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Rápido comentário sobre oito livros

THE NAKED LADY WHO STOOD ON HER HEAD
Garry Small, Gigi Vogan

O livro dispõe (numa interessante ordem cronológica) casos psiquiátricos errr… excêntricos e curiosos. A linguagem é simples e precisa. Há elementos claramente maquiados ou mesmo criados, para tornar as histórias mais atraentes, mas isso não tira o mérito do livro. É uma leitura interessante. Um livro leve, sem ser leviano. Diferente de outros
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O CONCORRENTE
Stephen King

O livro é muito rápido. Não sei se tem outra maneira de ler sem sair devorando as páginas. A narrativa é empolgante e tem uma cena de intestinos de fora em um avião. O thrill já fica claro na forma como os capítulos são dispostos, como em um countdown. Eu já comentei uma cena de intestinos de fora?
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A DANÇA DA MORTE
Stephen King

Puta que livro foda. Depois da Torre eu não pensava que iria experimentar a sensação (incrível) de ler uma narrativa épica tão cedo. Sem chatices de definições literais. É um livro enorme, com personagens incríveis. A atenção dada às múltiplas tramas, às situações, a tudo, faz com que você termine o livro, depois de já acostumado a viver, por tabela, o caos pós-apocalíptico retratado e pense: e agora? Como eu vou viver? Ou te faça desejar uma pandemia 99% letal. Provavelmente a última opção.
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EVERYTHING’S EVENTUAL
Stephen King

São 14 contos (uns algo mais que contos). O primeiro, quase um revival da morte do Rodrigo Santoro no Lost, é desconcertante. Seguido pela figura sempre oportuna de Satã e um pobre menino. O terceiro é um dos mais densos. Curiosamente nesse conto tem uma incrível menção às frases de banheiro. Os próximos dois contos têm “Death” no título original. Ambos interessantíssimos, embora eu prefira o primeiro. E agora dois que merecem uma pausa.

The Little Sisters of Eluria é um spin-off da Torre Negra que sei lá como eu ainda não tinha lido. Não vai fazer tanto sentido se você não conhece a série, mas puta merda, que narrativa incrível. Eu soube que tem uma HQ contendo essa história e sinceramente eu mal posso esperar para ler. Everything’s Eventual dá nome ao livro por um motivo simples: é muito foda. A ideia é genial e parte do prazer está em descobrir aos poucos algo que eu antecipei, mas poderia ser imaginado na primeira página: o conto é foda demais.

Após esse conto, um que é pouco menos jawdropping. Mas o livro retoma o fôlego e os 6 últimos textos são absolutamente incríveis. Para um comentário rápido, está ficando prolixo demais. Leia.
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MADAME BOVARY
Gustave Flaubert

Outro livro que eu não sei onde eu tava com a cabeça por ainda não ter lido. A narrativa se enrola um pouquinho em um ou outro trecho, mas basta ter frequentado o ensino médio para lembrar o porquê. A história é interessante e reúne todos os elementos para fazer um bom livro. Traição, romance e uma cirurgia em um cara com o pé torto. E é claro que a cirurgia dá errado.
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O RETRATO DE DORIAN GRAY
Oscar Wilde

Esse livro tem um ritmo mais interessante que o Madame Bovary e personagens mais densos. O apelo filosófico do texto é incrível, tanto no seu tema principal, como através, principalmente, de Lord Henry e seus paradoxos. A ideia do retrato poderia ter sido uma ideia do Stephen King, porque, vamos combinar, ela é bem assustadora. Um daqueles livros que dispensa o meu comentário de recomendação.
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TEMPO DAS FRUTAS
Nélida Piñon

Se enquanto eu escrevo esse texto essa senhora não bater as botas, gostaria de deixar claro que considero ela um dos melhores contistas(?)/cronistas(?)/cadê os acadêmicos de letras(?) vivos. Essa mulher foi a escritora que melhor conseguiu executar uma das funções iniciais da poesia: a expressão de emoções. É uma leitura muito densa. Você sente que ela está brincando com você através das palavras. Por quê? Porque ela pode. Ah, vale lembrar também a imagética forte, a recorrente visão feminina (será que ela é a nova Clarice? Vamos citar Nélida Piñon no Facebook) e a universalidade dos textos. É isso.
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ADMIRÁVEL MUNDO NOVO
Aldous Huxley

