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Conversa vaga sobre os sonhos

Os sonhos são estranhos. Neles, mecanismos, aparentemente banais, não funcionam como deveriam. Tome, por exemplo, os espelhos. Quando esses objetos surgem em um sonho, em geral, a reflexão não ocorre normalmente. Há relatos que fazem referência ao funcionamento estranho de objetos como celulares, botões, interruptores, nos sonhos. Mas por que isso ocorre, exatamente?

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O tio RENÊ manjava tanto que fez a pintura perfeita para ilustrar o post. Obrigado.

Bem, em uma análise simplória, não há uma relação direta entre causa e consequência nesses objetos. O mecanismo que serve de intermediário entre a causa (apertar um botão) e a consequência (uma letra aparecer na tela) está escondido dentro do aparelho. É preciso racionalizar, fazer uma análise consciente, para que você enxergue uma correlação entre as situações. Caso não haja essa racionalização, que pressuponha os mecanismos ocultos, esses atos parecem independentes. Aplicando a mesma ideia aos sonhos, é compreensível por que botões e espelhos não funcionem: a maior parte da lógica dentro dos sonhos é empregada para tomar decisões e escolhas.

É por isso que os sonhos nos causam uma sensação de falta de controle. Muito se discute quanto ao papel que eles exercem, desde organização dos acontecimentos diários até a possibilidade de prever algumas situações. Um exemplo pode ser o comum sonho de “estar sendo perseguido”. Ao simular essa situação em um sonho, o nosso cérebro (uma porção normalmente inconsciente) estaria nos preparando para a possibilidade de isso ocorrer de fato.

Em geral, durante um sonho, como em nossas vidas, nós não aplicamos lógica ou pensamentos para controlar a mecânica ou a física dos sonhos. É por isso que a impressão que se tem é a de que os sonhos são quase completamente incontroláveis. E justamente um dos desejos mais naturais é poder subverter a física e, por exemplo, voar. Porém, assumir o controle dessa porção dos sonhos significa ter um sonho lúcido. E é aí que as coisas tomam maiores proporções.


Se fosse um sonho, o Sílvio Santos não teria encharcado o terno

Um sonho lúcido é, grosso modo, exatamente o que o nome sugere. Assumir o controle, não apenas de uma parte das situações sonhadas, mas da plenitude das ações orquestradas. Há várias maneiras de se atingir um estágio de dreaming awareness. Algumas, os reality checks fazem uso de uma lógica imbatível: você escolhe um lembrete, uma ação, atitude, qualquer coisa, de que está consciente. Isso funciona, porque a consciência é um estado tão banal, que não nos atentamos a ela. Assim, estralar os dedos toda vez que passa por uma porta, beliscar-se e dizer “estou sonhando”, podem funcionar como gatilhos para a consciência no sonho. Outros métodos semelhantes podem ser perceber se aparelhos eletrônicos apresentarem algum funcionamento esquisito.

Isso faz completo sentido, mas é difícil de ser praticado. Outra dica é a indução. Ler esse texto pode fazer com que você tenha um sonho lúcido. Isso acontece porque, à medida em que você lê sobre o assunto, passa a desejar experimentar isso. De modo que, em um sonho, qualquer coisa esquisita pode te fazer lembrar do assunto sonho lúcido e, bam, aí está você. Consciente de que está sonhando. E o que você vai fazer? Voar.


Se fosse um sonho lúcido, o Sílvio Santos estaria fazendo isso

Entretanto, com o passar dos sonhos lúcidos (não que eu tenha experimentado mais do que zero, se levada em consideração as durações das minhas “experiências”), propósitos mais interessantes parecem surgir. O fato é que a exploração de paradoxos (por exemplo, sonhar dentro de um sonho, suicidar-se), exploração da capacidade de imaginação (um diálogo entre você, Einstein e seu cachorro, personificado na voz de Eddie Murphy, vinda de uma nuvem ao pôr-do-sol), exploração da capacidade de raciocínio (tentativa de fazer cálculos matemáticos; imaginar uma aula, personificando um professor – e provando que você sabe a matéria, precisa apenas aflorá-la). Enfim, as possibilidades são infinitas.

