) é indício de uma deficiência, goste você ou não, intelectual. E para você que tem mais medo de palavras do que de vampiros, eu tenho um argumento muito contundente contra essa chatice de politicamente correto que parece tornar impossível piadas com anões, por exemplo.

Aqui vai o argumento

Existem algumas pesquisas bastante significativas que apontam que nosso cérebro não distingue física quântica aplicada ao movimento rotacionário de um peão metálico em uma superfície esférica levemente carregada negativamente e aquela missa premiada. Em questão de chatice, claro. E para quem não sabe o que é uma missa premiada: você vai à missa uma vez por mês. E deu o azar de ela ser presidida pelo bispo, que leva seis minutos para levantar a taça de vinho de Jesus e exatos treze segundos para cada amém. Essa é a missa premiada.

Há hipóteses de que seu cérebro é mais desafiado com coisas idiotas, como usar o relógio na mão contrária, do que com o aprendizado fragmentário dos positivistas. Fazer coisas novas dá uma sensação de cócegas cerebrais. Sério. Mudar a cama de lugar duas vezes por semana cria novas sinapses em você. Eu não vou provar porque não posso, mas é fácil encontrar leituras que ao menos sustentam teorias mais fundamentadas.

Assim, perdemos muito nos bitolando. Isso não se aplica apenas à formação acadêmica e profissional. Mas à vida. E com palavras tão motivadoras, eu sugiro algo diferente para você. Uma reascensão do belo ideal de homem renascentista. Vamos apreciar a o conhecimento em todas as suas facetas. Inclusive na beleza anã!

Nunca esqueceremos de você!

Mais curto, impossível

José Saramago usa a clássica alegoria de Platão no romance A Caverna. Entretanto, a abordagem de Saramago é mercadológica, uma vez que usa a metáfora da caverna como sendo um grande centro comercial. Esse, simboliza o capitalismo globalizado que oferece todas as comodidades possíveis, ao o custo da liberdade. No entanto, esse aprisionamento, para alguns, é voluntário, diferente do mito de Platão. Dessa maneira, a obra de Saramago ecoa na realidade brasileira, uma vez que a sociedade se mostra aprisionada voluntariamente. Todavia, não apenas os benefícios pela globalização e suas tecnologias, potencializados pela mídia, são fatores de alienação. Isso pois a educação não é tão eficiente. Assim, a sociedade, deslumbrada com aquilo que é prometido pelo sistema econômico, mas sem senso crítico, perde a distinção entre ideia e produto. Portanto, o maior problema não é apenas a massificação das ideias, mas o fato de essa massificação ter sido vendida.

Conversa vaga sobre os sonhos

Os sonhos são estranhos. Neles, mecanismos, aparentemente banais, não funcionam como deveriam. Tome, por exemplo, os espelhos. Quando esses objetos surgem em um sonho, em geral, a reflexão não ocorre normalmente. Há relatos que fazem referência ao funcionamento estranho de objetos como celulares, botões, interruptores, nos sonhos. Mas por que isso ocorre, exatamente?

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O tio RENÊ manjava tanto que fez a pintura perfeita para ilustrar o post. Obrigado.

Bem, em uma análise simplória, não há uma relação direta entre causa e consequência nesses objetos. O mecanismo que serve de intermediário entre a causa (apertar um botão) e a consequência (uma letra aparecer na tela) está escondido dentro do aparelho. É preciso racionalizar, fazer uma análise consciente, para que você enxergue uma correlação entre as situações. Caso não haja essa racionalização, que pressuponha os mecanismos ocultos, esses atos parecem independentes. Aplicando a mesma ideia aos sonhos, é compreensível por que botões e espelhos não funcionem: a maior parte da lógica dentro dos sonhos é empregada para tomar decisões e escolhas.

É por isso que os sonhos nos causam uma sensação de falta de controle. Muito se discute quanto ao papel que eles exercem, desde organização dos acontecimentos diários até a possibilidade de prever algumas situações. Um exemplo pode ser o comum sonho de “estar sendo perseguido”. Ao simular essa situação em um sonho, o nosso cérebro (uma porção normalmente inconsciente) estaria nos preparando para a possibilidade de isso ocorrer de fato.

Em geral, durante um sonho, como em nossas vidas, nós não aplicamos lógica ou pensamentos para controlar a mecânica ou a física dos sonhos. É por isso que a impressão que se tem é a de que os sonhos são quase completamente incontroláveis. E justamente um dos desejos mais naturais é poder subverter a física e, por exemplo, voar. Porém, assumir o controle dessa porção dos sonhos significa ter um sonho lúcido. E é aí que as coisas tomam maiores proporções.