Hoje é o dia dos livros-que-eu-já-deveria-ter-lido-há-muito-tempo-e-não-sei-por-que-só-fui-ler-agora. Com esse eu fechei a tríade distópica (os outros são 1984 e Laranjinha do Burgess). Claro que tem outros livros mas eu entendo por que o pessoal agrupou esses três. Eles são como três flechas que saem do mesmo ponto mas tomam rumos distintos. Orwell e Huxley são mais estruturais, debatem os aspectos do funcionamento da sociedade em suas distopias. Burgess mostra um lado mais individual, psicológico e social. Mantêm, sim, pontos comuns, como a preocupação linguística.

Mas enfim. Falando especificadamente de Admirável, a narrativa tem fluidez e empolga. A reserva dos selvagens, o soma, o entretenimento pago e, principalmente, o sistema de castas temperado com conhecimento biológico são aspectos que diferem o livro de Huxley das outras distopias.
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gifcertoVocê depois de ler esses maravilhosos livros

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Rápido comentário sobre três livros

A Insustentável Leveza do Ser – Milan Kundera – 5/5
A narrativa é capaz de nos impor o fardo do questionamento e nos elevar. Simultaneamente. Questionar o que é traição, sexualidade, amor. Uma abordagem com um fardo filosófico, mas com a leveza única da literatura. O enredo é um mero palco, porque a verdadeira peça ocorre nas reflexões do narrador e das personagens. E como não se apaixonar por elas? A vontade era de sublinhar o livro inteiro, mas eu consegui me conter. Mais ou menos.

Sete Gatinhos – Nelson Rodrigues – 5/5
Dos livros que li do autor, até agora, esse foi o mais intenso. Pode não ter sido o mais impactante ou chocante. Mas foi intenso. A sensação de, como descreveu Flávio Aguiar, autor do excelente roteiro de leitura para o livro, banalização do grotesco é o ponto principal da obra. O “nada mais nos surpreende” saiu dos palcos e hoje é nosso modo de vida. Fora que as personagens, nessa obra, em específico, são inesquecíveis. E se não parecem motivos suficientes, clique aqui para saber o que o Lima Duarte pensa sobre desenhos no banheiro.

Mentes Perigosas – Ana Beatriz Barbosa Silva – 1/5
O livro queria ser leve. Acabou sendo leviano. A autora exagera em simplificações, é redundante e os exemplos, francamente. O que são aqueles exemplos? Joga areia em uma discussão muito importante (sobre as divergências quanto à psicopatia, sociopatia e outras classificações) e acaba por dar a entender que o livro é uma montoeira de achismos. O maior problema com isso é que ele praticamente incita uma cruzada para encontrar “psicopatas escondidos nos círculos de amizade, no trabalho e na escola”, para só no final dizer que “o diagnóstico de psicopatia deve ser feito apenas por um profissional”. Mas, como a autora diz o tempo todo, “cuidado, o perigo mora ao lado”. Um ótimo livro para achar que seu marido, seu chefe e até o padre da sua igreja são psicopatas ou para quem quer ter certeza de que a psiquiatria não está muito bem (representada).

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Nelson Rodrigues, logo após ler o livro da Ana Beatriz Barbosa, pensando: “puta merda, será que eu sou um psicopata?”

Livros de inverno e literatura “de verdade”

Eu corro dois riscos escrevendo esse post. O primeiro é o de soar repetitivo. Afinal, tenho a impressão de que já discorri diretamente sobre o tema em pelo menos dois posts e indiretamente em outros tantos. O segundo risco é o de ser um tempo gasto inutilmente. No entanto, eu venho remoendo o assunto há mais de nove horas, desde que li esse artigo.

Dando vazão a minha insônia, aqui estou eu. E a única impressão que tenho sobre o artigo (se você não o leu, leia, talvez discorde de mim, o que seria ótimo) é que é pura dor de cotovelo. Imagino o diálogo interior travado pelo autor do texto. “Porra, aquela merda tá vendendo milhões”. “Qualquer um podia ter escrito aquilo lá”. “Não acredito que 50 Tons divide estante com Machado de Assis, indulgentemente relegado às traças e a edições meia boca”.