Inclusive, eu ouso afirmar que a aquisição da capacidade de controle dos sonhos significaria para a humanidade um salto quântico em desenvolvimento. Paradoxalmente, o sono R.E.M. (rapid eye movement) é o que mais revigora, em relação ao cansaço físico. O R.E.M. é caracterizado por, como o nome diz, movimentos rápidos nos olhos. Mas não apenas isso. A atividade muscular é tão reduzida, que acontece a paralisia do sono. É nessa fase que todo o cansaço é expurgado do seu corpo e causa a renovação que o faz saltar da cama como uma gazela na manhã seguinte. Estranhamente, esse é o pico de atividade cerebral e, por conseguinte, o espaço de tempo em que os sonhos são mais frequentes.

Essa disparidade entre atividade cerebral x atividade muscular, durante o R.E.M., pode fazer com que você experiencie um acordar súbito (até mesmo com a abertura dos olhos), mas com sua capacidade de movimento voluntário reduzida a zero. Como, por um acaso, a sua respiração é uma atividade muscular, há uma estabilidade no padrão de respiração. Mesmo que você ache que não, estar acordado te dá um certo controle sobre sua própria respiração. No caso de um despertar durante o R.E.M. a sensação aterradora é de uma pressão que impede você de controlar sua respiração.


Isso era aterrorizante em 1781 quando um tal de Fuseli pintou esse quadro.

Ora, mas o que isso quer dizer? É que, basicamente, repousar (no sentido físico) não implica necessariamente em abandonar o exercício mental. Uma humanidade que sonhe conscientemente durante toda a noite, é uma humanidade que, conscientemente, não dorme. 24 horas por dia. Pense nos desdobramentos disso para as ciências e artes. Entretanto, é necessário compreender que há a necessidade de um descanso mental… ou será que não?

A rigor, o cérebro não para. Ok, agora eu deveria contar algo que realmente fosse impactante. O fato é que algumas hipóteses apontam o R.E.M. como principal renovador/descanso do cérebro. Seria, portanto, durante o R.E.M., e durante os sonhos, que toda a informação diária seria processada e filtrada. O que, aliás, faz muito sentido à luz das teorias freudianas. A manifestação de informações pessoais desconhecidas (uma vez que o volume de dados que armazenamos nunca é percebido de maneira totalitária) durante o sonho é lógica. Como alguém que arruma um armário velho, jogando as coisas em caixas, algumas coisas que nunca prestamos atenção podem ser encontradas.

Por isso. Chega de falar. Vamos dormir.


Para Freud isso pode significar duas coisas: você tem traumas sexuais.

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Uns pensamentos (não tão conexos) sobre a morte

Morrer não é tão complicado quanto parece. Essa frase, por mais esquisita que possa ser, é correta em múltiplas interpretações. Morrer é fácil, da probabilidade ao momento. Basta pensar que as chances de você morrer a caminho de uma lotérica provavelmente são maiores do que os de ganhar na Mega-Sena. A consciência de estar vivo é o que torna a morte um problema. Vamos pensar culturalmente:

Um elo entre a maior parte das religiões (e a maioria das manifestações culturais) é a morte. Há as que explicam, há as que temem, há as que incentivam, mas sempre existe a presença desse fantasma, com o perdão do trocadilho. De um ponto de vista bioquímico literal a morte nem sequer existe, e, mesmo permeado por aquele cientifismo tragicômico, por que Augusto dos Anjos não deixava a morte em paz?

A morte, para mim, é um dos assuntos que melhor ilustra a inclinação projetiva do ser humano. Seja qual for o motivo, ao você achar graça em um cachorro que “fala”, ter fetiches antropomórficos ou mesmo enxergar rostos em todos os lugares, o ser humano se projeta de uma maneira meio bizarra em lugares que essa projeção não é possível. Não é a toa aquela história de “Nosso Lar”, não é a toa aquele deus barbudo, não é a toa a sucessão cíclica budista, céus, infernos… não conseguimos nos desvencilhar da nossa vida nem mesmo na morte.