Se fosse um sonho, o Sílvio Santos não teria encharcado o terno

Um sonho lúcido é, grosso modo, exatamente o que o nome sugere. Assumir o controle, não apenas de uma parte das situações sonhadas, mas da plenitude das ações orquestradas. Há várias maneiras de se atingir um estágio de dreaming awareness. Algumas, os reality checks fazem uso de uma lógica imbatível: você escolhe um lembrete, uma ação, atitude, qualquer coisa, de que está consciente. Isso funciona, porque a consciência é um estado tão banal, que não nos atentamos a ela. Assim, estralar os dedos toda vez que passa por uma porta, beliscar-se e dizer “estou sonhando”, podem funcionar como gatilhos para a consciência no sonho. Outros métodos semelhantes podem ser perceber se aparelhos eletrônicos apresentarem algum funcionamento esquisito.

Isso faz completo sentido, mas é difícil de ser praticado. Outra dica é a indução. Ler esse texto pode fazer com que você tenha um sonho lúcido. Isso acontece porque, à medida em que você lê sobre o assunto, passa a desejar experimentar isso. De modo que, em um sonho, qualquer coisa esquisita pode te fazer lembrar do assunto sonho lúcido e, bam, aí está você. Consciente de que está sonhando. E o que você vai fazer? Voar.


Se fosse um sonho lúcido, o Sílvio Santos estaria fazendo isso

Entretanto, com o passar dos sonhos lúcidos (não que eu tenha experimentado mais do que zero, se levada em consideração as durações das minhas “experiências”), propósitos mais interessantes parecem surgir. O fato é que a exploração de paradoxos (por exemplo, sonhar dentro de um sonho, suicidar-se), exploração da capacidade de imaginação (um diálogo entre você, Einstein e seu cachorro, personificado na voz de Eddie Murphy, vinda de uma nuvem ao pôr-do-sol), exploração da capacidade de raciocínio (tentativa de fazer cálculos matemáticos; imaginar uma aula, personificando um professor – e provando que você sabe a matéria, precisa apenas aflorá-la). Enfim, as possibilidades são infinitas.

Inclusive, eu ouso afirmar que a aquisição da capacidade de controle dos sonhos significaria para a humanidade um salto quântico em desenvolvimento. Paradoxalmente, o sono R.E.M. (rapid eye movement) é o que mais revigora, em relação ao cansaço físico. O R.E.M. é caracterizado por, como o nome diz, movimentos rápidos nos olhos. Mas não apenas isso. A atividade muscular é tão reduzida, que acontece a paralisia do sono. É nessa fase que todo o cansaço é expurgado do seu corpo e causa a renovação que o faz saltar da cama como uma gazela na manhã seguinte. Estranhamente, esse é o pico de atividade cerebral e, por conseguinte, o espaço de tempo em que os sonhos são mais frequentes.

Essa disparidade entre atividade cerebral x atividade muscular, durante o R.E.M., pode fazer com que você experiencie um acordar súbito (até mesmo com a abertura dos olhos), mas com sua capacidade de movimento voluntário reduzida a zero. Como, por um acaso, a sua respiração é uma atividade muscular, há uma estabilidade no padrão de respiração. Mesmo que você ache que não, estar acordado te dá um certo controle sobre sua própria respiração. No caso de um despertar durante o R.E.M. a sensação aterradora é de uma pressão que impede você de controlar sua respiração.


Isso era aterrorizante em 1781 quando um tal de Fuseli pintou esse quadro.

Ora, mas o que isso quer dizer? É que, basicamente, repousar (no sentido físico) não implica necessariamente em abandonar o exercício mental. Uma humanidade que sonhe conscientemente durante toda a noite, é uma humanidade que, conscientemente, não dorme. 24 horas por dia. Pense nos desdobramentos disso para as ciências e artes. Entretanto, é necessário compreender que há a necessidade de um descanso mental… ou será que não?

A rigor, o cérebro não para. Ok, agora eu deveria contar algo que realmente fosse impactante. O fato é que algumas hipóteses apontam o R.E.M. como principal renovador/descanso do cérebro. Seria, portanto, durante o R.E.M., e durante os sonhos, que toda a informação diária seria processada e filtrada. O que, aliás, faz muito sentido à luz das teorias freudianas. A manifestação de informações pessoais desconhecidas (uma vez que o volume de dados que armazenamos nunca é percebido de maneira totalitária) durante o sonho é lógica. Como alguém que arruma um armário velho, jogando as coisas em caixas, algumas coisas que nunca prestamos atenção podem ser encontradas.

Por isso. Chega de falar. Vamos dormir.


Para Freud isso pode significar duas coisas: você tem traumas sexuais.

