Arquivo da tag: morte

Uns pensamentos (não tão conexos) sobre a morte

Morrer não é tão complicado quanto parece. Essa frase, por mais esquisita que possa ser, é correta em múltiplas interpretações. Morrer é fácil, da probabilidade ao momento. Basta pensar que as chances de você morrer a caminho de uma lotérica provavelmente são maiores do que os de ganhar na Mega-Sena. A consciência de estar vivo é o que torna a morte um problema. Vamos pensar culturalmente:

Um elo entre a maior parte das religiões (e a maioria das manifestações culturais) é a morte. Há as que explicam, há as que temem, há as que incentivam, mas sempre existe a presença desse fantasma, com o perdão do trocadilho. De um ponto de vista bioquímico literal a morte nem sequer existe, e, mesmo permeado por aquele cientifismo tragicômico, por que Augusto dos Anjos não deixava a morte em paz?

A morte, para mim, é um dos assuntos que melhor ilustra a inclinação projetiva do ser humano. Seja qual for o motivo, ao você achar graça em um cachorro que “fala”, ter fetiches antropomórficos ou mesmo enxergar rostos em todos os lugares, o ser humano se projeta de uma maneira meio bizarra em lugares que essa projeção não é possível. Não é a toa aquela história de “Nosso Lar”, não é a toa aquele deus barbudo, não é a toa a sucessão cíclica budista, céus, infernos… não conseguimos nos desvencilhar da nossa vida nem mesmo na morte.

Quando eu era criança, tinha uma visão peculiarmente inocente sobre o que era o “céu”. Para mim, além do “fato” de que os Mamonas Assassinas eram anjos (eles eram “anjos” do humor, que vieram passar uma mensagem de tolerância policultural. Eu já era um poço de contradição ainda imberbe), nada me dava mais prazer celestial do que imaginar que o céu seria um lugar cheio de botões onde você apertaria desejando algo e ela se materializaria em sua frente. Aos nove anos fazia bastante sentido querer uma piscina de Kinder Ovo.

O tempo passou, vieram também traumas, envolvendo a “existência” de espíritos, que roubaram minhas noites (talvez mascarando uma carência afetiva, mas isso é assunto para outro texto) e em um belo dia eu decidi duvidar de tudo que tinha sido dito. E acredite-me: isso me tornou uma pessoa melhor. Não estou sugerindo que o mesmo deva acontecer com você, aliás, é exatamente o contrário. Conheço pessoas que se dão incrivelmente bem com religiões ou a falta delas e os motivos sempre divergem. E isso é algo muito interessante.

Minha guerrilha ateia ficou em hold-on, mas a incapacidade do ser humano de lidar com coisas intangíveis não. O que acontecia antes de você nascer? Pronto. É exatamente a esse estado de não-existência que eu imagino retornar quando morrer. E não há nada de ruim nisso. Porque, ao contrário de muitas religiões e inclusive o budismo, você não é aterrorizado ou pressionado com um julgamento, com karma, com isso com aquilo. Eu não vivo minha vida como se não houvesse amanhã, céus, eu procrastino, eu durmo, eu rio, mas eu não me sinto culpado por aproveitar todas essas partes dela.

O homem se coloca em uma posição tão elevada, não é a toa que a representação maior humana (deus) está no ponto mais alto. Somos a imagem e semelhança da criatura mais foda do universo, quer algo a mais? É por isso que o fim dói tanto aos nossos olhos. O estranho é que justamente por essa mitologia post-mortem de muitas religiões, as pessoas que acreditam em uma pós-vida agarram-se como se não houvesse amanhã à vida (embora duvide que muitas delas realmente a aproveitem). Pode parecer meio triste, mas se você nascer e morrer em meio a uma floresta e nunca conhecer ninguém, você não vai ter existido. É a resposta à pergunta “se uma árvore cai em uma floresta e ninguém escuta [mas também nunca obtém conhecimento dela], ela realmente esteve de pé?”.

Pode contrariar o “bom senso”, mas uma resposta “sim” pode afirmar a existência de todos os fenômenos improváveis (no sentido estrito). Opa. Isso soa familiar.

Outra coisa curiosa é que você não existe para você mesmo conscientemente até uns sete anos. Tudo o que você pode ter são memórias esparças, já corroídas e fantasiadas e outras coisas que você “descobriu” que fez. No entanto, embora inconscientemente, traumas que aconteceram até essa época podem ter consequências permanentes em você.

O fato é que se você olhar com atenção para os ecos de pós-vida da sociedade, elas invariavelmente esbarram em uma humanidade suspeita. Aquela assinatura característica das invenções humanas dá um certo desânimo, eu confesso, mas há conforto por ali. Não é mais simples reconhecer que a vida, como se “conceituou”, como sobrepuseram quilos e quilos de imaginário, talvez não exista efetivamente. Reconhecer-se como filho do carbono e do amoníaco é muito deprimente. Até você descobrir que pode fazer uma piscina de Kinder Ovo.

Aceite que você nunca terá o prazer de provar desse tutano