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O que diabos aconteceu com o ideal de homem renascentista? O renascimento.

O ideal de homem renascentista tinha cheiro de perfeição. Da Vinci foi engenheiro, matemático, escultor, pintor, arquiteto, vendedor de tangerinas, poeta, transão, cultivou uma barba respeitável, canhoto, enfim. Todo mundo sabe quem ele foi. E realmente espero não ter de conhecer algum Leonardo da Vinci. Deve ser, no mínimo, insuportável. No entanto, estou saturado do mundo das especializações. Se há algo que destruiu o renascimento foi as consequências dele.

Não é nenhum mistério que o renascimento foi o início de todo o processo que culminou na aparição de um sistema malvadinho que atende pelo nome de Coca Cola. E para completar a metáfora, no Papai Noel às avessas. A partir do momento em que houve uma congruência de fatores, uma antropocentralização (nossa senhora) da sociedade (aka Europa), os brioches que chegaram, acidentalmente, às “Índias”… enfim; a partir do momento em que todos esses fatores se acumularam, um sistema econômico emergiu.

Como é que Papai Noel não se esquece de ninguém? Só se for detentor do meio de produção, que, aí, perdão não tem…

Porém, o homem renascentista era um faz tudo. E em algum determinado momento, o econômico sobrepujou esse homem renascentista. Porque um faz tudo, ainda que não sejam todos que conseguem, é certamente perigoso. Não havia espaço suficiente para vários homens com cheiro de perfeição. Entenda: quando o acúmulo de capital se tornou o principal objetivo da humanidade, passou a ser interessante a fragmentação do conhecimento.

O que faz bastante sentido, na verdade. Afinal, como alguém seria capaz de lucrar com uma fábrica em que todos os operários dominassem todos os processos para obtenção do produto? Cedo ou tarde, leriam o livro do Papai Noel e veriam que podiam, eles mesmos, abrir uma fábrica – claro, o probleminha seria arrumar o maquinário, mas o impedimento físico é, talvez, menor que o intelectual. Mas não menor que o econômico. De qualquer maneira, as mãos peludas do Destino jogaram os dados e foi assim que aconteceu. O conhecimento se fragmentou.

Começou a era das especializações. O ideal de homem renascentista foi morto pelo renascimento. Porque o renascimento levou os homens a enfrentar o mar, sem medo de nada. O mar trouxe novos países. Os novos países, novos produtos. Os produtos, dinheiros. Os dinheiros precisavam de proteção. Contra a insurreição fabril, operários uni-vos, e toda aquela palhaçada. E uma geração apertadora de porcas foi criada.

Para não falar nas justificas filosóficas encontradas para isso. O positivismo, em si, tem aspectos risíveis. A divisão do conhecimento em caixinhas invioláveis e sem intercâmbio algum é o pior miasma da nossa educação. Um argumento que me convence de um modo muito sólido é a dificuldade que temos para delinear o que é inteligência. Eu estou bastante convencido que, dando-me uma página com 30 linhas, eu a preencheria com inumeráveis tipos de inteligência. Claro, nenhum embasamento técnico-científico seria utilizado, mas, afinal, é isso que eu estou criticando nesse texto. A burocracia da especialização que nos torna cegos.

Se eu acredito que capacidade de interpretar relações sociais é uma inteligência? Claro. Se eu acho boa memória um tipo de inteligência? Óbvio. Se eu considero a perícia em domesticação de anões uma espécie de inteligência? Acho, no mínimo, que deveria ser levada à pauta para uma possível inclusão no rol de matérias obrigatórias no ensino fundamental. Eu poderia discorrer por décadas sobre os meus achismos sobre a inteligência, mas esse não é o ponto principal do texto. Há uma palavra que eu prefiro, em detrimento do excessivamente longo “ideal de homem renascentista”. Conhecimento holístico. Eu sei, é lindo.

Você chega em casa e abre o jantar dizendo que espera que um dia o mundo seja orientado a um conhecimento holístico e não mais o fragmentário modelo positivista. Claro, provavelmente ninguém vai te ouvir, porque os jantares não são mais o momento de reunião familiar, onde todos trocariam olhares constrangidos ao ver o patriarca humilhar a mãe. Mas calma. Ensaie um pouco enquanto limpa o macarrão que caiu no notebook e no colchão, enquanto sua mãe come na sala, assistindo televisão. Com sorte será o momento do intervalo e alguém possa ouvir sua epifania filosófica.

Porém, o que esse lindo termo significa é algo que venho defendendo durante todo o texto, praticamente. Embora a tiração de sarro com o Karl Marx tenha motivos políticos muito maiores que eu (Illuminatis e tudo mais), o objetivo principal do texto é oferecer uma perspectiva de mudança comportamental. Eu deixei, há muito, de acreditar no conhecimento retido em uma caixa, abandonado às traças. Eu deixei de valorizar apenas o conhecimento acadêmico. Eu passei a olhar com desconfiança para intelectualismos. Porque, afinal, qual é o problema em saber fazer malabarismo? Dedicar algumas horas da sua vida para empilhar copos? Nenhum. Qual é o problema em decorar fatos absolutamente inúteis, porém incrivelmente curiosos? Nenhum. Aliás, é o contrário.

O conhecimento transcende academicismos. Transcende a decoreba. Sim, aquele liferuler que você odeia, que usa camiseta polo e vai para a balada country é mais inteligente que você em matéria de… é… quem sabe conquista de damas fáceis. Não é legal ter orgulho de ser nerd virgem. Isso é só um amuleto para fazer a sua miserabilidade mais suportável. Se afiançar à sua virgindade (e não se trata apenas de sexo, mas virgindade social) é indício de uma deficiência, goste você ou não, intelectual. E para você que tem mais medo de palavras do que de vampiros, eu tenho um argumento muito contundente contra essa chatice de politicamente correto que parece tornar impossível piadas com anões, por exemplo.

Aqui vai o argumento

Existem algumas pesquisas bastante significativas que apontam que nosso cérebro não distingue física quântica aplicada ao movimento rotacionário de um peão metálico em uma superfície esférica levemente carregada negativamente e aquela missa premiada. Em questão de chatice, claro. E para quem não sabe o que é uma missa premiada: você vai à missa uma vez por mês. E deu o azar de ela ser presidida pelo bispo, que leva seis minutos para levantar a taça de vinho de Jesus e exatos treze segundos para cada amém. Essa é a missa premiada.

Há hipóteses de que seu cérebro é mais desafiado com coisas idiotas, como usar o relógio na mão contrária, do que com o aprendizado fragmentário dos positivistas. Fazer coisas novas dá uma sensação de cócegas cerebrais. Sério. Mudar a cama de lugar duas vezes por semana cria novas sinapses em você. Eu não vou provar porque não posso, mas é fácil encontrar leituras que ao menos sustentam teorias mais fundamentadas.

Assim, perdemos muito nos bitolando. Isso não se aplica apenas à formação acadêmica e profissional. Mas à vida. E com palavras tão motivadoras, eu sugiro algo diferente para você. Uma reascensão do belo ideal de homem renascentista. Vamos apreciar a o conhecimento em todas as suas facetas. Inclusive na beleza anã!

Nunca esqueceremos de você!