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“Ora, é claro que tu podes tirar um retrato, porém tu precisas ser rápido visto que a sessão de autógrafos com o gênio que escreveu esse livro já está para acabar”

Imagino que o juízo que Hatoum faz acerca de suas próprias obras não seja ruim. Mas ele prefere citar a literatura universal, numa espécie de tentativa de transmitir impessoalidade. Eu concordo que Graciliano Ramos tem uma técnica que ainda é muito superior à que Stephenie Meyer provou. É verdade que suas reflexões são muito mais profundas e mesmo o contexto histórico e a vida do autor poderiam ser argumentos que justificariam uma balança de qualidade pendendo para o lado dele.

Porém, isso não dá credibilidade a Milton Hatoum ou a qualquer pessoa para colocar o dedo indicador na sua posição predileta e rotular uma como melhor que a outra. Eu não entendo a incapacidade dessa corja intelectualizada em conciliação. Parece que não é possível haver um mundo no qual pessoas se divirtam com vampiros fluorescentes (a maioria delas em um processo de amadurecimento, que justifica completamente sua predileção por uma coisa mais simples) e outras que gostem de sofrer com a realidade seca das palavras de Graciliano Ramos.

Entretenimento e seriedade não são mutuamente exclusivos. O que justamente dá a Machado de Assis a sua genialidade é a capacidade que ele teve de traçar um perfil crítico da sociedade de sua época e a tornar até mesmo engraçada, sob as ironias que ele constrói. A literatura e, sobre ela, a arte fornecem um campo que pode ser preenchido de qualquer maneira. E isso a faz especial.

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“Aula de matemática básica pessoal! É possível somar as coisas. Literatura pode entreter e informar. Pode divertir e criar senso crítico. Pode até ser erótica! Ou melhor, pode ser, ao mesmo tempo, tudo isso e ainda mais. Mas não há nada de errado se ela for apenas um desses”

A leitura é uma forma de entretenimento. Subjugar a literatura de entretenimento é o mesmo que arrancar um braço de um polvo. Você provavelmente vai poder contar para os seus amigos (ou escrever sobre isso no Estadão), mas na verdade nem você nem o polvo vão lucrar. Atacar a literatura prazerosa e despreocupada é subtrair funções da literatura. É diminui-la.

Na tentativa de compreender as motivações que levaram Hatoum a atacar a literatura de entretenimento, só me vem a imagem da dor de cotovelo. Talvez, naquele mesmo diálogo interior, ele foi confrontado com uma voz acusadora, que dizia “Então por que não fez?”. Não, ele não poderia baixar o nível, afinal, supostamente a literatura de verdade deve englobar as características que definem as obras citadas aos caminhões naquele texto.

Mas eu te digo algo. Talvez a literatura de entretenimento seja a mais importante de todas. Quando sair uma biografia do Hatoum, eu provavelmente vou querer comprar, porque ao que parece ele lia Schopenhauer no ventre materno. Se ainda lhe parece justificável rotular as coisas dessa maneira, os livros de verão são um belo portal para uma posterior imersão na literatura “de verdade”. Eu fico imaginando se Hatoum definiria sua própria obra como livros de verão ou literatura “de verdade”. Creio que ele argumente que o tempo se encarregará de provar o que é essa tal de literatura de verdade.

Note que, no título, ele tomou o cuidado de se referir à suposta “baixa literatura” apenas por “livros”. Livros são entidades físicas, terrenas. Já a literatura é algo metafísico, transcedental e por assim vai. Isso, somado à aproximação bisonha da literatura à solidão trazem a imagem de um menino fazendo birra. “Vocês não gostam da minha literatura porque não a entendem”. “Sou bom demais para essa gente”. O gênio incompreendido.

A literatura tem sim um quê de solidão, mas não era desse sentimento que Hatoum estava falando. Escritor, ele usou um eufemismo bastante oportuno. Isso porque a palavra “elitizada” soa um pouco mal. Mas é exatamente isso que Hatoum endossa quando parafraseia algum qualquer para dizer que literatura “de verdade” é para poucos. Nota-se que ele pouco se difere dos hipsters e indies, que regozijam fazer parte de uma minoria risível, apenas por ser uma minoria. É a ideia de exclusividade.