Uns pensamentos (não tão conexos) sobre a morte

Morrer não é tão complicado quanto parece. Essa frase, por mais esquisita que possa ser, é correta em múltiplas interpretações. Morrer é fácil, da probabilidade ao momento. Basta pensar que as chances de você morrer a caminho de uma lotérica provavelmente são maiores do que os de ganhar na Mega-Sena. A consciência de estar vivo é o que torna a morte um problema. Vamos pensar culturalmente:

Um elo entre a maior parte das religiões (e a maioria das manifestações culturais) é a morte. Há as que explicam, há as que temem, há as que incentivam, mas sempre existe a presença desse fantasma, com o perdão do trocadilho. De um ponto de vista bioquímico literal a morte nem sequer existe, e, mesmo permeado por aquele cientifismo tragicômico, por que Augusto dos Anjos não deixava a morte em paz?

A morte, para mim, é um dos assuntos que melhor ilustra a inclinação projetiva do ser humano. Seja qual for o motivo, ao você achar graça em um cachorro que “fala”, ter fetiches antropomórficos ou mesmo enxergar rostos em todos os lugares, o ser humano se projeta de uma maneira meio bizarra em lugares que essa projeção não é possível. Não é a toa aquela história de “Nosso Lar”, não é a toa aquele deus barbudo, não é a toa a sucessão cíclica budista, céus, infernos… não conseguimos nos desvencilhar da nossa vida nem mesmo na morte.

Quando eu era criança, tinha uma visão peculiarmente inocente sobre o que era o “céu”. Para mim, além do “fato” de que os Mamonas Assassinas eram anjos (eles eram “anjos” do humor, que vieram passar uma mensagem de tolerância policultural. Eu já era um poço de contradição ainda imberbe), nada me dava mais prazer celestial do que imaginar que o céu seria um lugar cheio de botões onde você apertaria desejando algo e ela se materializaria em sua frente. Aos nove anos fazia bastante sentido querer uma piscina de Kinder Ovo.

O tempo passou, vieram também traumas, envolvendo a “existência” de espíritos, que roubaram minhas noites (talvez mascarando uma carência afetiva, mas isso é assunto para outro texto) e em um belo dia eu decidi duvidar de tudo que tinha sido dito. E acredite-me: isso me tornou uma pessoa melhor. Não estou sugerindo que o mesmo deva acontecer com você, aliás, é exatamente o contrário. Conheço pessoas que se dão incrivelmente bem com religiões ou a falta delas e os motivos sempre divergem. E isso é algo muito interessante.

Minha guerrilha ateia ficou em hold-on, mas a incapacidade do ser humano de lidar com coisas intangíveis não. O que acontecia antes de você nascer? Pronto. É exatamente a esse estado de não-existência que eu imagino retornar quando morrer. E não há nada de ruim nisso. Porque, ao contrário de muitas religiões e inclusive o budismo, você não é aterrorizado ou pressionado com um julgamento, com karma, com isso com aquilo. Eu não vivo minha vida como se não houvesse amanhã, céus, eu procrastino, eu durmo, eu rio, mas eu não me sinto culpado por aproveitar todas essas partes dela.

O homem se coloca em uma posição tão elevada, não é a toa que a representação maior humana (deus) está no ponto mais alto. Somos a imagem e semelhança da criatura mais foda do universo, quer algo a mais? É por isso que o fim dói tanto aos nossos olhos. O estranho é que justamente por essa mitologia post-mortem de muitas religiões, as pessoas que acreditam em uma pós-vida agarram-se como se não houvesse amanhã à vida (embora duvide que muitas delas realmente a aproveitem). Pode parecer meio triste, mas se você nascer e morrer em meio a uma floresta e nunca conhecer ninguém, você não vai ter existido. É a resposta à pergunta “se uma árvore cai em uma floresta e ninguém escuta [mas também nunca obtém conhecimento dela], ela realmente esteve de pé?”.

Pode contrariar o “bom senso”, mas uma resposta “sim” pode afirmar a existência de todos os fenômenos improváveis (no sentido estrito). Opa. Isso soa familiar.

Outra coisa curiosa é que você não existe para você mesmo conscientemente até uns sete anos. Tudo o que você pode ter são memórias esparças, já corroídas e fantasiadas e outras coisas que você “descobriu” que fez. No entanto, embora inconscientemente, traumas que aconteceram até essa época podem ter consequências permanentes em você.

O fato é que se você olhar com atenção para os ecos de pós-vida da sociedade, elas invariavelmente esbarram em uma humanidade suspeita. Aquela assinatura característica das invenções humanas dá um certo desânimo, eu confesso, mas há conforto por ali. Não é mais simples reconhecer que a vida, como se “conceituou”, como sobrepuseram quilos e quilos de imaginário, talvez não exista efetivamente. Reconhecer-se como filho do carbono e do amoníaco é muito deprimente. Até você descobrir que pode fazer uma piscina de Kinder Ovo.

Aceite que você nunca terá o prazer de provar desse tutano