Quando eu era criança, tinha uma visão peculiarmente inocente sobre o que era o “céu”. Para mim, além do “fato” de que os Mamonas Assassinas eram anjos (eles eram “anjos” do humor, que vieram passar uma mensagem de tolerância policultural. Eu já era um poço de contradição ainda imberbe), nada me dava mais prazer celestial do que imaginar que o céu seria um lugar cheio de botões onde você apertaria desejando algo e ela se materializaria em sua frente. Aos nove anos fazia bastante sentido querer uma piscina de Kinder Ovo.

O tempo passou, vieram também traumas, envolvendo a “existência” de espíritos, que roubaram minhas noites (talvez mascarando uma carência afetiva, mas isso é assunto para outro texto) e em um belo dia eu decidi duvidar de tudo que tinha sido dito. E acredite-me: isso me tornou uma pessoa melhor. Não estou sugerindo que o mesmo deva acontecer com você, aliás, é exatamente o contrário. Conheço pessoas que se dão incrivelmente bem com religiões ou a falta delas e os motivos sempre divergem. E isso é algo muito interessante.

Minha guerrilha ateia ficou em hold-on, mas a incapacidade do ser humano de lidar com coisas intangíveis não. O que acontecia antes de você nascer? Pronto. É exatamente a esse estado de não-existência que eu imagino retornar quando morrer. E não há nada de ruim nisso. Porque, ao contrário de muitas religiões e inclusive o budismo, você não é aterrorizado ou pressionado com um julgamento, com karma, com isso com aquilo. Eu não vivo minha vida como se não houvesse amanhã, céus, eu procrastino, eu durmo, eu rio, mas eu não me sinto culpado por aproveitar todas essas partes dela.

O homem se coloca em uma posição tão elevada, não é a toa que a representação maior humana (deus) está no ponto mais alto. Somos a imagem e semelhança da criatura mais foda do universo, quer algo a mais? É por isso que o fim dói tanto aos nossos olhos. O estranho é que justamente por essa mitologia post-mortem de muitas religiões, as pessoas que acreditam em uma pós-vida agarram-se como se não houvesse amanhã à vida (embora duvide que muitas delas realmente a aproveitem). Pode parecer meio triste, mas se você nascer e morrer em meio a uma floresta e nunca conhecer ninguém, você não vai ter existido. É a resposta à pergunta “se uma árvore cai em uma floresta e ninguém escuta [mas também nunca obtém conhecimento dela], ela realmente esteve de pé?”.

Pode contrariar o “bom senso”, mas uma resposta “sim” pode afirmar a existência de todos os fenômenos improváveis (no sentido estrito). Opa. Isso soa familiar.

Outra coisa curiosa é que você não existe para você mesmo conscientemente até uns sete anos. Tudo o que você pode ter são memórias esparças, já corroídas e fantasiadas e outras coisas que você “descobriu” que fez. No entanto, embora inconscientemente, traumas que aconteceram até essa época podem ter consequências permanentes em você.

O fato é que se você olhar com atenção para os ecos de pós-vida da sociedade, elas invariavelmente esbarram em uma humanidade suspeita. Aquela assinatura característica das invenções humanas dá um certo desânimo, eu confesso, mas há conforto por ali. Não é mais simples reconhecer que a vida, como se “conceituou”, como sobrepuseram quilos e quilos de imaginário, talvez não exista efetivamente. Reconhecer-se como filho do carbono e do amoníaco é muito deprimente. Até você descobrir que pode fazer uma piscina de Kinder Ovo.

Aceite que você nunca terá o prazer de provar desse tutano

Um Cão Andaluz

Toda pessoa que se considera normal já se deparou com o maravilhoso e deslumbrante universo onírico. Os sonhos exercem fascínio e desafiam todas as noções, sejam as lógicas como as ilógicas. Não é a toa que os sonhos surjam em tantos aspectos do cotidiano, estejam no discurso do Luther King ou mesmo como uma tentativa de aumentar suas chances com uma garota com quem você está em friendzone (seu virjão). Dizer que sonhou com ela, e omitir a parte em que você imaginou ter sexo com ela, provavelmente não vai funcionar.

