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Um post que você vai ter que ler. Porque é sobre você.

Eu sou mesmo muito engraçadinho. O sujeito que atende pela alcunha de Magno Luiz Reichert (e que poderia ter se chamado Jonas) é uma das pessoas do meu círculo de amizades que eu mais tento fazer ler esse blog. Mas ele tem suas razões para não fazer isso. Uma delas, a mais plausível depois do League of Legends, é que talvez muito do que eu escreva aqui já foi discutido com ele. Mas acho que você estava certo sobre o egoísmo. E talvez a melhor forma de trazer você para cá, é trazer o assunto até a coisa mais próxima a você. Você.

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Eu e o Magno jogando algo no estilo do Jogo da Vida no Senai

A verdade é que na última vez que saímos, eu estava no carro com o Luiz e com o Marcelo e olhei para o Logan (prata? Não confio na minha capacidade de definir cor de carros) na nossa frente e eu não conseguia entender que era você dirigindo aquela porra. É idiota, mas foi uma epifania que me atingiu bem forte. É o Magno-da-espuma-de-boné que está dirigindo um pedaço de metal pesando 1025kg com rodas? É o Rapper Joe conduzindo um veículo capaz de atropelamento massivo? É o Majin Boo, Rocombole? Você sabe que a lista é grande…

Porque a percepção do tempo é aquela coisa bizarra. É verdade que a gente notou muita coisa que aconteceu enquanto crescíamos juntos. Mas mesmo as mudanças físicas e mentais mais severas, ou qualquer coisa, foram mais efetivas do que escutar você arranhando a marcha na Marquês de Olinda.

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Serginho Groisman aprova esse post

Eu não tenho como saber o que vai acontecer num futuro próximo. A verdade é que, graças a jesus, tomamos caminhos diferentes (imagina a gente estudando em Vancouver agora adsusaduhasdhu). E não tem como dizer se nós vamos estar presentes no momento das respectivas mortes (embora eu tenho quase certeza de que apenas um de nós conseguiria isso).

Porque, veja bem, os últimos churrascos (é engraçado que essa nomenclatura na maior parte das vezes era equivocada né) tiveram um feeling nostálgico. Cedo ou tarde caíamos no assunto “passado” e era um suplício para sair dele. E você não sabe como é tentador começar a enumerar as piadas internas, as situações e tudo mais. Eu mesmo já fiz isso através do texto. Mas você reclamou que eles eram muito longos, né. Vamos lá.

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Vancouver Film School. UHDSAUHDSAUHSDAUHSDAUHDASUHSDA

O objetivo do texto era dizer que, porra, eu fiquei orgulhoso para caralho de te ver dirigindo. E dar o braço a torcer de vez em relação àquela discussão ferrenha que a gente teve uns anos atrás sobre o egoísmo humano. Porque ele explica de certa forma esse orgulho que eu sinto. Eu vejo em você um reflexo da mudança que eu mesmo sofri nos últimos anos. E gosto da ideia de ter sido parcialmente responsável pela sua, ou qualquer coisa que o valha.

Não é apenas dirigir, que francamente não significa tanto para mim, mas foi a ideia atribuída a isso. É uma carga que inclui você estar fazendo um curso que te satisfaz na universidade (e daí eu vou lá e mando mensagem “O Magno tá pirando falando sobre planos” uhdashuasduhsda. Eu estava interessado, okay, só achei engraçada sua empolgação. E fiquei feliz por isso). Inclui você ter amadurecido. Em breve você vai morar sozinho e se você fritar bifes com tomate na chapa todo dia, dificilmente vai passar fome.

Mano, não esqueça as coisas que a psicóloga te disse (e que eu já esqueci) naquele seu teste vocacional. Não perca essa porra de curiosidade, não perca a vontade de questionar as coisas, não perca coisas pelo caminho. Eu sei que o final dessa quest da vida é uma bosta. A melhor metáfora que eu consigo pensar é que ela é como um supermercado cheio de coisas fodas. Você pega uma cestinha, mas tem tanta coisa incrível que resolve pegar um carrinho. Porra, depois de encher quatro carrinhos você chega ao caixa e ele te diz que não aceita cartão. Você só tinha cartão. E daí o caixa te dá um tiro, claro.

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Uma outra metáfora para a vida

Mas a verdade é que mesmo sem um propósito egoístico, pode acontecer de você encontrar uma pessoa aleatória no mercado (tipo eu). E trocar os bagulhos de dentro do carrinho comigo. E quem sabe eu tenha um filho e pegue o boné de espuma (que troquei com você no corredor dos Assuntos Metafísicos – um corredor que achamos bem idiota – no supermercado Life) e troque com mais outras pessoas. Eventualmente alguém faça desse boné algo que voltará às prateleiras do supermercado. É a coisa mais sensata, em termos de propósito, que eu enxergo na vida. E a maneira mais fácil de causar esse efeito é manter suas cestas sempre cheias. Apesar de eu sugerir você evitar o corredor de Assuntos Metafísicos, interaja com as pessoas das filas do caixa e do açougue, porque isso também ajuda no único propósito maior que eu enxergo para a vida.

HandshakeInTheStreetMagno depois de muitos anos se tornou um profissional de sucesso. Mas ele ainda ama encontrar pessoas na rua.

Sei que isso não é problema para você. Mas espero que dê tudo certo aí na sua jornada pelo supermercado. Que você construa prédios verticalmente estáveis. Que você cuide da sua saúde (mental, ainda mais se você eventualmente me pagar por isso). Que você sempre tenha dinheiro suficiente (de preferência mais que isso). Quando eu vim para Joinville eu era aquela coisa assustadoramente medonha que você conheceu. E parte grande de quem eu sou hoje (para bem ou ruim) é sua culpa. Como é bom se livrar dela.

E isso vale mais do que nossa principal divergência (sobre se música eletrônica é música ou não – asuhdusdahudsh, você sabe que é brincadeira).

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O pessoal que frequenta o corredor de Assuntos Metafísicos é meio esquisito

“É natural”

E também um clichê bem sem graça. E o que mais me assusta é o alcance dele. Porque vai do ativista-canabinoide (“É natural, brother“) até as donas de casa (“Uma amiga de uma prima falou desse chá, que é natural“). Com efeito, a busca “remédio natural” no Google traz 7x mais resultados que “alopático”. Também é uma busca superior à “remédio convencional”. Claro que não é superior à busca “Coca Cola câncer”. Mas temo que é por causa da conveniência do Google omitir o acento.

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Mamona, naturalmente, sua semente é venenosa. Artificialmente, se faz biodiesel com o seu óleo. Progresso é uma merda mesmo.