Foi a partir de livros infantis, muitos deles com função única de entretenimento que eu me formei como um leitor. Se eu nascesse um pouco mais tarde, teria sido um leitor de Crepúsculo. Sim, Milton Hatoum, espante-se com isso.. Leitores de Cinquenta Tons de Cinza. Leitores. É impossível que o exercício de ler 480 páginas seja nulo. Mesmo que ele aumente o vocabulário de seu leitor em uma única palavra, foi um exercício pouco rentável, mas ela existiu. Não o estou atacando pessoalmente, é uma observação extremamente fortuita: quando li Dois Irmãos do Hatoum, não me senti nem um pouco intimidado, nem um pouco abismado, nem um pouco “leitor de literatura de verdade”.

É aliás, com grande supresa que notei quem escrevia. Se fosse alguém escondido pelo anonimato, tudo bem, era justificável. Mas me admira que ele tenha elencado tantos autores consagrados quando não encontrei vários dos elementos que configuram, segundo ele, a literatura “de verdade” no romance do próprio Hatoum. Mesmo assim, se me perguntassem, hoje, se valeria a pena gastar tempo lendo o livro, eu diria que sim.  Se me perguntassem sobre qualquer livro. Eu diria sim.

Porque não há tempo perdido lendo um livro ou assistindo a um filme. Não há tempo perdido com arte ou cultura. Pois mesmo que ele seja de todos o que menos gostamos (sejam lá quais razões), ainda poderemos fazer como fez o senhor do artigo e colocar nossos neurônios para dissertarem. Mesmo que nossos cérebros derretam enquanto assistimos Big Brother, analisá-lo por uma perspectiva sociológica, por exemplo, certamente seria um exercício produtivo. Aliás, esse tema não encerra por aqui, porque vocês com certeza vão prestigiar uma apologia ao Big Brother Brasil.

Porque há algo muito importante sobre o nosso momento literário e artístico. E ele é tão incrível que acaba influenciando na forma com que lemos literatura de outros tempos e épocas. É a morte definitiva do autor. É a consagração da arte como domínio público a partir do momento em que ela é criada, afinal, ela nem ao menos precisa ser divulgada mais. O acesso é vertiginoso, instantâneo e generalizado. Hatoum sugere uma volta ao medievo, na qual umas dúzias de pessoas detinham a cultura do mundo inteiro.

A contemporaneidade dá ao leitor, telespectador ou seja lá qual for o receptor a capacidade de ampliação de sentido, de construção de significado, de maximização. O leitor muitas vezes é capaz de tornar uma obra muito mais valiosa do que ela era inicialmente. E esse é o problema de Hatoum. Ele ataca a obra, como se ela contivesse um mal. A obra é apenas um esqueleto do que ela pode ser.

[eita]

Milton Hatoum, aos dois anos, lendo um livro do Sartre. Ele diz que entendeu tudo!

A evocação de outras realidades deixa claro que ele sabe que não é bem assim. Que a educação tornaria maior o interesse por leituras mais complexas, mas como julgar um texto que tem um único parágrafo que parece apontar para isso? Hatoum sabe que é o leitor que dá dimensão à obra. Isso seria, de fato, solucionado por uma melhor educação. Mas será que é isso o que ele realmente quer? O retorno à ideia da fusão da literatura com a solidão (o que na verdade quer dizer que a literatura “de verdade” é para poucos), ao fim do texto, acaba com qualquer indício de que o autor realmente deseja uma literatura não-elitizada.

Afinal de contas, se todos lessem Coração das Trevas, sobre qual livro ele iria poder destilar toda a sua intelectualidade em um artigo? Quem sabe em um mundo de pseudointelectuais, a literatura de entretenimento virasse objeto de culto. Imaginem! Teríamos um Milton Hatoum atacando a literatura pesada e enfadonha, subserviente a inúmeras influências e tarefas, que precisa ao mesmo tempo ser veículo político, de entretenimento e reflexão.

Ele poderia até manter o título. Citaria J.K. Rowling, Stephenie Meyer e E.L. James. Tolkien também pode ser uma boa. Stephen King, por que não? Infelizmente, ainda não vivemos esse mundo de inversão de valores e a simples citação desses autores ainda é desvalorizada. Mas esperemos pelo dia em que será lugar-comum ler qualquer escritor russo ou um modernista espevitado. Será uma forma de argumentar e construir uma imagem intelectualizada, apenas enumerar autores fora do senso comum da época (nossos atuais escritores de best-seller), como se isso fosse prova de nossa sapiência.

