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Um post sobre segurança na internet (para ser lido em uma voz-interior paternal e conselheira)

Olha, eu realmente sentia que deveria jogar no fogo naquele pedaço de papel verde que está jogado em algum canto da casa, caso eu não escrevesse esse post. Se aquilo (o RG, para os que não pegaram a metáfora) é a documentação física da nossa cidadania (ou seria o título de eleitor? ou os comprovantes de votação? quem saberá?), acho que me abster de escrever esse post me forçaria a tacar fogo nela.

O recado é bastante simples: tome cuidado com seus dados pela internet. Em recentes incursões, descobri que é bastante fácil, com o auxílio do Google e de um pouco de lógica, angariar não apenas dados levianos, mas coisas que poderiam ser bastante prejudiciais se usadas por alguém mal intencionado. Esse post é mais para repensarmos algumas situações que nos deixam bastante expostos, então vamos lá:

A maldita TeleListas.net é um ótimo ponto de partida. Esse site é um compêndio de dados que incluem seu telefone e seu endereço. Acredite, eu faria o mínimo de esforço de, se seus dados estiverem por lá, entrar em contato por aqui para pedir a exclusão. Entretanto, se você foi atento o suficiente para ler o rodapé, saberá que esse esforço pode ser em vão. Isso porque a maldita lista é atualizada automaticamente e seus dados podem ser reincluidos. Para a exclusão definitiva, é claro, é preciso ter mais dor de cabeça.

Esse é o momento em que parece dúbio se realmente vale a pena se preocupar com isso. Acontece que esses dados podem ser um ponto de partida valioso. Gente com sobrenome peculiar, como eu, costuma ser bizarramente fácil de encontrar, tanto em redes sociais, como em qualquer busca simples. Não sei quanto a vocês, mas apenas o fato de que alguém pode ter fácil acesso ao endereço da minha casa já me parece uma justificativa bastante plausível.

outro-estranho-no-ninho11Essa é a metáfora imagética para ter um sobrenome peculiar

De posse de um nome e de um endereço, qualquer um pode fazer uma ligação e se passar por uma empresa de qualquer coisa pedindo uma confirmação de dados. Pode parecer bobo, mas a maioria de nós nem sequer atentaria para a possibilidade de ser um golpe. Parece incrivelmente óbvio agora, porém tente realmente se imaginar em casa, quando o telefone toca.

A pessoa informa que é da empresa X, provavelmente uma que realiza tratamento de água ou fornecimento de energia elétrica na cidade (visto que há grandes chances de você ser cliente dela), informa seu nome completo, seu endereço e pede seu RG e o CPF. É complicado, mas sem nenhum aviso prévio, não há razões para desconfiar.

Tudo bem, imaginemos que você não caia no golpe do recadastramento. Faça uma busca pelo seu nome completo pelo Google, usando aspas. Pode ser que nada retorne, mas há alguns resultados potencialmente perigosos. Processos judiciários, em alguns casos, são indexados pelo Google. E adivinhe: um desses costumes da nossa justiça é se referir às partes do processo como “brasileiro, branco, 43 anos, portador do RG tal, viúvo, vendedor de cachorro quente”.

Agora olha que interessante: com um pouco mais de paciência, ou sorte, seu stalker pode descobrir que você prestou algum concurso público ou vestibular. O bizarro site da UEM divulgou a lista de todo mundo que prestou vestibular. Com as notas. Tá lá. Em um dos listões da ACAFE, como se esse vestibular não fosse bizonho o suficiente, estavam lá os RGs da rapazeada. Infelizmente não consegui achar o link, mas estou praticamente certo de que estava lá.

Não parece preocupante? Pois imagine a seguinte situação: eu descubro o endereço e telefone de uma senhora com um distinto sobrenome. Depois, descubro, acessando um Facebook da vida, que a donairosa mulher tem uma filha. Pasmém! Em idade vestibulável. Um Google no nome da menina revela o RG da garota, que passou em um vestibular há algum tempo. Seu Facebook, porém, revela que ela continua fazendo cursinho. Hmm, será que Pedagogia não era o sonho dela?