Analisar quantidade de resultados no Google pode não fornecer muito indício, mas é curioso como, no cotidiano, “natural” se tornou um adjetivo que qualifica, automaticamente, a coisa a qual ele se refere como “positiva, aceitável”. “Eu tomo chá que é mais natural”. Sério, pesquisem “chás naturais” e tenham azia com os resultados. Então vamos começar pelo que significa algo natural.

O Houaiss define natural como, poxa, são 18 definições diferentes. Para resumir, etimologicamente vem do latim para ‘feito ou dado pela natureza’. E é essa a definição que abrange o assunto desse post. A ideia de que algo feito ou dado pela natureza é irrestritamente bom. E quando o sujeito ataca um medicamento alopático isso é geralmente embasado num misto de conspiracionismo farmacêutico e crítica aos efeitos colaterais.

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Tem apenas uma coisa natural nessa foto. Que é o motorista do táxi reclamando do trânsito.

Mas, em essência, é uma crítica à intervenção do homem na natureza que, por si só, “já seria perfeita”. Pois eu te digo algo. Agradeço a deus pelo homem não se contentar com a “perfeição da natureza”. Repense todos os seus hábitos e veja quais deles são naturais ou não. Mas a coisa é mais curiosa. A Forever, uma empresa que explora fitoterapia, funciona como pirâmide. Ou seja, o negócio é embasado no mais artificial – e nem por isso ruim – recurso humano: o dinheiro.

A aceitação tão espontânea de tratamentos alternativos tem em si um certo misticismo. É a falta de compreensão sobre a ciência e excesso de crença. De que talvez “o que deus criou é bom”. De que “se é verde não faz mal” (ao que eu sugeriria que comessem algumas mamonas (com semente). E isso não é uma crítica direta aos tratamentos alternativos. Tome, por exemplo, a aspirina. O princípio ativo é encontrado (e daí ela foi descoberta) na casca do salgueiro (leia mais aqui). Naturalmente. De maneira geral, para obter um remédio é, antes de tudo, isolar o químico que causa o efeito desejado. E essa é a primeira parte “artificial”.

Depois, você descobre uma forma, por meio de reações, capaz de resultar no mesmo composto químico. Criando o princípio ativo em laboratório e evitando a necessidade de cultivar quilômetros de salgueiros para fazer aspirina. Não é tão difícil de compreender. Mas não se resume a isso. Como no caso da aspirina, o princípio ativo muitas vezes é melhorado, utilizando-se do conhecimento químico e biológico, como a modificação no princípio ativo que tirou a irritação gástrica (um efeito colateral comum).

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“É natural”

E são os efeitos colaterais dos medicamentos que, às vezes, induzem os militantes da medicina natural (porque, como os defensores da legalização da maconha, parece que a militância é obrigatória) a bradarem contra a indústria farmacêutica. “Porque quando eu tomo um chá, eu não sinto efeitos colaterais”. É claro que não. Além do químico desejado, você está ingerindo, junto, um monte de substâncias químicas que podem causar várias reações no seu organismo. Tudo isso, é claro, numa concentração variável e, por vezes, muito menor que a dose necessária para a plenitude dos efeitos.

Mesmo um medicamento, isolado, concentrado, na dose estipulada como ideal, mesmo assim, causa efeitos colaterais ou seja, reage com outras partes do corpo, que não o alvo, ou causa algum outro tipo de estímulo. Como vocês se convencem de que algo cheio de outras substâncias, com uma concentração variada do princípio ativo, com as variações biológicas que, afinal de contas, dependem de fatores como condições climáticas, do solo, etc; como vocês se convencem de que isso é realmente muito melhor do que algo artificial?

É simplesmente bizarro, porque esse tipo de desconhecimento não se restringe aos medicamentos – embora, acredite eu, esse seja um dos mais perigosos. No episódio do “bicho da Coca-Cola“, um dos comentários no Facebook dizia: “é, a Coca é ácida e um bicho, estando em meio ácido, boa coisa não deve ser“. Morte ao meio ácido. Eu acho que eles deviam ver esse vídeo. Ou seja, desconhecimento do básico de química não é algo exatamente inesperado quando se olham as estatísticas de falta e despreparo dos professores.

É verdade, existem fatores bastante preocupantes sobre a indústria farmacêutica, como aponta essa palestra do TED. Muitos resultados negativos não são publicados e acabam por gerar verdadeiras catástrofes. Além disso, em se tratando das cifras que estão envolvidas, é difícil estabelecer pesquisas que são completamente puras em intento e interesse. Porém, será mesmo que as pessoas realmente estão (se) levando a sério quando dizem que “natural é melhor”?

É fácil demonizar a indústria farmacêutica quando você consegue dormir com a facilidade de uma criança exausta. Quando você não precisa tanto dos remédios que suporta efeitos colaterais. A expectativa de vida, de modo geral, como indica essa pesquisa, aumentou de cerca de 38 anos em 1900 para cerca de 70 em 1990. E tudo isso graças à artificialidade. Tudo isso graças aos medicamentos que, longe de ideais, foram através do conhecimento científico desenvolvidos. E continuam sendo aperfeiçoados. Soa uma espécie de conformismo barato, apenas aceitar as coisas como elas estão, porque supostamente seriam melhores. Até hoje, para o desespero de Edward Jenner em seu túmulo, as pessoas têm um receio sobrenatural com vacinas.

tristeza

Patrícia é muito triste por usar maquiagem, tingir o cabelo, fazer as unhas, vestir roupas, ter uma casa, janelas, andar de patinete, ter acesso à internet, almoçar todo dia no McDonald’s. Ela queria uma vida mais natural!

Sendo que não há nada mais natural do que química. Nada. Utilizar reações químicas para produzir compostos químicos é o que garante a possibilidade da vida. E é o que, com a ciência, garante a possibilidade de uma vida melhor. É muito fácil se tornar um ativista dos medicamentos naturais tendo a comodidade de, em caso de algo muito grave, recorrer para a medicina convencional. A demonização do artificial soa bizarramente hipócrita, quase como uma birra antiprogressista.

Então hoje, olhe para a tela – artificial – sinta a cadeira reagir com a força normal – um fenômeno natural, exercido por um objeto artificial. Encha os pulmões de ar – natural – e solte um suspiro, que deveria ser um agradecimento. Por termos tantos confortos artificiais. E ótimos. Tipo as playlists do Youtube.

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“Ah, mas papel é natural” – “Aham

Sobre educação

Vendo esse vídeo, o tema me surgiu e pareceu bastante oportuno. Porque, vamos ao choque de realidade: eu estudo desde 1998. Seria natural supor que, de todos os assuntos possíveis, esse era um dos que eu mais profundamente poderia discutir. Mas… não. Eu me sinto mais confortável em dissertar sobre a coleção do Pequeno Vampiro à qual eu dediquei, vamos supor, uma dúzia de horas da minha vida em comparação as quase cinco horas diárias desde a invenção do Google que eu dediquei à educação.