A literatura é fantástica o suficiente para englobar mundos distintos. Não há conflito entre esses diversos universos, que muitas vezes se entremeiam e geram as obras primas. Sabe o que eu acharia graça? Se pudéssemos ressucitar Machado de Assis ou qualquer figurão da literatura e o sujeito escrevesse um elogio à literatura de entretenimento (numa máquina de escrever, porque ele teria que ir se acostumando gradativamente às novas tecnologias).

É triste que a cultura seja restrita e pessoas com opiniões como a de Milton Hatoum só ampliam esse quadro horrível. Para definir com clareza o quanto a literatura atual se baseia no domínio público, estou com o livro de Hatoum aqui. Eu sei que mal dá para ver porque, no meu protesto silencioso, eu o coloquei sob vários “livros de verão”. Tem Harry Potter, tem até o livro do Hugh Laurie. Mas pode deixar, seu Miltão, porque isso não é uma ofensa. Considero esses livros tão livros quanto os outros que tenho em minha estante. Ela é bastante receptiva e não tem preconceito.

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“Milton o quê?” “Hatoum” “Não entendi” “Hatoum” “Ã?” “H – A – T – O… ah, deixa para lá, vou levar esse aqui do Paulo Coelho”

Está lá Saramago, que não gosta de ficar muito perto da Bíblia, mas que se dá incrivelmente bem com Graciliano Ramos. Acho que são os resquícios de ideais comunistas. Tem ali também Machado de Assis, que eu acho que anda tentando se aproximar de Clarice Lispector. Acho que ele quer uma prosa intimista com ela. Mas, sinceramente, o lado mais engraçado da minha estante é o que reúne Gregório de Mattos e Veríssimo. Você não sabe o que eu escuto vindo de lá.

Eu vou dormir. Porque talvez consiga, pelo menos em sonho, ver Machado de Assis, despreocupado, com um sorriso no rosto, lendo Paulo Coelho. Ou, quem sabe, Dois Irmãos, do Milton Hatoum.

Uns probleminhas acerca da cultura

Esses dias me falaram sobre Jogos Vorazes e, após eu falar que só conhecia a série de nome, meu interlocutor adicionou um “mas você provavelmente não iria gostar…”. Achei meio estranho e perguntei o porquê. “Ah, é que você é todo culto e…”. Bem. Como eu posso começar?

Tenho espasmos de raiva quando vejo exercícios de pseudointelectualismo pela internet. E infelizmente isso está cada vez mais frequente. Acho que é esse culto à inteligência ou sei lá o que diabos está acontecendo. Um dos mais recorrentes é rotular o que é e o que não é cultura. O que é ou o que não é ser um vampiro. “Ah, isso aí é literatura comercial”. “Isso não tem valor literário”. Pelo amor de deus, acho que não são espasmos de raiva que me acometem, são contrações tetânicas.

Isso é arte

É simplesmente medíocre querer tirar o papel de entretenimento da literatura, por exemplo, ou mesmo a possibilidade da escrita poder gerar lucros. Isso diminui a arte. Diminui o alcance que ela proporciona. E eu não estou nem entrando no mérito de arte contaminada pelo capitalismo. Em uma espécie de hipsterização intelectual, parece que tornar algo acessível a um público é demonizável. Já li críticas sobre Inception ter sido mastigado demais.

Essa mentalidade é a típica síndrome de retenção cultural, onde o sujeito quer a exclusividade sobre determinado objeto artístico. É o tipo de cara que sente arrepios nos pelos do períneo quando conta, em uma roda de amigos, que é “ama o mundo onírico do Lynch e os que não gostaram é porque não tiveram capacidade para compreendê-lo”. E olha que o problema vai mais fundo que isso. Ele existe devido ao uso que se dá à arte e à cultura, de modo geral. A exteriorização da nossa personalidad

Sabe gato, eu não gostei de Crepúsculo porque eles distorceram completamente o que é ser um vampiro, saca? Fora que aquele melodrama foi feito apenas para vender. Droga, ela lucrando milhões e eu sem dinheiro nem para óculos da Chilli Beans.