Pelo que parece, não. Afinal, todos os posts públicos do perfil da menina falam sobre “Medicina da Depressão”. Vestibulanda de Medicina, então. Provavelmente passa o dia fora, estudando. Isso ou não vai nem tangenciar a nota de corte. Ligar em horário comercial é um potencial indício de que a menina vai estar na rua. E mais: sabendo onde fica o cursinho, dá a dica dos lugares frequentados pela menina.

E para que tudo isso? Basta um telefonema para a nossa mamãe, com um tom ameaçador e algumas gírias indecorosas para deixá-la assustada. Jogar dados como o RG ou falar que “pegou a menina saindo do cursinho e levou embora no carro”, em um estado de choque gerado por um anúncio de sequestro via telefone, faria qualquer pessoa se aterrorizar. Falar que a menina está implorando para não ser morta porque não quer perder o sonho de ser médica faria o mais racional dos pais molhar as calças.

I+don+t+know+who+you+are.+I+don+t+know+what+_b40790232cf1ab8b3e4303946a342135“Nóis tá com teu filho. Tá feio pra caralho nesse RG aqui. Precisa que fale o número da fita ou cê vai depositar logo a grana? Tá chorando igual mocinha aqui. Olha que eu corto a orelha dele. Heim. Vai ficá igual ao Van Gogh tirando a parte de ser um pintor de tendências impressionistas de sucesso póstumo porque ele vai tar morto bem antes disso. Morô?”

É fácil analisar todos os pontos furados dessa história na frieza de uma cadeira desconfortável, com um calor desanimador e o tédio corroendo. Eu fico imaginando se o racionalismo funciona tão bem sob a ameaça da morte de um filho. A quantidade de dados que podem ser retirados de maneira, até onde eu saiba, completamente legal, apenas fuçando sites de busca e de relacionamentos é infindável.

Acompanhar qualquer Twitter ou Facebook público faz você saber coisas tão pessoais sobre o usuário, que apenas alguém muito próximo teria conhecimento. As pessoas enxergam o computador como uma extensão da própria rede de amizades, o que é verdade, mas sem atentar à exposição pública. É particularmente conveniente que eu faça esse post, porque o Facebook acabou de promover modificações que facilitam, e muito, um maior controle acerca do que se expõe na rede social.

O @acabei pode ser testemunha de que mesmo com um nome comum é possível encontrar coisas como um vídeo em que ele toca triângulo em um evento de escola maravilhoso. Imagine se a pior coisa que pudessem encontrar de você não fosse um ingênuo e inocente episódio de solo de idiofone triangular, mas coisas… piores.

Isso foi, em parte, motivado por uma reflexão que acabou me acometendo. Eu, que sempre fui partidário da ideia de exposição máxima, de que a configuração “Público” do Facebook era algo incentivável, estou revendo esses conceitos. Porque de certa forma as coisas estão ficando perigosas. Eu não me refiro apenas a ameaças de sequestro. Há toda uma sorte de possibilidades que envolvem uso de dados pessoais.

E há uma razão para que esses dados recebam esse adjetivo. Foi-se o tempo em que o pessoal se cadastrava no Orkut com e-mail que não existia e a rapazeada ia lá, criava o e-mail, e roubava a conta da pessoa. Hoje, qualquer pessoa com tempo livre e um pouco de raciocínio lógico consegue descobrir coisas que poderiam ser empregadas a fins mais obscuros do que atualizações de status que dizem “eu sou gay”.

142998488Melhor deletar a conta do Flogão, não é verdade?

Acho que é tempo de fazer uma busca por seus nicks antigos, dar um jeito de deletar aqueles Flogões e fazer algumas alterações no perfil do Facebook. Pode ser que isso salve sua vida. Espero que você tenha usado uma voz mental, para ler esse post, que soasse como a voz de um ancião transmitindo um conselho valiosíssimo. Porque tirando a parte do ancião, a outra também é mentira.

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