Educação de quem, exatamente? Educação de quê?

Eu passei no vestibular, o que me garante estudar, no mínimo, até 2019. Mas seria, como observa o senhor Izzy Nobre no vídeo citado, o vestibular o “diploma” que justificaria os quinze anos que passei estudando? Inicialmente, eu não pude deixar de assistir ao vídeo segurando uma vontade irreprimível de discordar. De dar coro aos professores que justificam as “matérias inúteis” como desenvolvedoras de habilidades que, essas sim, seriam “úteis”.

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Essa é a tia Doroteia, uma vampira sanguinolenta. Mas poderia ser sua professora do primário. Viu como a escola é do mal?

Pode parecer um conceito raso, o da simples utilidade, mas, novamente citando o vídeo – que é bem provável que você não tenha assistido -, nós vamos morrer véio. Nós já temos a internet para gastar nosso tempo com inutilidades. Que na educação, ao menos, as coisas sejam mais proveitosas. Ou que usemos a internet tanto para inutilidades quanto para utilidades.

É verdade, não é possível que aprender matemática – das operações básicas à forma trigonométrica de um número complexo – não tenham sido nem um pouco úteis. Ou talvez eu me recuse a acreditar que dediquei tanto tempo a algo que não fez por mim o mesmo que eu fiz por ela. Eu gostaria de ser pago cada vez que eu penso que as tentativas de definir – e, pior, quantificar – inteligência foram bastante bizarras.

Eu conheço várias pessoas brilhantes que simplesmente não se dão bem com a forma com a qual se mede a inteligência atualmente. Não é possível que alguém realmente acredite que toda a capacidade intelectual de alguém está no assinalar correto de uma questão num vestibular. Ou de oitenta delas.

vestibular-1A. B. Nogueira enquanto presta vestibular para Administração. Ela queria mesmo era fazer Engenharia de Tirolesas. “A inteligência de 200 mil anos de evolução como Homo sapiens sendo aferida em Múltipla Escolha. Vocês tão fazendo isso certo”, ela comenta ao final da prova.

Isso indica que, surpresa, a pessoa é boa ou ruim na resolução daquela prova, em específico. É contraditório que o formato da educação exija que a pessoa seja simultaneamente boa em matemática, biologia, português – áreas tão diferentes do conhecimento – e tenha um único método de aferir essas competências. Calma, que eu estou escutando alguém reclamar sobre provas discursivas, redação, blá blá blá.

Nenhum vestibular ou prova vai contemplar – jamais – a totalidade de estudantes que a eles se submetem. Será, no máximo, efetivo para os que forem aprovados e, às vezes, nem isso. É risível pensar na quantidade de gente que passou no vestibular por sorte. O problema é que as pessoas passam a vida inteira buscando reiterar sua individualidade quando uma coisa mais importantes passa por uma ditadura da coletividade.

Eu não acho que o caminho apontado pelo Izzy Nobre seja ruim (ele sugere algo mais aos moldes da educação estadunidense – onde o estudante, já no high school, entra em contato com matérias optativas “mais úteis”). Mas ainda assim soa como uma solução parcial. Afinal, como definir as matérias oferecidas? Será que contemplaríamos justamente todas as possibilidades?

Para mim, falta uma certa autonomia. Eu sou suspeito para falar sobre isso. Porque a ideia de homeschooling sempre me atraiu. E eu acho que essa é a forma perfeita de fornecer uma educação que, em vez de limitar ou restringir potenciais em nome de um currículo uniforme, os magnifique. O MEC exige uma formação a nível de ensino médio para a Educação Infantil (creches e pré-escolas). E Pedagogia ou licenciaturas para o Fundamental e Médio.

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Os invejosos dirão que é fake.

Ou seja, a maioria dos pais poderia pelo menos nos primeiros anos atuar como educadores. E melhor: sendo, além de professores, pais (dã), eles poderiam determinar, em conjunto com a criança, os próximos passos da própria formação. Há diversas possibilidades. Como a utilização de conteúdo digital, como o projeto CrashCourse dos irmãos Hank e John Green ou a Khan Academy.

Apenas para citar outros projetos, vsauce, SciShow, minutephysics, asapSCIENCE, TED, CGPGrey, periodicvideos, SmarterEveryDay, minuteearth. E isso apenas dentro do espectro que reúne as matérias “tradicionais” (biologia, química, física, geografia, história, literatura). O YouTube permite, por exemplo, contato com uma infinidade de outros campos. Apenas citando, o incrível canal thebrainscoop (que fala sobre taxidermia, biologia, museus e muitos, frise muitos, animais mortos ) ou o indymogul que tangencia diversos aspectos da produção cinematográfica.

São uma parte, na verdade, da imensa quantidade de conteúdo disponível na internet. Eles compartilham algumas coisas em comum. Primeiro, todos utilizam uma didática audiovisual que muitas vezes excede a capacidade de qualquer professor ordinário (no sentido exato da palavra). Segundo, todos estão em inglês. Com algumas exceções, em que há alguma legenda disponível, a maioria impõe uma barreira linguística.

Mas a ideia aqui é básica. Se você tem indivíduos bilíngues (e o devido incentivo), você consegue tornar o conteúdo mais acessível. Tome esse exemplo. Não tem como se atribuir um peso menor para a importância de aprender o inglês. Mas isso não ocorreu na minha vida estudantil. Estudei até o primeiro ano do ensino médio em uma escola pública, que foi uma sucessão de professores despreparados e relapsos, falta de foco e lições que pareciam tão conectadas com o mundo real quanto o socialismo utópico.

Na escola particular, a realidade não foi tão diferente. Se aprende inglês de maneira tão fragmentada (muitas vezes, simplesmente omitindo o listening por completo) que me dá até ânsia. A maior parte do que aprendi, fiz sozinho. E não é difícil. O meu eu infanto-juvenil acabou se guiando e aprendendo. Imagine o que não pode ser feito com a devida orientação.

A licenciatura como existe está errada. Ao se isolar numa universidade o professor perde contato com a realidade e raramente vai conseguir voltar. Depois, é obrigado a se sujeitar à matriz curricular definida pelo MEC e, bem, vocês sabem o final da história. Essa figura ainda é necessária, porque não adianta você adquirir um otimismo empolgado com a revolução educacional pela internet sendo que o mundo ainda continuará com os vestibulares.