Quando completamos uns doze ou treze anos, percebemos que nossa capacidade de manipulação dos recursos linguísticos é falha. Seja culpa da educação a que fomos submetidos, seja por sermos novos demais, nós não conseguimos expressar quem nós somos com nossas palavras. Em uma fase na qual nossa maior certeza é a de que sabemos quem somos, não ser capaz de expressar isso seria capaz de nos fazer entrar em combustão espontânea. Mesmo que possamos mudar de banda favorita em um piscar de olhos, precisamos de uma banda para exteriorizar nossa personalidade, crucialmente na adolescência.

E a partir desse momento nos apoderamos de artistas e objetos de cultura, como se esses fossem nossos porta-vozes. É essa relação, por demais íntima, que cria uma intolerância cultural. Trata-se apenas de uma retomada àquelas discussões filosóficas clássicas: “uma faca, em si, contém algum mal ou é o uso que dela se faz que pode ser mal?”.

Não emito um juízo de valor tão ferrenho contra usar a arte como exteriorização da personalidade porque, além de também usá-la assim, esse é mais um das funções da cultura. O problema vem quando, por estabelecermos esse laço tão íntimo com a arte ou o que seja, nos sentimos donos dela. Eu me lembro da cruzada dos advogados dos bons costumes vampirescos quando Crepúsculo veio à tona. Esses detentores de o que é ser vampiro se sentiram ofendidos por Crepúsculo porque a Stephenie Meyer fez o que ela quis com uma criatura mitológica de uso público, mas que algumas pessoas haviam se apoderado para representar sabe-se lá o que elas queriam representar.

“Vampiro de verdade paga mensalidade para a Camarilla”

É a mesma coisa com essa história do zumbi apaixonado que, francamente, eu nem entendi direito. O que eu me pergunto é se os críticos do zumbi crepuscular iriam gostar que os zumbis se mantivessem realmente fiéis à tradição e não passassem de lendas haitianas de vudu. A origem do próprio “zumbi de verdade” veio através da distorção de outra cultura.

Em síntese: o sujeito se identifica com algo e cria uma relação de intimidade e posse para com algo que, na realidade, é intangível, que é a arte. Quando Stephanie Meyer fez o vampiro brilhar, ela fez milhares de góticos (sei lá quem se identifica com “vampiro de verdade”) se verem purpurinando. 

Na verdade, não há nenhum problema em vestir sua cultura, afinal, existem pessoas capazes de se expressar muito melhor do que nós. Além disso, não se trata apenas da cultura como meio de expressão, mas como simples “gostar”. Simplesmente causar descargas de serotonina é uma das inúmeras funções da cultura, mas nenhuma justifica você agir como detentor dela. Mesmo se um autor chamasse o público e dissesse “vocês estão errados, suas interpretações sobre a minha obra estão todas erradas, vocês não me entenderam”, ele deveria levar uns sopapos.

Existem bastantes evidências para afirmar que a arte não pertence nem mesmo ao artista depois que ela é tornada pública. Querer normatizar a arte diretamente é, no mínimo, uma idiotice. No entanto, durante todo esse texto, meu foco é na maneira com que consumimos a arte, nas implicações que esse modo traz e por que isso é errado. Se você é um fascista da cultura intelectual, por favor, repense a maneira com que você vê a arte.

Porque se ela é capaz de gerar emoções, reflexão, entretenimento e lucro, remover um desses elementos não a torna superior. É justamente o contrário. Caso você esteja triste por se julgar vítima de uma cultura de massificação, dê uma chance a algo mais avant-garde. Acho que eu estou me revelando bastante repetitivo, porque vou acabar voltando ao discurso desse post. De qualquer maneira, vou ler um pouco de Paulo Coelho. Obrigado.

O intelectual mais importante do país lendo um livro do intelectual mais importante do país deitado na cama do intelectual mais importante do país. Ufa. E você achando que seus filmes franceses eram coisa de intelectual!

Mais curto, impossível

José Saramago usa a clássica alegoria de Platão no romance A Caverna. Entretanto, a abordagem de Saramago é mercadológica, uma vez que usa a metáfora da caverna como sendo um grande centro comercial. Esse, simboliza o capitalismo globalizado que oferece todas as comodidades possíveis, ao o custo da liberdade. No entanto, esse aprisionamento, para alguns, é voluntário, diferente do mito de Platão. Dessa maneira, a obra de Saramago ecoa na realidade brasileira, uma vez que a sociedade se mostra aprisionada voluntariamente. Todavia, não apenas os benefícios pela globalização e suas tecnologias, potencializados pela mídia, são fatores de alienação. Isso pois a educação não é tão eficiente. Assim, a sociedade, deslumbrada com aquilo que é prometido pelo sistema econômico, mas sem senso crítico, perde a distinção entre ideia e produto. Portanto, o maior problema não é apenas a massificação das ideias, mas o fato de essa massificação ter sido vendida.