Como faz com TUDO o que envolve essa criatura bizonha que atende pela alcunha de ser humano, a arte reflete essa aura misteriosa dos sonhos. Pois bem. Um Cão Andaluz é um exemplo disso. O surrealismo, assunto de uma aula de Literatura em que você provavelmente estava babando sobre seu caderno, praticando e não aprendendo a teoria, foi um movimento profundamente influenciado por um vislumbre em um universo totalmente estranho. Nada se sabia sobre os sonhos.


Se você tem uma tia espírita, ela provavelmente já te aterrorizou com essa ideia

A paralisia do sono era, ainda é, na verdade, associada a demônios e espíritos que sentam sobre você, o aspecto alegórico dos sonhos eram premonições místicas, se você acordar um sonâmbulo, ele morrerá… Chega, então, Freud e coloca uma lanterna nessa obscuridade. Céus, isso soa ainda pior do que eu imaginei. Influenciados por um turbilhão de teorias (que podem ter sido influenciadas por um turbilhão de cocaína), os surrealistas resolveram brincar com os sonhos.


Uma pessoa com quem você com certeza gostaria de ter degustado moscas.

Um Cão Andaluz é resultado da união de Salvador Dalí (aquele cara dos reloginhos derretendo) com um senhor chamado Luis Buñuel. Trata-se da representação máxima, é impossível assistir o filme sem sentir um reconhecimento, de um sonho. O filme (com módicos dezesseis minutos) recria perfeitamente a atmosfera onírica, com cenas bastante perturbadoras, devo alertar.

No entanto, nosso amigo ser humano se mostrou incapaz de apreciar e começou a bombardear o filme com tentativas de interpretá-lo. Algumas, fazem um certo sentido, como a ideia de que o filme se trata da viagem ao inconsciente de um assassino (um “argumento” é a passagem onde formigas saem das mãos de uma personagem, o que seria a versão literal da expressão francesa “fourmis dans les paumes”, “formigas nas mãos”, e que significaria “um grande desejo de matar”).

Esquecem-se no entanto, do contexto que permitiu o Surrealismo. O filme foi lançado em 1928, se você não dormiu nas aulas de História sabe que em 29 aconteceu alguma coisa importante. Foi a falência de todo aquele sistema perfeitamente lógico (ainda que caótico) que guiava a economia estadunidense. É óbvio que a arte antecipa as coisas e, nesse caso, foi a vez de antecipar a descrença na própria realidade.

Pois bem, particularmente, acredito que o filme recria tão bem a atmosfera onírica, que nem sinto a necessidade de interpretá-lo. Acredito que os sonhos têm, sim, um significado alegórico, mas ele é totalmente individual e precisa-se da cooperação completa da pessoa que os teve para se chegar à interpretação correta. Nesse caso, Salvador Dalí dorme em paz, embora persista em nossas memórias, e a tentativa de chegar a uma interpretação (o que é, em si, uma tentativa de racionalizar o filme) pode tirar um pouco da magia do filme.


O círculo preto representa a vida como uma tristeza cíclica. A contraposição do preto e do branco indicam que há um elemento além da melancolia. Cabe a você decidir a forma da sua vida. Você vai ser um quadrado? Um círculo? Ou um mosaico multicolorido?

Uma recomendação: assista o filme com a mente aberta. Tente se lembrar da última vez que se pegou quase dormindo e admirou-se com o quão desconexos seus pensamentos pareciam. O filme, em si, pode não te trazer a emoção imediata que um suspense poderia, mas, qual foi a última vez que você refletiu sobre seus sonhos? Você já parou para pensar sobre eles? Cegos congênitos sonham? Você sabia que, comprovadamente, pode ter um sonho lúcido?

Enfim… tantas perguntas, uma afirmação: a cena da navalha é memorável.

http://www.youtube.com/watch?v=020Z8rONCIc