Mas se você, num futuro próximo, planeja aumentar a população mundial, pense carinhosamente em participar mais da educação da sua prole. Descubra, com eles, quais são suas habilidades, defeitos, vontades. Tente, ao máximo, reverter o processo de enjaulamento e seleção de “habilidades ideais” que recebe o nome de educação formal. Se for surrar seu filho, deixe a cinta de lado e bata nele com exemplares da literatura universal. Okay, talvez é melhor não. Ninguém quer que seu filho fique com trauma de Shakespeare.

Eu pretendo ter meios financeiros, judiciais e de tempo para, caso eu tenha filhos, educá-los em casa. Eu sei das dificuldades a que eles – e eu – estaremos sujeitos, mas acho que valerá a pena. E para quem acha que o convívio social ao qual se é forçado quando educado em uma escola tradicional é imprescindível: ministrarei, eu mesmo, aulas de “Como As Pessoas Costumam Ser Bastante Escrotas e Esse é o Comportamento Padrão, Então Se Acostumem”.

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Professor titular das aulas práticas de “Como As Pessoas Costumam Ser Bastante Escrotas e Esse é o Comportamento Padrão, Então Se Acostumem”

Sei que abordei um pouco levianamente o assunto, então, por favor, deixem comentários que eu retomarei o tópico. Mas eu estou tendo uma crise de rinite e tá difícil viver no momento.

Viva o Google Trends

Os filósofos gregos que me perdoem, mas eles não se adaptariam a nossa era. Eles floresceram porque foram, de certa forma, pioneiros. Mesmo que não tenham sido os primeiros de fato, foram os que deixaram um certo registro que foi sobrevivendo – e sendo alterado – através dos séculos. Admitamos que Sócrates não teria chances em um mundo com sete bilhões de pessoas, no qual tudo parece ter sido dito e a chance de parecer original é quase nula.

Aristóteles não aguentaria a morte do conhecimento individual. Hoje nosso comportamento é massivo. As ideias não são mais pessoais e individualizadas. É como se tivéssemos uma população dividida, como em um gráfico de pizza. Você com certeza pode ser encaixado em um dos setores desse gráfico. E terá amiguinhos para compartilhar suas ideias.

Pitágoras encontraria os amiguinhos dele em uma comunidade de “Eu odeio feijão” no Orkut, mas teria dificuldade em ser publicado. É provável que o ócio dos gregos recebesse outro adjetivo pátrio. E honestamente? A morte do indivíduo é um fenômeno interessantíssimo. E devo agradecer ao ócio grego por me permitir enxergar isso.

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Imagine mentalmente a música do Harlem Shake tocando enquanto você assiste ao GIF. Ele é uma metáfora para a pergunta “Seria Sócrates um pré-socrático?”

Todo esse papo de filósofos queria chegar a dois pontos principais. Estar sem ter o que fazer é ótimo. Agradeço aos gregos por isso. E a coletividade e a massificação acabam por serem um ótimo objeto de estudo. Essas duas coisas – ócio e estudo de massa – se combinam no Google Trends. E eu agradeço ao Magno por isso.

O Trends, para quem não sabe, pega o registro de buscas no Google para fornecer dados e curiosidades estatísticas. E ele nos permite demonstrar perfeitamente esse comportamento massivo e esquisito de uma humanidade de sete bilhões de pessoas. Okay. Tudo bem. O Trends é um simulacro da humanidade de sete bilhões de pessoas, pois acaba reunindo informações de uma parcela com acesso à internet. Mas a maioria de nós não costuma ser muito preocupado com o pessoal que não tem acesso à internet, né?

O site nos mostra desde coisas banais e previsíveis, como a evolução das buscas por gripe suína após o surto midiático, a outras, no mínimo, curiosas. Por exemplo, o interesse sobre queimadura com limões tem records periódicos que coincidem com as férias. Ou que o estado que mais procura por “esperança” é a Paraíba. Também indicam coisas bonitas. Como a busca em diferir “mais de mas”, com um interesse crescente que chega a dar emoção.

Em maio de 2009 aconteceu alguma coisa bem interessante. Foi atingido o pico de buscas por “como fazer sexo”. Espero que as pessoas tenham descoberto. Ainda no ramo do conhecimento, mas não sexual, fico feliz que as procuras por “asterístico” tenham diminuído. Mas nem tudo são flores. As buscas por viajem estão aumentando. A sorte é que o Google tem aquela maneira toda delicada de dizer que você é analfabeto.

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“Você quis dizer:” – o Google faz parecer que ser burro foi algo acidental.

Eu podia procurar sobre coisas que realmente fariam alguma diferença. Acho que seria o que um filósofo grego faria. Mas a tentação de procurar quais são as tendências sobre bafo de cebola, sorvete de milho, ou por que diabos esse crescimento súbito para “perdi as chaves”?! É verdade que a precisão do Google Trends é bastante questionável principalmente porque ele depende de um certo volume de pesquisas.

Mas é um exercício divertido. Olhar as pesquisas relacionadas ao termo “as gata”. E se você não sabe as datas do alistamento militar, basta dar uma olhada no Google Trends. Parece que o 2 é o mais popular dos cinco primeiros números. E você achando que ser o primeiro era o mais importante. A verdade é que esse post não queria mostrar uma verdade chocante (se é que algum outro post quis), mas apenas apresentar uma ferramenta que pode ser útil para vencer o tédio.

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Um pesadelo recorrente do Pitágoras…

Quando você não tiver nada melhor para fazer. Dê uma chance ao Google Trends. Tem uma mosca atrapalhando minha concentração. Vou procurar no Google o que devo fazer. Eu não consigo deixar de imaginar o que os filósofos gregos pesquisariam no Google Trends. Talvez Pitágoras seja o mais simples de imaginar. Ele provavelmente procuraria por feijão. E evitaria os lugares que têm muitas buscas sobre o assunto.

E mesmo que as minhas buscas no Trends façam nossa coletividade parecer um pouco idiota e embasbacada. Eu tenho certo orgulho por saber que o interesse em descobrir “o que é o amor” está crescente. Ou que as pessoas se preocupam com os piolhos de maneira quase constante desde 2004. Ainda há fé na humanidade. Quer dizer… ainda há fé na humanidade?

Livros de inverno e literatura “de verdade”

Eu corro dois riscos escrevendo esse post. O primeiro é o de soar repetitivo. Afinal, tenho a impressão de que já discorri diretamente sobre o tema em pelo menos dois posts e indiretamente em outros tantos. O segundo risco é o de ser um tempo gasto inutilmente. No entanto, eu venho remoendo o assunto há mais de nove horas, desde que li esse artigo.