Um Cão Andaluz

Toda pessoa que se considera normal já se deparou com o maravilhoso e deslumbrante universo onírico. Os sonhos exercem fascínio e desafiam todas as noções, sejam as lógicas como as ilógicas. Não é a toa que os sonhos surjam em tantos aspectos do cotidiano, estejam no discurso do Luther King ou mesmo como uma tentativa de aumentar suas chances com uma garota com quem você está em friendzone (seu virjão). Dizer que sonhou com ela, e omitir a parte em que você imaginou ter sexo com ela, provavelmente não vai funcionar.

Como faz com TUDO o que envolve essa criatura bizonha que atende pela alcunha de ser humano, a arte reflete essa aura misteriosa dos sonhos. Pois bem. Um Cão Andaluz é um exemplo disso. O surrealismo, assunto de uma aula de Literatura em que você provavelmente estava babando sobre seu caderno, praticando e não aprendendo a teoria, foi um movimento profundamente influenciado por um vislumbre em um universo totalmente estranho. Nada se sabia sobre os sonhos.


Se você tem uma tia espírita, ela provavelmente já te aterrorizou com essa ideia

A paralisia do sono era, ainda é, na verdade, associada a demônios e espíritos que sentam sobre você, o aspecto alegórico dos sonhos eram premonições místicas, se você acordar um sonâmbulo, ele morrerá… Chega, então, Freud e coloca uma lanterna nessa obscuridade. Céus, isso soa ainda pior do que eu imaginei. Influenciados por um turbilhão de teorias (que podem ter sido influenciadas por um turbilhão de cocaína), os surrealistas resolveram brincar com os sonhos.


Uma pessoa com quem você com certeza gostaria de ter degustado moscas.

Um Cão Andaluz é resultado da união de Salvador Dalí (aquele cara dos reloginhos derretendo) com um senhor chamado Luis Buñuel. Trata-se da representação máxima, é impossível assistir o filme sem sentir um reconhecimento, de um sonho. O filme (com módicos dezesseis minutos) recria perfeitamente a atmosfera onírica, com cenas bastante perturbadoras, devo alertar.

No entanto, nosso amigo ser humano se mostrou incapaz de apreciar e começou a bombardear o filme com tentativas de interpretá-lo. Algumas, fazem um certo sentido, como a ideia de que o filme se trata da viagem ao inconsciente de um assassino (um “argumento” é a passagem onde formigas saem das mãos de uma personagem, o que seria a versão literal da expressão francesa “fourmis dans les paumes”, “formigas nas mãos”, e que significaria “um grande desejo de matar”).

Esquecem-se no entanto, do contexto que permitiu o Surrealismo. O filme foi lançado em 1928, se você não dormiu nas aulas de História sabe que em 29 aconteceu alguma coisa importante. Foi a falência de todo aquele sistema perfeitamente lógico (ainda que caótico) que guiava a economia estadunidense. É óbvio que a arte antecipa as coisas e, nesse caso, foi a vez de antecipar a descrença na própria realidade.

Pois bem, particularmente, acredito que o filme recria tão bem a atmosfera onírica, que nem sinto a necessidade de interpretá-lo. Acredito que os sonhos têm, sim, um significado alegórico, mas ele é totalmente individual e precisa-se da cooperação completa da pessoa que os teve para se chegar à interpretação correta. Nesse caso, Salvador Dalí dorme em paz, embora persista em nossas memórias, e a tentativa de chegar a uma interpretação (o que é, em si, uma tentativa de racionalizar o filme) pode tirar um pouco da magia do filme.


O círculo preto representa a vida como uma tristeza cíclica. A contraposição do preto e do branco indicam que há um elemento além da melancolia. Cabe a você decidir a forma da sua vida. Você vai ser um quadrado? Um círculo? Ou um mosaico multicolorido?