Dando vazão a minha insônia, aqui estou eu. E a única impressão que tenho sobre o artigo (se você não o leu, leia, talvez discorde de mim, o que seria ótimo) é que é pura dor de cotovelo. Imagino o diálogo interior travado pelo autor do texto. “Porra, aquela merda tá vendendo milhões”. “Qualquer um podia ter escrito aquilo lá”. “Não acredito que 50 Tons divide estante com Machado de Assis, indulgentemente relegado às traças e a edições meia boca”.

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“Ora, é claro que tu podes tirar um retrato, porém tu precisas ser rápido visto que a sessão de autógrafos com o gênio que escreveu esse livro já está para acabar”

Imagino que o juízo que Hatoum faz acerca de suas próprias obras não seja ruim. Mas ele prefere citar a literatura universal, numa espécie de tentativa de transmitir impessoalidade. Eu concordo que Graciliano Ramos tem uma técnica que ainda é muito superior à que Stephenie Meyer provou. É verdade que suas reflexões são muito mais profundas e mesmo o contexto histórico e a vida do autor poderiam ser argumentos que justificariam uma balança de qualidade pendendo para o lado dele.

Porém, isso não dá credibilidade a Milton Hatoum ou a qualquer pessoa para colocar o dedo indicador na sua posição predileta e rotular uma como melhor que a outra. Eu não entendo a incapacidade dessa corja intelectualizada em conciliação. Parece que não é possível haver um mundo no qual pessoas se divirtam com vampiros fluorescentes (a maioria delas em um processo de amadurecimento, que justifica completamente sua predileção por uma coisa mais simples) e outras que gostem de sofrer com a realidade seca das palavras de Graciliano Ramos.

Entretenimento e seriedade não são mutuamente exclusivos. O que justamente dá a Machado de Assis a sua genialidade é a capacidade que ele teve de traçar um perfil crítico da sociedade de sua época e a tornar até mesmo engraçada, sob as ironias que ele constrói. A literatura e, sobre ela, a arte fornecem um campo que pode ser preenchido de qualquer maneira. E isso a faz especial.

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“Aula de matemática básica pessoal! É possível somar as coisas. Literatura pode entreter e informar. Pode divertir e criar senso crítico. Pode até ser erótica! Ou melhor, pode ser, ao mesmo tempo, tudo isso e ainda mais. Mas não há nada de errado se ela for apenas um desses”

A leitura é uma forma de entretenimento. Subjugar a literatura de entretenimento é o mesmo que arrancar um braço de um polvo. Você provavelmente vai poder contar para os seus amigos (ou escrever sobre isso no Estadão), mas na verdade nem você nem o polvo vão lucrar. Atacar a literatura prazerosa e despreocupada é subtrair funções da literatura. É diminui-la.

Na tentativa de compreender as motivações que levaram Hatoum a atacar a literatura de entretenimento, só me vem a imagem da dor de cotovelo. Talvez, naquele mesmo diálogo interior, ele foi confrontado com uma voz acusadora, que dizia “Então por que não fez?”. Não, ele não poderia baixar o nível, afinal, supostamente a literatura de verdade deve englobar as características que definem as obras citadas aos caminhões naquele texto.

Mas eu te digo algo. Talvez a literatura de entretenimento seja a mais importante de todas. Quando sair uma biografia do Hatoum, eu provavelmente vou querer comprar, porque ao que parece ele lia Schopenhauer no ventre materno. Se ainda lhe parece justificável rotular as coisas dessa maneira, os livros de verão são um belo portal para uma posterior imersão na literatura “de verdade”. Eu fico imaginando se Hatoum definiria sua própria obra como livros de verão ou literatura “de verdade”. Creio que ele argumente que o tempo se encarregará de provar o que é essa tal de literatura de verdade.

Note que, no título, ele tomou o cuidado de se referir à suposta “baixa literatura” apenas por “livros”. Livros são entidades físicas, terrenas. Já a literatura é algo metafísico, transcedental e por assim vai. Isso, somado à aproximação bisonha da literatura à solidão trazem a imagem de um menino fazendo birra. “Vocês não gostam da minha literatura porque não a entendem”. “Sou bom demais para essa gente”. O gênio incompreendido.

A literatura tem sim um quê de solidão, mas não era desse sentimento que Hatoum estava falando. Escritor, ele usou um eufemismo bastante oportuno. Isso porque a palavra “elitizada” soa um pouco mal. Mas é exatamente isso que Hatoum endossa quando parafraseia algum qualquer para dizer que literatura “de verdade” é para poucos. Nota-se que ele pouco se difere dos hipsters e indies, que regozijam fazer parte de uma minoria risível, apenas por ser uma minoria. É a ideia de exclusividade.

Foi a partir de livros infantis, muitos deles com função única de entretenimento que eu me formei como um leitor. Se eu nascesse um pouco mais tarde, teria sido um leitor de Crepúsculo. Sim, Milton Hatoum, espante-se com isso.. Leitores de Cinquenta Tons de Cinza. Leitores. É impossível que o exercício de ler 480 páginas seja nulo. Mesmo que ele aumente o vocabulário de seu leitor em uma única palavra, foi um exercício pouco rentável, mas ela existiu. Não o estou atacando pessoalmente, é uma observação extremamente fortuita: quando li Dois Irmãos do Hatoum, não me senti nem um pouco intimidado, nem um pouco abismado, nem um pouco “leitor de literatura de verdade”.

É aliás, com grande supresa que notei quem escrevia. Se fosse alguém escondido pelo anonimato, tudo bem, era justificável. Mas me admira que ele tenha elencado tantos autores consagrados quando não encontrei vários dos elementos que configuram, segundo ele, a literatura “de verdade” no romance do próprio Hatoum. Mesmo assim, se me perguntassem, hoje, se valeria a pena gastar tempo lendo o livro, eu diria que sim.  Se me perguntassem sobre qualquer livro. Eu diria sim.

Porque não há tempo perdido lendo um livro ou assistindo a um filme. Não há tempo perdido com arte ou cultura. Pois mesmo que ele seja de todos o que menos gostamos (sejam lá quais razões), ainda poderemos fazer como fez o senhor do artigo e colocar nossos neurônios para dissertarem. Mesmo que nossos cérebros derretam enquanto assistimos Big Brother, analisá-lo por uma perspectiva sociológica, por exemplo, certamente seria um exercício produtivo. Aliás, esse tema não encerra por aqui, porque vocês com certeza vão prestigiar uma apologia ao Big Brother Brasil.

Porque há algo muito importante sobre o nosso momento literário e artístico. E ele é tão incrível que acaba influenciando na forma com que lemos literatura de outros tempos e épocas. É a morte definitiva do autor. É a consagração da arte como domínio público a partir do momento em que ela é criada, afinal, ela nem ao menos precisa ser divulgada mais. O acesso é vertiginoso, instantâneo e generalizado. Hatoum sugere uma volta ao medievo, na qual umas dúzias de pessoas detinham a cultura do mundo inteiro.

A contemporaneidade dá ao leitor, telespectador ou seja lá qual for o receptor a capacidade de ampliação de sentido, de construção de significado, de maximização. O leitor muitas vezes é capaz de tornar uma obra muito mais valiosa do que ela era inicialmente. E esse é o problema de Hatoum. Ele ataca a obra, como se ela contivesse um mal. A obra é apenas um esqueleto do que ela pode ser.

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Milton Hatoum, aos dois anos, lendo um livro do Sartre. Ele diz que entendeu tudo!

A evocação de outras realidades deixa claro que ele sabe que não é bem assim. Que a educação tornaria maior o interesse por leituras mais complexas, mas como julgar um texto que tem um único parágrafo que parece apontar para isso? Hatoum sabe que é o leitor que dá dimensão à obra. Isso seria, de fato, solucionado por uma melhor educação. Mas será que é isso o que ele realmente quer? O retorno à ideia da fusão da literatura com a solidão (o que na verdade quer dizer que a literatura “de verdade” é para poucos), ao fim do texto, acaba com qualquer indício de que o autor realmente deseja uma literatura não-elitizada.

Afinal de contas, se todos lessem Coração das Trevas, sobre qual livro ele iria poder destilar toda a sua intelectualidade em um artigo? Quem sabe em um mundo de pseudointelectuais, a literatura de entretenimento virasse objeto de culto. Imaginem! Teríamos um Milton Hatoum atacando a literatura pesada e enfadonha, subserviente a inúmeras influências e tarefas, que precisa ao mesmo tempo ser veículo político, de entretenimento e reflexão.

Ele poderia até manter o título. Citaria J.K. Rowling, Stephenie Meyer e E.L. James. Tolkien também pode ser uma boa. Stephen King, por que não? Infelizmente, ainda não vivemos esse mundo de inversão de valores e a simples citação desses autores ainda é desvalorizada. Mas esperemos pelo dia em que será lugar-comum ler qualquer escritor russo ou um modernista espevitado. Será uma forma de argumentar e construir uma imagem intelectualizada, apenas enumerar autores fora do senso comum da época (nossos atuais escritores de best-seller), como se isso fosse prova de nossa sapiência.

A literatura é fantástica o suficiente para englobar mundos distintos. Não há conflito entre esses diversos universos, que muitas vezes se entremeiam e geram as obras primas. Sabe o que eu acharia graça? Se pudéssemos ressucitar Machado de Assis ou qualquer figurão da literatura e o sujeito escrevesse um elogio à literatura de entretenimento (numa máquina de escrever, porque ele teria que ir se acostumando gradativamente às novas tecnologias).

É triste que a cultura seja restrita e pessoas com opiniões como a de Milton Hatoum só ampliam esse quadro horrível. Para definir com clareza o quanto a literatura atual se baseia no domínio público, estou com o livro de Hatoum aqui. Eu sei que mal dá para ver porque, no meu protesto silencioso, eu o coloquei sob vários “livros de verão”. Tem Harry Potter, tem até o livro do Hugh Laurie. Mas pode deixar, seu Miltão, porque isso não é uma ofensa. Considero esses livros tão livros quanto os outros que tenho em minha estante. Ela é bastante receptiva e não tem preconceito.

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“Milton o quê?” “Hatoum” “Não entendi” “Hatoum” “Ã?” “H – A – T – O… ah, deixa para lá, vou levar esse aqui do Paulo Coelho”

Está lá Saramago, que não gosta de ficar muito perto da Bíblia, mas que se dá incrivelmente bem com Graciliano Ramos. Acho que são os resquícios de ideais comunistas. Tem ali também Machado de Assis, que eu acho que anda tentando se aproximar de Clarice Lispector. Acho que ele quer uma prosa intimista com ela. Mas, sinceramente, o lado mais engraçado da minha estante é o que reúne Gregório de Mattos e Veríssimo. Você não sabe o que eu escuto vindo de lá.

Eu vou dormir. Porque talvez consiga, pelo menos em sonho, ver Machado de Assis, despreocupado, com um sorriso no rosto, lendo Paulo Coelho. Ou, quem sabe, Dois Irmãos, do Milton Hatoum.

Uma apologia ao Natal e ao Papai Noel

Todo ano é a mesma coisa. Pessoas, motivadas sabe-se lá por quais desventuras da vida, atacam a crença no Papai Noel e no Natal como se sentissem pessoalmente ofendidas por elas. Essas pessoas, no entanto, não entendem o papel crucial que o Natal e o Papai Noel desempenham para o mundo e para a existência humana.

Todas as virtudes natalinas, personificadas no Papai Noel, contribuem para tornar o momento da ceia natalina uma ocasião especial. A gratidão dentro de um ambiente familiar, simbolizada pela troca de presentes; as mensagens de esperança para o ano vindouro. A presença do Papai Noel e do Espírito Natalino, que tantos afirmam não existirem, faz-se de modo explicitamente visível nessas manifestações de solidariedade.

120403111958-large-e1333549976442“O alcance da nossa solidariedade é apenas até aqueles que compartilham das mesmas crenças que a gente. Não é mesmo, amigas?”

Infelizmente, as atitudes muitas vezes não saem das portas de casas. É difícil romper a barreira que separa o nosso conforto de uma realidade que muitas vezes nos choca. Por mais que façamos amigos secretos e confraternizações entre amigos de trabalho e familiares, dificilmente ajudamos estranhos.

E se isso já ocorre em um mundo no qual a maior parte da população acredita no Natal e tenta viver suas virtudes, imagine o que não aconteceria em universo descrente. Não. Precisamos do Papai Noel para que possamos negociar a ética e educar nossas crianças desde cedo pelo quid pro quo. Por que (e como?) explicar para uma criança que mal consegue discernir o preto do branco que a ética é tão complexa que mesmo inúmeros séculos e filósofos se passaram sem que houvesse um consenso?

É preciso a figura simples e previamente construída do Papai Noel para que a criança engula mais facilmente o porquê de ela ter de suprimir seus instintos egoístas. “Se você for um bom menino, ganhará um presente de Natal“. Além disso, tendo em vista a realidade que ameaça as ruas (a violência, as drogas, a promiscuidade), é preciso dar a nossas crianças uma dose de esperança.

Mesmo que ela seja surreal. É preciso dar às crianças algo para acreditar. Há um vazio existencial na humanidade e antes preenchê-lo de fatias de peru e tender, com uma mesa farta e um tio bêbado falando besteira, do que correr o risco de deixar nossas crianças à mercê do mundo. E sabe o maior problema? É que se não fizéssemos isso, é muito provável que elas realmente se afundassem nas drogas.