Uma recomendação: assista o filme com a mente aberta. Tente se lembrar da última vez que se pegou quase dormindo e admirou-se com o quão desconexos seus pensamentos pareciam. O filme, em si, pode não te trazer a emoção imediata que um suspense poderia, mas, qual foi a última vez que você refletiu sobre seus sonhos? Você já parou para pensar sobre eles? Cegos congênitos sonham? Você sabia que, comprovadamente, pode ter um sonho lúcido?

Enfim… tantas perguntas, uma afirmação: a cena da navalha é memorável.

http://www.youtube.com/watch?v=020Z8rONCIc

Era melhor ter falado de espelhos

Primeiramente, gostaria de informar aos leitores, inexistentes, que esse blog é uma extensão do Before the Beginning, embora seja inútil clicar, atualmente, porque a hospedagem de tal site encontra-se com problemas de crédito. Com a inadimplência deste senhorio que vos escreve, o blog foi posto abaixo. Como minha vontade de escrever besteiras urge no momento, tomei a decisão mais ao alcance: criei um blog grátis no WordPress.

É assim que a vida funciona, às vezes. Não queremos ir ao outro lado da rua e pagar módicos cinco reais por um serviço de hospedagem. Assim como não queremos fazer sexo ou simplesmente viver. E, nós, constantemente usamos de desculpas para simplesmente fazer o que queremos, ou melhor, não fazer.

A minha desculpa, atualmente, é a chuva. E o fato de que são três e vinte da manhã. O banco, além de fechado, só processaria meu depósito amanhã. O que é uma droga.

Mas não é sobre isso que gostaria de dissertar, embora o verbo não seja, por conceito, correto, caralho, vocês entenderam o recado. O fato é que, nos últimos tempos, estive mal com um punhado de situações, er… desagradáveis. E durante esse período senti, de modo quase constante, uma irritação no estômago, uma espécie de enjoo, azia.

Novamente, como o que ela é, a literatura vem imitando a vida e eu me lembrei do Orgulho e Preconceito e Zumbis. Não, eu não li o original da Austen. Não, eu não acho que os zumbis tenham sido uma adição positiva (isso não é uma redundância). É possível notar, sem nunca ter lido o original, as partes somadas ou modificadas. No entanto, não é um review.

Acredito que se trata de um elemento do livro da Jane Austen, mas, se não for, isso não é o mais importante. Uma das personagens tem uma relação estranha com o bacio da privada e momentos de angústia e mal estar psicológico. A moça põe suas refeições para fora em via oral quando as coisas não vão muito bem. Essa relação com o mal estar estomacal, embora não chegue a ser tão extrema, acontece comigo.

Provavelmente Freud tem uma explicação plausível, envolvendo a tensão sexual e a relação entre o complexo de frustração com o desmamar, portanto, a aversão ao próprio alimento causa uma tentativa de liberação do Id na forma de ânsia e azia, BRINCADEIRA PSICÓLOGOS, e alguma tia sua vai falar que isso é encosto. Caramba, eu não quero chegar às vias de fato (eu tive que googlar o termo e, mesmo após a pesquisa, não tenho certeza se ele cabe à situação). Então, vou reescrever: eu não quero factóides, eu quero explorar a questão, sem pontuar respostas finais, como eu SEMPRE faço quando escrevo esse tipo de texto.

Estar com azia é um sintoma excessivamente ruim para mim. Tenho medo de que, se contivesse HIV, eu tomaria Eno sem muito pestanejo, caso precisasse aliviar minha azia. Acho que aquele medicamento é o mais próximo que eu posso chegar de um orgasmo estomacal. Céus. O que eu estou escrevendo?

O mal estar é, no meu caso, em partes psicológico. Isso porque eu meio que não me importei tanto para com minha alimentação nesses dias de depressão profunda (calma, o Entei no meu perfil do Facebook mostra que está tudo bem agora). Mesmo assim, já aconteceu outras vezes. Uma vozinha na minha cabeça está me xingando nesse momento. Isso porque eu estou abandonando o invólucro do cientifismo e, parecendo uma tia velha, falando sem nenhuma propriedade sobre um fenômeno facilmente explicável (por alguém que o entenda). Então, vamos ser todos tias e passar a ler as mãos de todos.

O único fato dessa história toda, é que é realmente interessante acompanhar a relação entre o físico e o emocional (embora eu discorde dessa segregação, justamente pelo que a antecedeu na frase). Acho que era melhor eu ter falado de espelhos.