Porque não as ensinamos a pensar. Nós as fazemos deglutir a magia do Natal, pois ela é um modo simples e efetivo de evitar um pequeno desastre. Mesmo que desconfiemos que haja outra maneira de ensinar uma boa educação a uma criança, é mais simples chantageá-la. E esse é outro motivo pelo qual defendo o Natal. Porque somos, afinal de contas, muito preguiçosos.

pai autoritario“Escuta aqui, eu sei que deixamos você assistir televisão o dia inteiro. E que ela fica te bombardeando com anúncios falando que você precisa ter as coisas. Mas nós também vamos à missa todo domingo. E você precisa entender que, a despeito da enxurrada de publicidade, nós somos submissos aos ideais judaicos-cristãos. Eu não vou te explicar que roubar as coisas é errado segundo uma visão que cria o conceito de propriedade privada, porque você é muito novo para isso e, francamente, nem eu não entendo. Eu só quero que você acredite que se ficar roubando, não vai ganhar presentes no final do ano. Entendeu?”

Também pudera: vivemos uma rotina árdua, na qual contam-se os dias da semana até o próximo feriado. O Natal não é apenas um momento em que você extravasa e expurga sentimentos ruins e estresse acumulados. Aquele pequeno rito é uma tentativa de não pensar. De se entregar ao destino. Passamos tanto tempo planejando nossa vida, gerenciando gastos, que é naquelas horas da reunião natalina que podemos nos confortar com a ideia de que não precisamos nos preocupar. De que há algo maior tomando conta de nós.

Mesmo que alguns considerem falsos os abraços, mentirosos os sorrisos, as fotografias de uma noite de Natal provam que talvez o efeito que as coisas tenham seja mais valioso que o custo de suas causas. Ver que, pelo menos ali, familiares que se odeiam fingiram não existir mágoas já faz valer a pena.

Afinal, uma mentira dita muitas vezes, por muitas pessoas, quem sabe, acaba se tornando uma verdade. Tudo isso só faz com que eu conclua que as pessoas que não gostam do Natal devem ter alguma coisa de errado. É verdade, o Papai Noel é praticamente uma invenção da Coca Cola, é uma festa do consumo, mas será que essas pessoas não enxergam a importância dessas figuras para a nossa cultura, para a nossa vida?

Eu não consigo acreditar em alguém que não acredite. E acho que é esse o meu erro. Eu vejo no Papai Noel e no Natal uma extensão da minha personalidade. Eu amo decorar a arvore natalina. Por não conseguir enxergar minha vida sem esse pequeno mimo, eu não aceito que outras pessoas digam algo que considero uma heresia. Mas ultimamente o mundo vai tão mal. Há tantas pessoas que não creem no Natal, que eu venho sendo obrigado a respeitá-los. Não por concordar com eles, mas porque eles são muitos.

Isso é difícil para mim. Porque apesar de a sociedade considerar polido e de bom grado que haja a tolerância, dentro da minha família há um ambiente muito ruim para aqueles que não acreditam no Natal. Nas reuniões que precedem as festas natalinas, o tema sempre retorna. Um dos meus pedidos ao Papai Noel é de que aqueles que não acreditam no poder do Natal passem a crer.

Porque seria horrível perder a chance de ganhar presentes no Natal. Por isso, qualquer conduta que seja improcedente com os valores natalinos é evitada. Não porque haja, de fato, um raciocínio sobre a ética e as justificativas desses valores. Mas apenas pela pressão social exercida, desde a nossa infância, que nos atemoriza sob a possibilidade de não ganhar presentes no final do ano.

mitosAlguns mitos são inofensivos, outros não.

É por isso que, às vezes, tenho pequenas discussões com amigos próximos. Eles insistem em dizer que algumas condutas minhas são desnecessárias. Tenho um amigo que fala que pendurar as meias de Natal é retrógrado, que é um hábito há muito tempo já desmistificado. Mas sou obrigado a dizer que não posso voltar atrás nas minhas crenças. Porque a minha criação diz que pendurar as meias de Natal é um dos pré-requisitos para que toda a magia natalina ocorra. Eu não posso correr o risco de perder meus presentes.

Como nosso senso de irmandade é muito forte dentro do período de Natal, e como cada um de nós sente-se pessoalmente identificado com a causa, vestimos a camisa e buscamos representação política. Não apenas isso. Acreditamos que o Natal fez tão bem para nós que ele deve ser passado adiante. Como não consigo enxergar um mundo sem Papai Noel, acho que todo o mundo deve acreditar nele.

Algumas pessoas me consideram radical. Acham que não devo querer expandir o Natal para além do 25 de dezembro. Mas, eu me pergunto, depois de tudo isso que eu falei, vocês não concordam que todo dia deveria ser Natal? De que se todas as pessoas acreditassem no Papai Noel viveríamos uma única irmandade, trocaríamos presentes, imagine! Um amigo secreto globalizado.

SantaJesus02paidPapai Noel e algum desconhecido apostando quebra de braços. Provavelmente um fã com uma ideia inusitada para a foto.

Pode parecer utopia, mas eu realmente espero que isso um dia aconteça. Acho que se todos realmente temessem perder seus presentes de Natal, não existiria mais crime. Todos seríamos felizes.

Um post sobre segurança na internet (para ser lido em uma voz-interior paternal e conselheira)

Olha, eu realmente sentia que deveria jogar no fogo naquele pedaço de papel verde que está jogado em algum canto da casa, caso eu não escrevesse esse post. Se aquilo (o RG, para os que não pegaram a metáfora) é a documentação física da nossa cidadania (ou seria o título de eleitor? ou os comprovantes de votação? quem saberá?), acho que me abster de escrever esse post me forçaria a tacar fogo nela.

O recado é bastante simples: tome cuidado com seus dados pela internet. Em recentes incursões, descobri que é bastante fácil, com o auxílio do Google e de um pouco de lógica, angariar não apenas dados levianos, mas coisas que poderiam ser bastante prejudiciais se usadas por alguém mal intencionado. Esse post é mais para repensarmos algumas situações que nos deixam bastante expostos, então vamos lá:

A maldita TeleListas.net é um ótimo ponto de partida. Esse site é um compêndio de dados que incluem seu telefone e seu endereço. Acredite, eu faria o mínimo de esforço de, se seus dados estiverem por lá, entrar em contato por aqui para pedir a exclusão. Entretanto, se você foi atento o suficiente para ler o rodapé, saberá que esse esforço pode ser em vão. Isso porque a maldita lista é atualizada automaticamente e seus dados podem ser reincluidos. Para a exclusão definitiva, é claro, é preciso ter mais dor de cabeça.

Esse é o momento em que parece dúbio se realmente vale a pena se preocupar com isso. Acontece que esses dados podem ser um ponto de partida valioso. Gente com sobrenome peculiar, como eu, costuma ser bizarramente fácil de encontrar, tanto em redes sociais, como em qualquer busca simples. Não sei quanto a vocês, mas apenas o fato de que alguém pode ter fácil acesso ao endereço da minha casa já me parece uma justificativa bastante plausível.

outro-estranho-no-ninho11Essa é a metáfora imagética para ter um sobrenome peculiar

De posse de um nome e de um endereço, qualquer um pode fazer uma ligação e se passar por uma empresa de qualquer coisa pedindo uma confirmação de dados. Pode parecer bobo, mas a maioria de nós nem sequer atentaria para a possibilidade de ser um golpe. Parece incrivelmente óbvio agora, porém tente realmente se imaginar em casa, quando o telefone toca.

A pessoa informa que é da empresa X, provavelmente uma que realiza tratamento de água ou fornecimento de energia elétrica na cidade (visto que há grandes chances de você ser cliente dela), informa seu nome completo, seu endereço e pede seu RG e o CPF. É complicado, mas sem nenhum aviso prévio, não há razões para desconfiar.

Tudo bem, imaginemos que você não caia no golpe do recadastramento. Faça uma busca pelo seu nome completo pelo Google, usando aspas. Pode ser que nada retorne, mas há alguns resultados potencialmente perigosos. Processos judiciários, em alguns casos, são indexados pelo Google. E adivinhe: um desses costumes da nossa justiça é se referir às partes do processo como “brasileiro, branco, 43 anos, portador do RG tal, viúvo, vendedor de cachorro quente”.

Agora olha que interessante: com um pouco mais de paciência, ou sorte, seu stalker pode descobrir que você prestou algum concurso público ou vestibular. O bizarro site da UEM divulgou a lista de todo mundo que prestou vestibular. Com as notas. Tá lá. Em um dos listões da ACAFE, como se esse vestibular não fosse bizonho o suficiente, estavam lá os RGs da rapazeada. Infelizmente não consegui achar o link, mas estou praticamente certo de que estava lá.

Não parece preocupante? Pois imagine a seguinte situação: eu descubro o endereço e telefone de uma senhora com um distinto sobrenome. Depois, descubro, acessando um Facebook da vida, que a donairosa mulher tem uma filha. Pasmém! Em idade vestibulável. Um Google no nome da menina revela o RG da garota, que passou em um vestibular há algum tempo. Seu Facebook, porém, revela que ela continua fazendo cursinho. Hmm, será que Pedagogia não era o sonho dela?

Pelo que parece, não. Afinal, todos os posts públicos do perfil da menina falam sobre “Medicina da Depressão”. Vestibulanda de Medicina, então. Provavelmente passa o dia fora, estudando. Isso ou não vai nem tangenciar a nota de corte. Ligar em horário comercial é um potencial indício de que a menina vai estar na rua. E mais: sabendo onde fica o cursinho, dá a dica dos lugares frequentados pela menina.

E para que tudo isso? Basta um telefonema para a nossa mamãe, com um tom ameaçador e algumas gírias indecorosas para deixá-la assustada. Jogar dados como o RG ou falar que “pegou a menina saindo do cursinho e levou embora no carro”, em um estado de choque gerado por um anúncio de sequestro via telefone, faria qualquer pessoa se aterrorizar. Falar que a menina está implorando para não ser morta porque não quer perder o sonho de ser médica faria o mais racional dos pais molhar as calças.

I+don+t+know+who+you+are.+I+don+t+know+what+_b40790232cf1ab8b3e4303946a342135“Nóis tá com teu filho. Tá feio pra caralho nesse RG aqui. Precisa que fale o número da fita ou cê vai depositar logo a grana? Tá chorando igual mocinha aqui. Olha que eu corto a orelha dele. Heim. Vai ficá igual ao Van Gogh tirando a parte de ser um pintor de tendências impressionistas de sucesso póstumo porque ele vai tar morto bem antes disso. Morô?”

É fácil analisar todos os pontos furados dessa história na frieza de uma cadeira desconfortável, com um calor desanimador e o tédio corroendo. Eu fico imaginando se o racionalismo funciona tão bem sob a ameaça da morte de um filho. A quantidade de dados que podem ser retirados de maneira, até onde eu saiba, completamente legal, apenas fuçando sites de busca e de relacionamentos é infindável.

Acompanhar qualquer Twitter ou Facebook público faz você saber coisas tão pessoais sobre o usuário, que apenas alguém muito próximo teria conhecimento. As pessoas enxergam o computador como uma extensão da própria rede de amizades, o que é verdade, mas sem atentar à exposição pública. É particularmente conveniente que eu faça esse post, porque o Facebook acabou de promover modificações que facilitam, e muito, um maior controle acerca do que se expõe na rede social.

O @acabei pode ser testemunha de que mesmo com um nome comum é possível encontrar coisas como um vídeo em que ele toca triângulo em um evento de escola maravilhoso. Imagine se a pior coisa que pudessem encontrar de você não fosse um ingênuo e inocente episódio de solo de idiofone triangular, mas coisas… piores.

Isso foi, em parte, motivado por uma reflexão que acabou me acometendo. Eu, que sempre fui partidário da ideia de exposição máxima, de que a configuração “Público” do Facebook era algo incentivável, estou revendo esses conceitos. Porque de certa forma as coisas estão ficando perigosas. Eu não me refiro apenas a ameaças de sequestro. Há toda uma sorte de possibilidades que envolvem uso de dados pessoais.

E há uma razão para que esses dados recebam esse adjetivo. Foi-se o tempo em que o pessoal se cadastrava no Orkut com e-mail que não existia e a rapazeada ia lá, criava o e-mail, e roubava a conta da pessoa. Hoje, qualquer pessoa com tempo livre e um pouco de raciocínio lógico consegue descobrir coisas que poderiam ser empregadas a fins mais obscuros do que atualizações de status que dizem “eu sou gay”.

142998488Melhor deletar a conta do Flogão, não é verdade?

Acho que é tempo de fazer uma busca por seus nicks antigos, dar um jeito de deletar aqueles Flogões e fazer algumas alterações no perfil do Facebook. Pode ser que isso salve sua vida. Espero que você tenha usado uma voz mental, para ler esse post, que soasse como a voz de um ancião transmitindo um conselho valiosíssimo. Porque tirando a parte do ancião, a outra também é mentira.